ANÁLISE: A Onda

7 09 2009

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EM CARTAZ: “É impossível surgir uma comunidade fascista nos dias de hoje?”.  ‘A Onda’ em todo o seu desenvolvimento consiste em responder essa questão.

Tudo começa com o professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) sendo escalado para comandar um projeto semanal em uma escola na Alemanha sobre autocracia, embora seu estilo de vida o levasse naturalmente ao projeto de anarquia. Mas isso já não é mais possível pois um outro professor já apresentara um cronograma do programa antecipadamente à diretoria escolar.

Então Rainer, sem opções,  inicia sua aula sobre o modelo de governo. E percebe que elas não serão tão entendiantes quanto pensava quando um aluno faz uma afirmação que abre esse texto: “É impossível surgir uma comunidade fascista nos dias de hoje.”

‘Uma pessoa ou um grupo delas com grande poder de comando, inclusive para alterar as leis’. É assim, passo a passo, com definição e tudo, que Rainer começa a montar um processo totalmente lúdico de como é e como se constrói um sistema autocrático e com participação total e direta dos alunos. Estes participam tão entusiasticamente que começam a atrair os estudantes da aula do outro curso, contrariando a expectativa que se esperava deles: de se interessarem muito mais por anarquia do que por autocracia

Professor e estudantes começam, então,  a construção de um grupo com características próprias definidas por eles: desde o uniforme adotado (camisa branca e jeans básico), a identificação estilizada, os cumprimentos ou nome que dá título à produção alemã. Começa um tratamento cordial ao líder, que não é mais o professor Rainer e sim o senhor Weiner entre outros comportamentos definidos ali na classe.

Pouco a pouco vê-se a formação homogênea do grupo. Não há mais diferenças entre os alunos que passam a se aceitar, uns aos outros, independentemente da tribo que cada um veio. E esse entrelaçamento forte visto entre eles é perfeitamente observado em uma cena quando um deles, Tim Stoltefuss  (aquele que poderia ser perfeitamente chamado de nerd), é intimado por dois rapazes e acabam sendo hostilizados por ‘membros de A Onda’ que prestavam atenção no que ocorria a distância.

Entretanto, toda a ação do grupo ultrapassa os limites da sala de aula e o pior, os muros da escola, quando os ditos ‘membros’ passam a se comportar como uma gangue e espalhar toda a ‘força’ de A Onda através de pichações e adesivos pela cidade, fugindo assim o controle das mãos do professor. Discriminam e excluem aqueles que não pertencem ao movimento, aqueles que recusam-se a vestir a camisa branca, influenciando diretamente tanto no grupo teatral da escola quanto no time escolar de pólo aquático, que por um momento passa a jogar em nome de ‘A Onda’ e não mais pelo colégio.

Cada adolescente tem em si, um motivo por tal apego a ‘A Onda’. Uns por não terem presenciado um espírito de comunidade na família; outros pela falta de ideologia na sociedade alemã atual, mas com certeza o maior problema aqui está concentrado naquele, que mesmo sendo inteligente, não tem uma personalidade concreta, ou seja, possui a mente fraca e acaba sendo influenciado muito facilmente: o próprio Tim Stoltefuss (Frederick Lau).

Tim se envolve de tal maneira nesse projeto ao ponto de queimar todas as suas roupas de grife só por ter adotado o uniforme adotado pela ‘A Onda’; ou arriscar a vida para marcar o símbolo do grupo no lugar mais alto da cidade; ou se oferecer como guarda-costas de seu ‘líder’ ou andar com uma arma só para defender os ideais adotados por ele. Atitudes que beiram a demência.

Muito tardiamente, senhor Weiner percebe o quão longe a sua idéia havia ido, mesmo sendo alertado por sua mulher (interpretada por Christiane Paul) e também professora ou por sua aluna Karo (Jennifer Ulrich). Mas tudo cai por terra ao ver a confusão instaurada num jogo do time de pólo aquático (do qual ele era treinador), com os nervos a flor da pele da torcida e dos jogadores e, também, quando ele é procurado pelo seu jogador/aluno Marco (papel de Max Riemelt) que agride Karo, sua namorada, numa discussão envolvendo ‘A Onda’. Marco revela estar se comportando de uma maneira diferente e até estranha, tendo atitudes que até então não havia tido.

Professor Rainer decide então convocar uma ‘assembleia’ para discutir sobre o futuro d’”A Onda”. É aqui que vemos o desfecho final do filme. Num discurso inflamado defendendo a continuação do grupo, professor Rainer acusa Marco de traição ao movimento, incitando todos os presentes contra o rapaz. Levantando inclusive a possibilidade de tortura e até execução dele. A partir desse momento que os alunos percebem como aquilo se tornara um absurdo. De uma forma indireta, tinha sido construído ali um grupo fascista…

Infelizmente, tudo isso era insuficiente. O falso ideal de ‘A Onda’ não havia sido apagado da mente de alguns. Tim rebela-se contra o término do grupo e saca sua arma na frente de todos e acaba atirando em um aluno e pratica suicídio, momentos depois, com um tiro em sua boca. Professor Rainer, por sua vez, é preso e algemado, passa a encarar seus alunos, colegas professores e pais dos alunos no caminho até a viatura.

Finalmente ‘A Onda’ chegava ao fim.

Uma concepção brilhante do cinema alemão com uma narração objetiva e dividida nos dias da semana, mas que em nenhum momento chega a interferir na evolução da história. Um bom elenco, que evidentemente reúne muitos jovens, consegue muito bem transmitir ao espectador toda a interferência d’A Onda em seus personagens, positiva ou negativamente.

Um excelente filme. Que provoca quem o assiste e levanta muitas questões que podem ser debatidas cinema afora, revelando aí a sua qualidade e cumprindo eficientemente ao seu propósito.

COTAÇÃO: 5/5

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4 responses

13 05 2010
Isabella Esposito

PARABÉNS! Texto muito bom!

28 09 2010
brunela

muito bomm

15 06 2012
Stheffany Alcantara

Filme excelente e ótimo texto, parabéns!
Fiquei muito chocada com desfecho final. Fica muito nítida a influência dos professores na formação de certas ideologias dos alunos. Acredito eu que, cabe ao aluno avaliar os conceitos passados pelos professores e ai sim desenvolver seu pensamento sobre estes. É isso que faço até hoje na escola, mas é uma pena ver algumas pessoas se perderem na ideologia de outras como é o caso de Tim e muitas vezes as consequências para tais são irreversíveis ou, como vimos, até mesmo fatais.

20 07 2012
Rodrigo

quando leio um texto normalmente eu penso, se eu me esforçar faço melhor, esse n foi o caso, vc escreve muito bem. Só houve umas micro discordâncias, mas isso é pq somos pessoas diferentes, né?

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