Festival Varilux de Cinema Francês | parte 03

19 04 2014

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OS INCOMPREENDIDOS (França, 1959) – Não tem como começar a falar de Os Incompreendidos sem citar sua cena inicial, que percorre as ruas centrais de Paris com a câmera sempre apontada para a Torre Eiffel. Uma das maiores demonstrações de amor à França já realizada pelo cinema.

Da mesma forma, temos que reconhecer os benefícios que a projeção digital traz aos filmes, principalmente os antigos. Os Incompreendidos, de François Truffaut filmado em 1959, ganha uma versão restaurada no novo formato, que realça ainda mais toda a beleza de sua fotografia em preto-e-branco.

Para sua época, Os Incompreendidos traz uma família extremamente moderna. A figura materna que cabe a atriz Claire Maurier (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Minhas Tardes com Margueritte) é extremamente independente, trabalhando fora para auxiliar no sustento da casa juntamente com o pai. O filho, Antoine (Jean-Pierre Léaud, Beijos Proibidos e Masculino-Feminino), também tem uma educação diferenciada e igualmente independente pois está ciente de seus afazeres domésticos e escolares.

A educação, no entanto, não acompanha a mesma modernidade do círculo familiar. Escolas separadas por sexo e professores severos com seus sistemas primitivos de punição aos alunos irrequietos. Um ambiente não recomendável para Antoine que (assim como a maioria das crianças na sua idade) gostava de desafiar as regras.

De lá para cá pouca coisa mudou na vida dos alunos (pré)adolescentes. O que mudou radicalmente, sim, foram os motivos que levavam os estudantes a burlar as aulas. As contravenções eram baseadas no compartilhamento de calendários de borracharia (e suas mulheres semi-nuas) ou os cinemas de rua da época ou, ainda, uma versão inicial do que seria hoje os parques de diversão. Tudo para, em seguida, a ausência do dia anterior ser justificada pela morte de algum membro familiar.

Nada que o protagonista temesse, nem mesmo a ameaça de ser transferido para um internato militar (muito mais severo que a sociedade externa em que vivia), o que fatalmente ocorreria. Sinal de que a rebeldia juvenil não é nenhuma novidade e nem  um comportamento recente, como já dizia Elis Regina: ”vivemos como nossos pais”.

NOTA: 5/5

LULU, NUA E CRUA (França, 2013) – Lucie (Karin Viard, Delicatessen e Políssia), mas pode chamar de Lulu, é uma mulher casada e com filhos que vive a crise da meia idade, não satisfeita com os rumos que sua vida tomou. Grande parte da responsabilidade por esses infortúnios é gerada pelo seu marido, um cara extremamente desrespeitoso com ela. Nem é preciso conhecê-lo para sabermos disso, uma simples ligação e a rispidez de sua voz já nos é suficiente.

Lulu demorou muito para lidar com toda essa situação até que decide, em certo ponto de sua vida, procurar um novo emprego longe de sua cidade. Nem há necessidade de mencionar a total ausência de apoio por parte da família. A desilusão dela é tanta que chega a entrar no banheiro masculino sem perceber.

Acostumada a ser submissa e desvalorizada a todo instante como pessoa, os percalços enfrentados quando decide dar uma guinada em sua vida não a incomodam nem um pouco. Com muita naturalidade que Lulu perde o seu trem de volta, não se aborrece quando tem o cartão do banco retido pelo caixa eletrônico e não tem dinheiro nem para se hospedar e muito menos para comer. Nada a abala.

Ela, porém, não enfrentará essas mudanças sozinhas. Outras pessoas a auxiliarão a se reencontrar consigo mesma e assim tornar-se alguém com mais amor próprio. Inclui-se aí Charles (Bouli Lanners, Ferrugem e Osso, A Grande Volta e Uma Juíza sem Juízo), exemplo clássico de praticidade e simplicidade (vide a cena do celular na praia) e seus dois irmão desajustados; Marthe (Claude Gensac, Ela Vai e 22 Balas), uma senhora cheia de energia apesar da idade, que ensinará que nunca é tarde para recomeçar; e reconhecerá aspectos muito semelhantes de sua vida em uma garçonete que é ridicularizada pela dona do restaurante em que trabalha.

