ANÁLISE: Melancolia

19 04 2012

Imagens aparentemente sem nexo são exibidas em câmera lenta durante o início da projeção de Melancolia: um eclipse, um belo jardim, um rosto de mulher, todos acompanhados por uma imponente trilha sonora.

Por ser meu primeiro contato com a filmografia do diretor Lars von Trier (Dogville, Anticristo), os primeiros momentos da parte um do filme, focada em Justine (papel de Kirsten Dunst, da trilogia Homem-Aranha) revelou-se uma grata surpresa pelo bom humor do incidente da limusine.

O elegante carro estrada acima conduzia a trama para a festa de casamento de Justine com Michael (Alexander Skarsgard, da série True Blood e do inédito Battleship – Batalha dos Mares), que conta com a presença da excêntrica família de Justine. A anfitriã e irmã de Justine, Claire (Charlotte Gainsbourg, repetindo sua parceria com Lars von Trier após Anticristo), juntamente com o marido (Kiefer Sutherland, o eterno Jack Bauer de 24 Horas e do fraco Espelhos do Medo), empenham-se ao máximo em dar fluidez ao evento, embora os pais delas sempre encontrem formas de acabar com o clima harmonioso do ambiente. Resultado: uma festa completamente atípica que, inexplicavelmente, passa também a contar com a colaboração da noiva.

Por outro lado, é ao chegar ao local, que Justine se depara com uma estrela vermelha de brilho intenso, aparentemente sem importância. Inexplicavelmente, a noiva começa a destruir aos poucos a excelente vida que construíra até então: além de agir com completo desinteresse pela festa da qual é a personagem principal, ela perde seu recente marido, que tentou aqui de todas as formas contornar a situação de forma amigável e dirige-se ao seu patrão com várias ofensas, garantindo prontamente sua demissão da empresa.

Como personagem principal do segundo ato, Claire abriga agora a sua irmã, muito debilitada, em sua mansão de campo.  Além de ter que pedir ajuda da irmã por celular para pegar um táxi, Justine já não consegue mais tomar banho sozinha, precisa de ajuda para se alimentar e para se vestir.

Durante essa segunda parte que tomamos conhecimento do planeta Melancolia, a tal estrela vermelha vista durante a festa de casamento, que está fora de órbita e em rota de colisão com o sistema solar. Temerosa do que possa ocorrer, Claire é tranquilizada pelo marido, convicto de que a passagem de Melancolia próxima a Terra não seria nada além de um belo espetáculo astronômico, visto que o planeta já passara por Mercúrio e Vênus sem maiores problemas.

Uma câmera inquieta, nervosa, extremamente oscilante até mesmo em momentos mais calmos, traduz muito bem a ansiedade que a trama constrói muitíssimo bem através da aproximação de Melancolia e sua aparente influência no comportamento de Justine.

Melancolia chega num nível impressionante de tensão após a primeira grande passagem do planeta. Se antes o diretor já nos informara indiretamente sobre a fatal ‘dança da morte’, sabemos o quão falso é o alívio de Claire quando Melancolia se afasta da Terra. Contraditório nesse momento os pensamentos das duas irmãs, já que é justamente Justine quem sabe de antemão o derradeiro final que as aguardam, demonstrando maior lucidez quando deveria ser exatamente o contrário.

A engenhosidade de Lars von Trier é reconhecida pelo modo como prende o espectador na sua narração, por Melancolia abordar a magnitude desse evento numa escala extremamente diminuta, ignorando por completo as conseqüências para o resto da Humanidade.

E para encerrar triunfalmente o filme, contamos mais uma vez com a imponente (não há outro adjetivo para descrever a) trilha sonora, que cria uma aflição anormal até o choque definitivo entre os planetas. Só aí percebemos o quanto somos pequenos e insignificantes diante da imensidão do universo. Somos tão frágeis quanto uma cabana precária feita de troncos finos.

Assim, chegamos ao fim da humanidade, um estado de absoluta melancolia, na mais profunda escuridão e na mais enlouquecedora quietude.

NOTA: 5/5


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Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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