ANÁLISE: Girimunho

17 04 2012

Girimunho é um retrato fiel do pobre, carente e humilde povo do interior de Minas Gerais, representado aqui por Bastú, uma senhora de idade avançada que vem a perder Feliciano, seu companheiro de longa data.

A morte do marido, que já tinha seus problemas com o álcool, é encarada com certo ceticismo, para não dizer indiferença pela companheira, atitude decorrente de sua experiência de vida que deixa as pessoas mais calejadas para a aceitação plena de mais uma passagem da vida. A consternação com a perda fica restrita aos netos.

Passamos então a acompanhar o cotidiano dessa senhora perspicaz e inteligente, mesmo com a ausência de ensino. Natural que a produção dê à narrativa a mesma velocidade que o tempo tem nessas cidades interioranas – a impressão de que ele não passa. Isso ganha mais destaque quando o desenvolvimento da história baseia-se na interação de dona Maria e sua neta Branca. Uma cena que simboliza muito bem a lenta passagem do tempo é aquela em que a câmera focaliza, por instantes, uma porção de folhas ao vento e quase não há alteração na disposição delas ao chão.

Nós, espectadores, somos apenas observadores passivos nessa história. A câmera na maioria das vezes está totalmente estática. Mesmos nas externas ou dentro dos humildes cômodos da senhora, cenário principal do longa, a história parece deslizar pelas lentes, como se elas já fizessem parte daquele local. Poucas vezes a câmera se move espontaneamente e suas maiores movimentações ocorrem quando está afixada em algo móvel, como uma canoa ou um ônibus. Interessante nesse último caso que ao mesmo tempo em que as imagens tem uma função narrativa, ou seja, indicar o deslocamento de Bastú e sua neta até a cidade vizinha, temos também um panorama da região onde elas residem. A pobreza, a simplicidade e o isolamento da região, com uma estrada de terra vermelha deserta e todo envolta por vegetação, ficam ainda mais evidentes.

Acreditando que seu falecido marido esteja a rondando, extremamente comum no imaginário popular nessas regiões, dona Bastú se desfaz das roupas de Feliciano, realizando para tanto uma pequena ‘aventura’ pessoal até um rio da região, deixando que as águas deste levem os pertences do velho companheiro. Uma cena muito tocante ao colocar a silhueta solitária da frágil senhora em meio a uma ampla paisagem selvagem, ainda pouco tocada pelo homem.

Mesmo distante de qualquer facilidade proporcionada pelo ambiente urbano, Branca ainda permite-se sonhar e com muito esforço concluir um curso de enfermagem, não antes, é claro, de se cercar de todos os detalhes a respeito dos cuidados para com sua avó.

Dessa forma, Girimunho se encerra com uma proposta narrativa simples, adequando-se ao objetivo em sua abordagem. Não poderíamos esperar muito além disso até porque como foi falado, pouca coisa se altera nesse cenário e também não seria diferente na vida de dona Bastú.

NOTA: 5/5

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Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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