Misturando a dramédia com situações típicas de obras de auto-ajuda, Lulu, Nua e Crua tem lá a sua mensagem positiva, mas sofre um pouco com o ritmo da narrativa, não ultrapassando a linha limite dos filmes razoáveis, aceitáveis, mas que rapidamente cairão no esquecimento.

NOTA: 3/5

UM BELO DOMINGO (França, 2013) – Já presente em nosso terceiro festival Varilux, é interessante observar o modo como o olhar contemporâneo do cinema francês recai sobre as questões contemporâneas da sociedade atual. Um tema bastante recorrente na cinematografia francófona retratando pessoas e/ou famílias em busca de seus sonhos. Um Belo Domingo é mais um excelente dessa constatação.

Baptiste (Pierre Rochefort, Adeus Minha Rainha e O Sequestro de um Heroi) desempenha sua função de professor substituto (naquele que seria o nosso ensino fundamental) com certa satisfação, lidando com muita facilidade com seus alunos. Nada fora do usual até que as aulas de sexta-feira acabem.

O jovem professor percebe que um de seus alunos, Mathias (o novato Mathias Brezot), ainda se encontra na porta da escola muito tempo depois de todos já terem ido embora. Baptiste, então, oferece uma carona até a casa do menino onde encontra o pai bon vivant, mais preocupado com seu carro luxuoso, com a beldade de sua namorada e na viagem deles para Mônaco do que com aquele fardo que acabara de chegar, também conhecido como ‘seu filho’. Ciente da situação constrangedora que se encontra e não visualizando nenhuma alternativa, Baptiste se voluntaria (mais uma vez) a ficar com o garoto durante o final de semana.

Assim, Mathias tem a oportunidade de viajar com o professor (em uma sugestão sua) para o litoral, local onde sua mãe, Sandra (Louise Bourgoin, Um Evento Feliz e A Religiosa), trabalha num quiosque de requinte à beira-mar. Conhecendo-a, Baptiste entra em mais um novo conflito, já que Sandra vem sendo cobrada constantemente de um empréstimo que fez recentemente.

Numa sucessão de problemas a serem resolvidos (algo também bastante comum no cinema da França), Baptiste terá que desenterrar o seu passado para conseguir auxiliá-la. Um passado que não queria desenterrar tão cedo.

NOTA: 5/5





19º É Tudo Verdade | Campinas

18 04 2014

Após o sucesso das exibições de documentários no Rio de Janeiro e em São Paulo, o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade inicia sua itinerância pelo Brasil. Campinas, de 22 a 24 de abril, será a primeira cidade a recebê-la e depois, o festival ainda segue para Brasília (30/04 a 04/05) e Belo Horizonte (24 a 27/07).

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A cidade campineira receberá três sessões diárias no espaço Instituto CPFL | Cultura, incluindo os vencedores das mostras competitivas nacional e internacional, conforme a programação a seguir:

  • TERÇA-FEIRA (22/04)
    • 17h00 De Gravata e Unha Vermelha
    • 19h00 Homem Comum (vencedor da competição brasileira)*
    • 21h00 Ai Weiwei: O Caso Falso
  • QUARTA-FEIRA (23/04)
    • 17h00 Lugares: A Procura de Rusty James
    • 19h00 Sobre a Violência
    • 21h00 Um Homem Desaparece
  • QUINTA-FEIRA (24/04)
    • 17h00 Carmem Miranda: Bananas is my Business
    • 19h00 Jasmine (vencedor da competição internacional)
    • 21h00 20 Centavos

* Esta sessão contará com a presença do fundador e diretor do É Tudo Verdade, Amir Labaki.

