ANÁLISE: O Artista

13 03 2012

Mil novecentos e vinte e sete. George Valentin vive o auge da sua carreira. A maior estrela do Cinema em sua época, Valentin (papel de Jean Dujardin com a elegância e o garbo característicos dos galãs da década de 20) é capaz de lotar os luxuosos e enormes cinemas com os espectadores ávidos por conferir a sua atuação. Notável isso numa estreia de um de seus filmes onde a plateia, logo após a sessão, o saúda com eloquência a sua presença. Logo de início já podemos observar os traços de egoísmo e orgulho de sua personalidade nessa pequena apresentação.

Valentin certamente tem lá o seu egoísmo, mas nunca podemos considera-lo arrogante, tamanho o seu tato com o público, jornalistas e fãs. E é uma dessas fãs que ‘ganha na loteria’ ao estampar a capa de jornal numa foto tirada ao dar um beijo no astro na porta do cinema. Extremamente encantada com essa súbita oportunidade, Peppy Miller (personagem da atriz argentina Bérénice Bejo, Coração de Cavaleiro), trata logo de investir na carreira artística aventurando-se em papéis de figurantes na produtora que George Valentin trabalha. Isso provocaria uma grande amizade e admiração de um pelo outro.

Tudo vai bem até que chega a crise financeira de 1929. Com um mundo economicamente em colapso, a Sétima Arte através de suas produtoras tinha que manter o interesse do público em seus filmes. Para tanto, investiram naquilo que o cinema ainda não tinha e se tornaria o grande atrativo para a manutenção de bilheterias cheias: o som. Valentin, purista, recusava participar de qualquer produção que viesse ser feita com a novidade, “as pessoas precisam me ver e não me ouvir”. Um engano que custou a decadência de sua carreira.

Galgando aos poucos os degraus de sua carreira, Peppy Miller simbolizou essa nova era do Cinema para sua produtora, preenchendo o espaço vazio deixado por Valentin, que se aventurou em um filme próprio e mudo, quando viu que as portas começaram a se fechar para ele e abrir para os entusiastas da sonoridade. O resultado da escolha pode ser visto quando ambos os filmes (de George e Peppy) estreiam no mesmo dia e as filas da bilheteria da produção dela atrapalham a saída dos poucos espectadores que tinham visto o filme dele.

O fracasso leva George Valentin à falência, tendo que desfazer aos poucos de suas posses e propriedades, observando a ascensão exponencial da carreira de Peppy Miller, cujo nome estamparia os mais variados cartazes e ornaria as marquises dos grandes cinemas. Essa inversão no destino de cada um é emblemática quando após pedir demissão, Valentin encontra Miller nas escadarias do estúdio: ele, descendo com um figurino escuro, contrasta com a roupa branca dela e dos demais novatos, subindo as escadas, subindo para o sucesso.

O diretor Michel Hazanavicius explora muito bem a tensão e o desespero de George ao expô-lo em um ambiente onde tudo tem som menos a sua voz. Por estar presente na primeira metade do longa quando para nós, espectadores, ainda encontra-se na fase sem som, a cena é uma grata e inesperada surpresa que se desfaz como num sonho, literalmente. George só exercia fascínio agora nos velhos espectadores, enquanto Peppy Miller era idolatrada pela nova geração.

Coube a Peppy Miller retirar o seu ídolo de outrora da rua da amargura. Em dois momentos diferentes, desesperado e sem mais nada, Valentin procurou tirar a sua própria vida, sendo salvo por ela direta ou indiretamente nas duas ocasiões. A atriz só conseguiu vencer o orgulho dele o convidando para participar de um filme onde as falas estivessem em segundo plano: Peppy convence George Valentin a voltar aos sets com ambos executando os mesmos passos praticados quando se encontraram pela primeira vez profissionalmente: os de sapateado.

Assim, com um atalho, que Peppy realiza o seu maior desejo, de protagonizar um filme ao lado de seu maior ídolo e ao lado daquele que a apoiou e a incentivou na sua carreira. Algo que só ocorreu agora porque o orgulho e a falta de adaptação de Valentin não o deixaram aceitar anteriormente. E pode-se dizer que ele se manteve firme em sua convicção, afinal, o seu grande retorno foi possível graças ao seu desempenho físico, a dança, e não à sua voz.

NOTA: 5/5.

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Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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