ANÁLISE – Não me Abandone Jamais

23 07 2011

No último século foram inegáveis os avanços da medicina, elevando a expectativa da vida humana a casa de 100 anos. Se antes uma tuberculose era considerada fatal, hoje um portador do vírus HIV pode conviver sem dificuldade com a doença sem manifestá-la, através dos coquetéis de medicamentos.

Alguns orfanatos, internatos espalhados pela Inglaterra em meados do século XX escondiam uma terrível realidade. E um desses internatos era Hailshaw, cujos alunos órfãos realizavam atividades comuns no que parecia ser uma instituição comum: jogavam bola, desenhavam, almoçavam e dormiam. Tudo sob a tutela de professoras conservadoras que exigiam a máxima disciplina.

Nada mais natural que próximo aos seus 10, 11 anos, surgissem os primeiros sinais de afetividade entre os alunos, afinal eram meninos e meninas convivendo diariamente. Embora com o convívio não demonstrassem infelicidade e angústia, o espectador não poderia dizer o mesmo, pois sempre lhe é apresentado um ambiente triste, cinzento, reforçado por um edifício histórico muito bem preservado (interna e externamente), mas sem cor ou vida. Por viverem ali e não gozarem da liberdade existente além da cerca do orfanato, as crianças não experimentavam essa tristeza que nos acometia.

Em especial nesse grupo tínhamos duas garotas: Kathy e Ruth. A primeira, inteligente, demonstrava um carinho por um certo menino, Tommy, que por não possuir nenhuma aptidão para os esportes ou para as artes, era sempre preterido pelos colegas, causando-lhe acessos de raiva. Assim, o amparando, que Kathy ensaia uma aproximação junto ao garoto, que aceitava e confiava na nova amizade. Amizade não interrompida após uma investida certeira de Ruth, que logo iniciou o namoro com o garoto.

Coube a uma nova orientadora do internato revelar o que de tão estranho havia naquele ambiente – para nós e para os alunos. Diferente da maioria das crianças que chegariam a fase adulta e poderiam assim realizar seus sonhos, os alunos de Hailshaw teriam um ciclo de vida bem mais curto, bem mais breve, já que sua ‘criação’ era destinada, quando mais velhos, a doação de órgãos. É notório que diante dessa revelação os trabalhos da senhorita em questão foram dispensados.

Uma atrocidade para nós – crianças sendo tratadas como gado -, os alunos ficam indiferentes diante do fato, seguindo para a vida adulta como se tudo isso fosse normal e não houvesse mais nada a fazer a não ser esperar pacientemente os dias da 1ª, 2ª e da 3ª cirurgia de doação. Cirurgias que degradavam e tiravam suas vidas lenta e cruelmente. Nessa fase que entram rostos conhecidos na história: os adultos Tommy (Andrew Garfield, o novo Homem-Aranha e de A Rede Social), Ruth (Keira Knightely, A Duquesa e Piratas do Caribe) e Kath (Carey Mulligan, de Orgulho e Preconceito).

Em meio a tanta crueldade, ainda a tempo para a redenção de Ruth. Arrependida, ela confessa que fez o que fez por inveja da amiga e agora quer reaproximar os dois amigos como deveria ter acontecido anos atrás. Para tanto, Ruth tenta utilizar o artifício do adiamento das doações: assim como ela, Tommy estava na segunda doação (e incrivelmente bem, pois é rara a sobrevivência após a primeira). Kathy como cuidadora dos doadores, uma espécie de enfermeira, ainda não teve suas doações agendadas. Mas na realidade esse adiamento nunca existiu, ou seja, o futuro de Ruth e Tommy não mudaria em nada, a respectiva terceira doação viria como o planejado. E as duas cirurgias foram acompanhadas por Kathy.

Duas semanas depois do falecimento de sua eterna paixão, foi programada a primeira doação de órgãos dela. E como os outros dois, ela não pretendia escapar dessa realidade, ainda mais agora.

NOTA: 5/5

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Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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