 

 





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 02

13 04 2014

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SUZANNE (França, 2013) - Suzanne e Maria (Adèle Haenel, Lírios D’Água e L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância)  foram criadas apenas pelo pai, Nicolas Merevsky (François Damiens, Tango Livre e A Delicadeza do Amor) após perderem a mãe precocemente. Por ser caminhoneiro e ser pai solteiro, não restam dúvidas de como essa criação foi difícil. Mas mesmo não tendo muitas condições, ele conseguiu com muita propriedade, conduzi-las a maturidade com valores éticos e educacionais muito bem construídos e assimilados. O forte vínculo existente entre as duas irmãs é um indício disso.

Mas nem todos os problemas puderam ser evitados e Suzanne (Sara Forestier, Ervas Daninhas e O Amor é Um Crime Perfeito) acaba engravidando. As diversas passagens de tempo apresentadas sempre após o surgimento de alguma dificuldade mostram que, apesar dos pesares, os três (agora quatro) sempre conseguiram solucioná-los.

Entretanto, Suzanne era sempre a garota do contra. Grande parte disso por ser mimada e protegida pela irmã quando havia uma desavença mais séria com o pai. Não bastasse a situação limitada em se encontravam, Suzanne passa a querer viver o grande amor da sua vida, quando já não havia nem espaço e nem condições para a aventura. Como complicação pouca é bobagem, o seu ‘príncipe encantado’, Julien (o novato Paul Hamy, de Ela Vai), acaba conduzindo a personagem-título para o mundo do tráfico de drogas, onde Suzanne entrava sem questionar nada e sem dar satisfação para a família.

O longa de Katell Quillévéré, que também assina o roteito, prova o seu valor ao não julgar seus personagens e nem determinar o que é condenável ou não. Decisão que desperta reações ambíguas no espectador: se em certa cena condenamos Julien e Suzanne pela inconsequência de suas atitudes, por outro lado, não podemos deixar de reconhecer que realmente há um amor existente entre eles, que sobrevive à distância, ao tempo e às situações.

Tristeza mesmo é Suzanne não perceber que quem realmente sofre com suas ações é sua família. Embora Maria acabasse sempre a defendendo, suportando fardos que não lhe pertenciam, era nítido o desgosto do pai para com a protagonista; Charlie, o primeiro filho dela, acabou sendo judicialmente adotado por outra família, pois tia e avô não tinham condições de criá-lo. E ao que parece, Suzanne não reconhecerá esse sofrimento tão cedo, se é que o reconhecerá.

NOTA: 4/5

O PASSADO (França, 2013) - O iraniano Asghar Farhadi (A Separação) volta a lidar – com talento único – com o drama familiar. Uma trama sólida, complexa e difícil de se elucidar.

Mais denso que A Separação, O Passado (com seus vários ramos narrativos) também possui como questão central uma separação não concluída. Dessa vez Ahmed (Ali Mosaffa, Leila) retorna do Irã para finalizar o seu processo de divórcio com Marie (Bérénice Bejo, O Artista e A Datilógrafa), há mais de 4 anos separados. Mas nada é tão simples quanto parece: Marie mora com as filhas Léa (a pequena Jeanne Jestin) e Lucie (Pauline Burlet, Piaf – Um Hino ao Amor). A última, mais velha, não aceita o relacionamento da mãe com o novo namorado Samir (Tahar Rahim, O Príncipe do Deserto e O Profeta), pai do genioso Fouad (Elyes Aguis em seu primeiro longa), que também vivem com Marie.

A grande questão do longa está justamente em seu título. Cada personagem (com a exceção das crianças) traz consigo questões do passado em aberto que afetam diretamente o presente. A principal delas é a ex-esposa de Samir que está em estado de coma após tentativa de suicídio após a descoberta do caso extra-conjugal do marido. É em relação a esse grave incidente que todos (em maior ou menor grau) apresentam algum sentimento de culpa, mais baseado em suposições do que na verdade.

