ANÁLISE: Tomboy

10 04 2012

Michael é a nova criança na cidade”. Começo minha análise com a mesma frase presente no cartaz do longa francês que com uma delicadeza impressionante, retrata o cotidiano de uma garota andrógina. Inicialmente, já percebemos que no convívio familiar, Laure tem mais atenção do pai, presente em todos os momentos em que vemos a garota contente, sendo preterida na maior parte do tempo pela mãe, que divide sua atenção entre os cuidados da gravidez do novo filho e com Jeanne, a filha caçula.  O pai, em constantes viagens devido a sua profissão, faz com que a família não estabeleça um vínculo forte com a vizinhança, pois estão sempre mudando de endereço, que os tornam reservados.

Por isso, recém chegados a nova cidade, Laure resolve explorar os arredores do novo apartamento e se familiarizar com as crianças do local. Essa nova mudança permitiu que Laure pudesse demonstrar esse outro lado de sua personalidade com os novos amigos. Tal atitude, porém, não foi premeditada e muito menos calculada por ela, visto que quando se apresenta a eles, Laure hesita por um momento para definir o seu nome masculino: Michael, o Tomboy do título.

A própria produção trata de confundir o espectador a esse respeito, ao colocar Laure sempre mais próxima ao pai, e a caçula à mãe; o figurino extremamente infantil, colorido e feminino de Jeanne e, como contraponto, as mesmas roupas básicas e largas para Michael/Laure. E seja com o pai ou com a mãe, Laure sempre realiza atividades muitas vezes destinadas aos meninos como carregar sacolas e caixas pesadas.

E o nosso interesse pela trama de Tomboy fica ainda maior a partir do momento que Laure tem que manter esse segredo e convencer os colegas da sua farsa. Vemos, por exemplo, quando Michael observa os outros meninos durante uma ‘pelada’ de futebol: as atitudes, os gestos, como eles naturalmente cospem no chão, jogam futebol sem camisa, o modo de colocar as mãos na cintura ou no joelho quando cansados. Soma-se a essa fase de percepção alheia, a necessidade de Michael chamar a atenção da, então, única menina do grupo que nutre sentimentos (infantis, mas mesmo assim sentimentos) por Michael: Lisa. De qualquer forma, Lisa percebe certa diferença em Michael em relação aos seus outros amigos e consciente disso, ela ‘brinca’ de maquiagem quando ele a visita, sem saber que aquilo seria absolutamente natural para as duas.

Se não bastasse a dificuldade encontrada em manter o disfarce durante as brincadeiras, Tomboy tem de se esforçar para manter o segredo dentro de casa, principalmente quando alguém toca a campainha, Laure evita que sua mãe ou sua irmã atendam a porta. Mesmo com todos esses cuidados, chega a hora em que o disfarce cai por terra, quando Lisa pergunta a Jeanne sobre o seu suposto ‘irmão’. E nos surpreendemos com a atitude da pequena, que passa também a fazer parte do disfarce. E para confirmar ainda mais a sua ardileza, a caçula ainda tem a capacidade de fazer uma piada interna durante o jantar naquele mesmo dia relacionada à sua irmã. Mas é através do envolvimento de Jeanne na farsa que a mãe de Laure tem conhecimento da existência de Michael.

Aqui chegamos ao grande dilema da narração: a forma mais eficaz que a mãe de Laure encontra para revelar que ela não é o Michael. Uma forma repulsiva e até mesmo humilhante para Tomboy, até que nos deparamos com a seguinte indagação: “Você tem alguma sugestão para resolvermos isso?” Aí admitimos, contrariados, que ela tem certa razão e nos leva a refletir sobre o ‘castigo’. Afinal, qual seria a outra melhor maneira de resolver essa delicada situação? Ás vésperas do início do ano escolar, Laure não podia continuar sendo Michael. Uma hora a verdade tinha que aparecer, por mais que isso fosse doer.

Mesmo que há quem não concorde com o desfecho apresentado, ainda assim, Tomboy traz uma esperança em seu ato final, que passa pela compreensão e pelo respeito numa cena singela, conceitos que ainda não estão presentes de forma satisfatória na sociedade de hoje!

NOTA: 5/5

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