ANÁLISE: A Invenção de Hugo Cabret

3 03 2012

Hugo Cabret é uma singela homenagem ao cinema feita pelo próprio cinema. Uma homenagem ao cinema em seu início, onde as produções eram feitas quase que amadoramente e se concretizavam graças ao esforço e ao empenho de seus idealizadores, tamanha a dificuldade converter um roteiro em uma película.

Hugo Cabret (Asa Butterfield, O Menino de Pijamas Listrados e da série Merlin) é um garoto “especialista em consertar coisas”, como diz um dos personagens em determinado momento do filme. Essa aptidão aprendeu com o seu pai, relojoeiro de profissão (uma participação especial de Jude Law). A habilidade foi mantida ao longo da infância após a morte do pai em um incêndio, quando então ficou aos cuidados do tio, responsável por manter pontuais, os relógios de uma estação ferroviária parisiense.

Mas o apego do menino com o pai permaneceu vívido na figura de um autômato, um androide de lata, que funciona com as mesmas peças e mesmos mecanismos presentes nos relógios. Obtido de um museu com defeito, o conserto do androide tornou-se a obsessão do garoto, já que o pai não teve a oportunidade de vê-lo funcionando.

Para tanto, Hugo precisava de peças que não possuía, mas havia uma abundância delas numa antiga loja de brinquedos na estação. E nos momentos oportunos, o garoto tinha a chance de roubá-las até que, um dia, foi pego pelo proprietário, o senhor George Méliès (o irreconhecível Ben Kingsley,  Ilha do Medo e Príncipe da Pérsia) que retomou algumas de suas peças e uma caderneta cheia de anotações, rascunhos, esboços e outros detalhes técnicos criados pelo pai de Hugo a respeito do conserto do autômato.

Inexplicavelmente, Méliès ficou atônito com aquelas descrições, mais pelas recordações que as marcações traziam do que pela possibilidade de um garoto tê-las escritas. Assim, ficou difícil para o garoto recuperar o pequeno caderno, mesmo tendo a ajuda da filha do George, Isabelle, uma aventureira nata inspirada pelos livros que devorara, que nunca tivera a oportunidade de vivenciar uma aventura real, interpretada aqui pela nova e veterana atriz Chloë Grace Moretz (uma rápida busca no IMDB revela participações em 40 produções com apenas 15 anos, destacando-se (500) Dias com Ela e Deixe-me Entrar).

Sempre pelos esconderijos e corredores ocultos da estação, Hugo obtinha o que queria (peças ou alimentos), sempre observando os passageiros e os comerciantes que tinha expediente no local. Vale ressaltar que a maioria dos personagens parecem ter sidos retirados de uma fábula e inseridos ali na estação: a florista, a madame e o seu cãozinho e a sua paquera, que sempre tentava cortejar a senhora mas era impedido pelo canino e o guarda com perna mecânica (comportado personagem de Sacha Baron Cohen, Borat e o ainda inédito O Ditador), na sua incansável batalha de livrar a estação de toda e qualquer criança órfã que tinha potencial para se tornar um pedinte. Não é a toa que Hugo vive constante embate com o desajeitado guarda ao longo da projeção. São esses personagens que caracterizam A Invenção de Hugo Cabret como uma fábula para adultos.

Interessante notar que Martin Scorsese ao acompanhar Hugo e Isabelle para a montagem definitiva do autômato, explora com muita maestria a tecnologia 3D, com uma profundidade constante nas cenas e até o mais clichê das cenas existentes nesse formato: câmera e personagens caindo através de trilhos e tobogãs; outra utilização recorrente vista anteriormente em O Gato de Botas, por exemplo, é a câmera andando rapidamente bem próxima ao solo em um longo plano.

E é a mais nova tecnologia em uso atualmente em Hollywood, a filmagem e a exibição de filmes em três dimensões (tudo em uma cópia digital) que cultua e homenageia o cinema em sua origem, em sua essência: a montagem e a colagem de fotografias em sequência para criar a impressão de movimento, o filme em si.

Se A Invenção de Hugo Cabret convence habilmente e transporta o seu espectador para o seu mundo mágico e fascinante, com o auxílio de seu experiente elenco (entre outros, é bom ver Christopher Lee em ação novamente), só temos um ponto negativo: o seu ator-mirim principal: em alguns momentos chave da exibição, Butterfield não empregar a carga exata de emoção que a cena exigia, o que nos tirava um pouco do cenário e nos remetia novamente à sala de cinema. Mas nada que conseguisse tirar o brilho de A Invenção de Hugo Cabret nos proporcionou.

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