Inesperadamente, cabe a Ahmed o papel de articulador, e por conseguinte, solucionador desse conflito porque é o único personagem que consegue lidar facilmente com todos os envolvidos. E ele assume esse papel de apaziguador o tempo todo, com palcidez e serenidade incríveis, desde o momento em que pisa na casa de Marie até o momento em que parte novamente para o Irã.

NOTA: 5/5





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 01

12 04 2014

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UMA JUÍZA SEM JUÍZO (França, 2012) O nome (pelo menos o traduzido) não despertava a maior das curiosidades. O início do filme também não, quando optava por escolhas típicas da comédia besteirol ao forçar o riso com caretas, gestos bruscos e o velho clichê de utilizar a gagueira em um advogado que precisa discursar em defesa de seu cliente. Mas, para o seu bem, a trama se desenvolve e o nível de seu humor melhora.

Ariane Felder (Sabrine Kiberlain, O Pequeno Nicolau e Políssia) é uma workaholic assumida. Trabalha de 15 a 16 horas no Supremo tribunal francês. Muito trabalho, pouca diversão e uma solteirona convicta. Aí vem o Réveillon de 2013 e muda a história da doutora Felder que, seis meses depois, descobre estar grávida. Algo inacreditável, inconcebível!

A busca pelo pai da criança (que a bebida da noite da virada não a permitia lembrar) a aproxima de Bob Nolan (Albert Dupontel, de Irreversível e Bernie, mas que também dirige o longa), um sujeito tão desajeitado quanto ela e que é acusado de um crime bárbaro do qual não é culpado. E o álibi perfeito é exatamente a juíza, pois quando o crime ocorreu, os dois estavam juntos.

Entre deixar o pai de seu filho ser preso injustamente e testemunhar a favor dele e perder a sua promoção à Corte de Apelação, a doutora Felder ainda encontrará muitas pessoas excêntricas pelo caminho. Melhor para Uma Juíza Sem Juízo em sua metade final que deixa de enveredar pelo humor óbvio (mesmo restando alguns resquícios desse aqui e ali) e adota um humor mais discreto e indireto, utilizando-se mais das situações e do roteiro em si.

Destaque para a participação especial de Jean Dujardin (O Artista e O Lobo de Wall Street) como intérprete de sinais no filme.

NOTA: 3/5

ANTES DO INVERNO (França, 2012) O senhor Paul Natkinson (Daniel Auteuil, A Filha do Pai e Atirador de Elite) é um neurocirurgião com uma carreira profissional já estabelecida. Ele divide uma bela mansão com a esposa Lucie (a bela Kristin Scott Thomas, O Paciente Inglês e Assassinato em Gosford Park) e os momentos alegres de família reunida ocorrem aos finais de semana nos parques da cidade ao lado do filho, da nora e do neto.

Nada poderia abalar esse cotidiano familiar muito bem constituído. Uma certeza abalada apenas quando a jovem Lou (Leila Bekhti, Satã e Paris, Te Amo) surge na vida do médico. Alegando ter sido operada por ele quando criança, a garçonete/universitária/prostituta Lou passa a cruzar, frequentemente, o caminho do neurocirurgião. Fato esse sucedido por buquês de rosas que passam a aparecer no hospital onde ele trabalha, no consultório em que atende seus clientes particulares e até no portão de sua casa.

Intrigado e desconfiado, ele logo associa essas estranhas ocorrências à Lou, que consegue se explicar satisfatoriamente toda vez em que é acusada pelo doutor. Entre idas e vindas conturbadas e um afastamento involuntário de Paul de seu exercício profissional, os dois acabam se aproximando. Um inesperado relacionamento (não amoroso por parte dele) que distancia o doutor Natkinson da família e principalmente de sua esposa. Lucie, que por sua vez, sempre agiu fielmente e sempre foi uma grande admiradora do marido.

Tais acontecimentos são uma excelente oportunidade para Paul refletir sobre tudo o que levou a ser o excelente profissional que é e a forma com vinha lidando com sua família. Ao admitir que não sonhara com nada daquilo que conquistara, percebemos o quanto sua vida vinha sendo vivida no piloto automático. Um exemplo que sucesso nem sempre vem acompanhado de felicidade.

Mas suas atuais escolhas, que julgava serem sinceras, acabam o levando para um caminho perigoso. Lou, sempre presente de repente desaparece. E em busca de seu paradeiro, doutor Natkinson se vê vítima de uma trama que jamais imaginaria estar envolvido. Um choque que talvez o auxilie a melhorar o relacionamento com os seus familiares e, quem sabe, ser mais grato com tudo o que conseguiu construir.

NOTA: 5/5





19º Festival É Tudo Verdade | dia 03

12 04 2014

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BARDOT, A INCOMPREENDIDA (França, 2013) - Brigitte Bardot considerada uma das dez atrizes mais lindas da história do Cinema. Símbolo sexual na década de 60, Bardot conseguiu quebrar a hegemonia das americanas, sendo a única europeia a ganhar destaque e espaço na mídia dos EUA.

Tanto sucesso e beleza, rivalizando inclusive com Marilyn Monroe, despertou a paixão (platônica) em muitos(as) fãs. David Teboul é um desses homens que foram fisgados pela estonteante Bardot, cuja admiração o levou a realizar este documentário.

Talvez essa seja o maior problema do documentário. Embora faça uma abordagem ampla e detalhada de toda a carreira da atriz francesa, com uma pesquisa longa em fotos e trechos em que a atriz atuou, David privilegia a sua visão passional para abordar o universo construído ao redor de Brigitte Bardot, onde a sua admiração ganha mais valor em tela do que a persona da artista. Um mal uso do acesso exclusivo que o diretor teve com os arquivos pessoais daquela que, desde que abandonou a carreira artística, dedica-se a uma vida reclusa e toda dedicada a causa animal.

NOTA: 1/5

DOMINGUINHOS (Brasil, 2014)  Um pião rodando. Cactos. Bolinha de gude. Trote de cavalo. O movimento sincronizado com o som da respiração. Em imagens desgastadas, o documentário dirigido a seis mãos dos estreantes Joaquim Castro, Eduardo Nazarian e Mariana Aydar vai apresentando aquilo que fez parte da infância de José Domingos de Morais, mais conhecido por Dominguinhos (o Neném do Acordeão) em Garanhuns, estado de Pernambuco.

A influência do pai (também músico) com quem teve o primeiro contato com a sanfona, a inspiração nos baiões românticos de Luiz Gonzaga. Foi inclusive com a sanfona dada por ele que Dominguinhos conseguiu se firmar no Rio de Janeiro para onde se mudou, se apresentando nas barcas que realizavam a travessia Rio-Niterói.

Ao contrário de outras personalidades, Dominguinhos teve um amplo arquivo em imagens e vídeos para ilustrar as várias passagens da trajetória de seu simpático homenageado. Não há como não se divertir com os causos contados pelo próprio Dominguinhos, por exemplo, o seu arrependimento por não estar presentes nas diversas homenagens que recebeu no exterior devido o medo de voar. Vê-se o reconhecimento (não só nacional) à um artista humilde e autodidata que transitou por todos os estilos musicais com muita desenvoltura. Não a toa que outra de suas alcunhas era ser o ‘sanfoneiro pop’.

NOTA: 5/5

A FAMÍLIA DE ELIZABETH TEIXEIRA / SOBREVIVENTES DA GALILEIA (Brasil, 2014) -  Constituem mais dois bons motivos para você (assim como eu) que teve a ousadia de não ter assistido Cabra Marcado para Morrer. Feitos pelo documentarista Eduardo Coutinho para compor os extras do DVD de Cabra Marcado para Morrer, esses dois vídeos ganharam uma sessão especial na edição desse ano do festival É Tudo Verdade. Uma justíssima homenagem ao mestre dos documentários brasileiros, assassinado brutalmente no início desse ano.

Aqui, Coutinho leva o espectador a revisitar os personagens que sofreram com a história real de João Pedro Teixeira, líder da Liga dos Camponeses, assassinado em uma emboscada, retratada em Cabra Marcado para Morrer. Revisitar sim, pois os mesmos personagens ganham uma retrospectiva de suas faces com o passar dos anos na tela, auxiliando aqueles que não viram a obra original dos quais esses extras originaram. Uma família cujos membros carregam consigo a dor da falta do convívio harmônico de seus entes após a perda de seu patriarca.

Desde então, alguns se dispersaram pelo país com cicatrizes há mais de trinta anos abertas, escrevendo novas histórias de vida, sentindo falta daquela união comum entre uma família; outros, tentam sobreviver e assim preservar a história (de geração em geração) escrita por seus antepassados e os palcos onde ela foi encenada.

Brilhantemente, Eduardo Coutinho conduz esse reencontro entre personagens/espectador com um carisma e companheirismo únicos, capazes de trazer momentos de bom humor à uma história marcada pela tragédia. Características de uma índole que poucos documentaristas no mundo podem afirmar possuir.

NOTA: 5/5

 

—> A nossa cobertura especial do festival internacional de documentários É Tudo Verdade 2014 ainda contará com dois textos especiais sobre duas produções que consideramos serem os grandes destaques em nossa estadia de três dias no evento. Aguardem!





19º Festival É Tudo Verdade | dia 02

8 04 2014

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EIXO ÓPTICO (Rússia, 2013) – Esse documentário russo é dos típicos casos em que a premissa é interessante, mas a execução deixa a desejar.

A ideia de retratar as diferenças culturais, sociais e tecnológicas entre os 100 anos que separam a Rússia atual daquela registrada pelo fotógrafo Maxim Dmitriev é interessante. Para tanto a diretora Marina Razbezhkina utiliza gigantescas fotos em preto-e-branco, e nos mesmos cenários com ajuda de personagens análogos, tenta reconstruir a mesma visão (mais contemporânea) da fotografia.

Só que ao invés de se limitar ao contraste entre as fotografias, o documentário passa a se focar mais e demoradamente nos novos e desconhecidos personagens tornando o projeto longo e cansativo em excesso.

NOTA: 1/5

BERNARDES (Brasil, 2013) O brasileiro Sérgio Bernardes foi um arquiteto, que pertencendo à mesma leva de profissionais de calibre como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, tinha uma visão e ambição muito além da época em que vivia. Com um talento nato para a arquitetura, um dom que desenvolvia desde pequeno, era tanto a sua criatividade que muitos de seus projetos (grande maioria deles residenciais no início da carreira) chegavam a ser confundidos com os de Niemeyer.

Além de criativo, Bernardes também era visionário. Evidências não faltam. Sejam aquelas espalhadas pelo território brasileiro (residências pelo estado carioca como a residência da família do arquiteto ou a do cirurgião-plástico Ivo Pitanguy), o Tropical Hotel Tambaú em João Pessoa (localizado no extremo oriente do litoral brasileiro e seus detalhes minuciosos únicos), o Pavilhão São Cristóvão no Rio (mesmo desfigurado sem a cobertura original, que exigia alto investimento em manutenção) ou no exterior, com o Pavilhão Brasil em Bruxelas cujo balão vermelho exercia diferentes funções conforme o clima. Mas muitos outros tesouros, fruto da mente de Bernardes, podem ser descoberta nos documentos deixados por seu extinto escritório.

Por outro lado, o documentário também retrata com propriedade os motivos pelos quais Sérgio Bernardes é um nome ignorado pela arquitetura contemporânea brasileira. Bernardes trabalhava com muito afinco, “inventando coisas sem parar”. Tinha em mente algo que falta a nossa política desde sempre: um planejamento em longo prazo em seus projetos, vislumbrando um Rio de Janeiro organizado em vários micros distritos e um Brasil futurista servido nacionalmente por grandes vias fluviais. O trabalho do arquiteto funcionava constantemente assim, em larga escala. E com o advento do golpe militar em 1964, havia um ambiente propício para a realização dessas grandes obras, o mais próximo possível que esse grande trabalho de Bernardes teve de sair dos papéis e virar algo, digamos, concreto.

Uma grande injustiça! O modo de viver intenso de Sérgio (que sabia aproveitar como ninguém a vida e oferecia isso em seus projetos residenciais de alto-padrão), não o permitia se entregar às picuinhas e burocracias que permeavam e ainda permeiam o nosso mundo político. Ele não tinha nenhuma vocação para isso. O que realmente  jogou contra o reconhecimento da genialidade de Sérgio Bernardes foi sua ambição desenfreada e sua ingenuidade política, que em conjunto, colocaram o arquiteto fora das quatro linhas do campo da arquitetura brasileira. Erro histórico que pesquisas acadêmicas em cima de seus milhares projetos e desenhos poderão corrigir e, assim, recolocar o nome de Sérgio Bernardes em destaque novamente.

NOTA: 5/5

AI WEIWEI: O CASO FALSO (Dinamarca, 2013) – Tem como protagonista Ai Weiwei, artista plástico e designer arquitetônico chinês, que viveu um inferno jurídico ao ser acusado pelo governo chinês de ser subversivo, principalmente por suas atividades virtuais e ser considerado um grande influenciador político.

Para exercer a sua censura, o governo chinês utiliza-se de várias artimanhas para prender Weiwei e assim calá-lo, já que respondia os processos em prisão domiciliar. Valia tudo, até acusações de algo que não existe na China (sonegação fiscal) ou pornografia em uma das fotos de nudez que tem a participação do artista. A perseguição política, inclusive, é algo recorrente na família dele. Seu pai sofreu a mesma pressão em 1957.

Conhecido pela sua participação na construção do Ninho de Pássaro, o Estádio Nacional, para as Olimpíadas de 2008, Weiwei contou com grande apoio popular de chineses e de seus amigos artistas e/ou da imprensa internacional nesse período. Ao mesmo tempo em que enfrentava o furor do maniqueísta poder judiciário chinês, o artista tratava de abordar artisticamente o que vivenciara. Enquanto era “perdoado” pela justiça, as peças que retratavam o interrogatório e sua breve passagem pela cadeia deixavam o país clandestinamente, rumo a Bienal de Veneza.

NOTA: 4/5

TUDO POR AMOR AO CINEMA (Brasil, 2014) O Cine Livraria Cultura no Conjunto Nacional em São Paulo, pelo festival É Tudo Verdade, sediou no último domingo (dia 06/04), a segunda exibição nacional do documentário Tudo por Amor ao Cinema, que foi a sessão de abertura do mesmo festival na cidade do Rio de Janeiro. A sessão contou com a participação do idealizador do evento, Amir Labaki, com o diretor Aurélio Michiles e parte de sua equipe (técnica e de elenco).

Amir Labaki (a esq), Aurélio Michiles (ao centro com microfone) e parte da equipe do doc Tudo pelo Amor ao Cinema

Amir Labaki (a esq), Aurélio Michiles (ao centro com microfone) e parte da equipe do doc Tudo pelo Amor ao Cinema

A missão era documentar a vida do amazonense Cosme Alves Netto, curador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna carioca, que com o seu incansável trabalho tornou-se sinônimo de restauração, conservação e propagação da cultura cinematográfica, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Algo construído a partir do seu garimpo nos arquivos censurados pela ditadura militar (e eram salvos da destruição por ele) e em outras cinematecas internacionais que por ventura poderiam conter qualquer obra brasileira que fosse.

Com seu poder de aglutinação, Cosme também criou um celeiro de novos cineastas brasileiros, frequentadores assíduos da Cinemateca gerenciada por ele e do Cine Paissandu, importante cinema de arte carioca. Sua atuação contribuiu de duas formas para o Cinema brasileiro: a histórica, com a preservação de filmes raros, e pelo fomento da produção nacional, já que seus amigos viriam a consolidar o mercado doméstico cinematográfico no Brasil com suas obras.

Um personagem de fundamental importância para o nosso Cinema, sem dúvidas.

NOTA: 5/5





19º Festival É Tudo Verdade | dia 01

6 04 2014

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CONTINUO SENDO (Peru e Espanha, 2013) – A música típica peruana sobrevive ao mundo globalizado com os acordes de seu violino; com a sua harpa estilizada; com o instrumento da tesoura em sincronia com os passos de dança; com os movimentos do seu sapateado, mais acostumado a poeira do chão de terra do que com o tablado dos palcos e com as vozes potentes de suas mulheres, que destacam mais que os homens.

Natural que essa música sobreviva a globalização. O povoado, isolado aos pés dos Andes, não há interferência do rádio, da televisão e muito menos da internet, o principal meio de comunicação da atualidade que aplaca a cultura local e universaliza a ocidental e seu viés pop.

Mas interessante observar que essa veia artística não se apaga nos filhos e netos que deixam o distante lugarejo e vão à capital, Lima, em busca daquilo que falta no local em que nasceram: comida, água e condições melhores de vida. Mesmo tendo contato com as diferentes facetas que a cidade grande possui, eles já adultos retornam à comunidade para celebrar as tradicionais celebrações e sua musicalidade marcante. Se a idade avançada prejudicar o deslocamento, uma reunião entre eles em um beco qualquer de Lima é capaz de reconstruir a atmosfera interiorana em que nasceram.

Uma riqueza de movimentos, tonalidades, passos e acordes que sobrevivem arduamente pelo isolamento geográfico e pela perseverança daqueles que o praticam.

NOTA: 3/5

A CORRIDA DA ARTE (França, 2013) O mundo da Arte já não é mais o mesmo. Numa economia onde os novos ricos surgem em larga escala e querem, a todo o momento, ostentar a sua fortuna, o mistério da venda inflacionada de quadros em leilões internacionais é o que o documentário francês A Corrida da Arte pretende desconstruir.

Em seus momentos iniciais vemos uma típica cena desse lucrativo mercado: uma pintura é oferecida em um leilão e os lances surgem: 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24,  25, até o arremate final de 26 milhões de euros. Mas o que não é revelado é o que há por trás disso. Uma especulação sem limites que vem de todos os lados: de quem vende, de quem organiza as feiras de arte e os leilões e até mesmo de quem compra. Certos nomes desse mundo tem o poder (incompreensível) de inflacionar o valor de uma obra que pode chegar até mais de um milhão de dólares por ano.

A Arte saiu do Velho Continente e tornou-se um negócio global e ainda mais rentável. A Arte Contemporânea atinge novos mercados – asiáticos (China, Hong Kong, Cingapura), americano, árabe (Dubai) e, inclusive, brasileiro. Feiras internacionais de arte ocorrem no mundo inteiro a todo instante, atraindo excêntricos compradores dispostos a pagar qualquer preço apenas pelo prazer de possuir uma pintura de grife. Inclui-se aqui compradores individuais e até instituições.

O que mais impressiona, no entanto, é que muitas vezes o bom gosto é posto de lado nessas transações.

NOTA: 4/5








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