Festival Varilux de Cinema Francês 2012 – considerações finais

14 09 2012

Com atraso, esse post abrange  os destaques que estiveram em cartaz nos dois últimos dias do Festival Varilux de Cinema Francês 2012. Entre publicar ou não esses textos pela demora, optei por compartilhar com vocês, mesmo que o Festival já tenha acabado há muito tempo!

Então, vamos lá:

O MONGE – Flertando o com o sobrenatural em alguns momentos, O Monge apresenta uma premissa interessante mas falha muito em executá-la, quando dá ênfase a trama auxiliar que mesmo dando suporte a narrativa principal, revela-se demasiadamente longa e monótona. E ao final do filme quando é revelado o propósito dessa exposição, a frustração é ainda maior com os minutos gastos com ela. Isso se levarmos em conta que O Monge tem uma duração relativamente curta para filmes históricos.

O que parecia ser um honrado e intrínseco servidor da palavra de Deus, irmão Ambrósio líder um  monastério passa a sofrer as tentações da carne, principalmente quando o mascarado Valério passa a ser integrante da comunidade católica. Desse momento até seu desfecho vemos a transformação desse exemplar católico num dos piores sujeitos para a virtude da Santa Igreja.

Infelizmente, os erros cometidos em O Monge são tantos que sua história não boa o suficiente para acobertá-los, prejudicando e muito o que poderia vir a ser uma boa experiência cinematográfica.

NOTA: 2/5

ALIYAH – Um dos filmes mais tocantes do Festival Francês esse ano. Nem tanto por sua execução ou um provável brilhantismo de sua produção, mas sim mais pelo significado de sua trama, já que podemos considerar que a mesma se inicia e se finaliza da mesma forma, alterando-se apenas alguns elementos. O que para alguns possa ser frustrante, isso foi o que mais me chamou atenção em Aliyah.

O empurro crucial que desencadeia os demais elementos da narração é o momento em que Alex Raphaelson decide abandonar Paris e seguir com o primo para Tel Aviv abrir um restaurante. Mas para tanto ele precisa, assim como os demais sócios, entrar com uma participação em dinheiro e também precisa como exigência de sua viagem para Israel, o reconhecimento de seu judaísmo, o então ‘aliyah’.

Alex, um homem maduro que seduz facilmente as mulheres, mas ainda se sente inseguro sobre o sentido e o caminho que vem trilhando. Fruto talvez da mínima influência e presença de sua família na sua vida. Morando só, ele mantem uma regular distância dos parentes mais próximos (no caso seu pai e sua tia) e é procurado frequentemente pelo irmão, mais interessado no dinheiro fácil que pode conseguir dele do que na valorização da fraternidade entre ambos.

Dessa forma, os personagens vão se cruzando em sua vida (e na tela), a medida que Alex corre para conseguir a quantia necessária de dinheiro. Essa busca o faz enveredar pela tênue linha entre o correto e o crime, já que grande parte do dinheiro vem do lucro que obtêm vendendo entorpecentes, sendo uma espécie de ‘freelancer’ do tráfico. O que era para ser apenas um adicional ao capital acaba tornando-se a fonte principal de seu investimento, uma vez que seu irmão (num ato extremamente ordinário) rouba-lhe o dinheiro que com tanto sacrifício conseguira economizar.

Nem a recente amizade com Clara, que nutria fortes e sinceros sentimentos pelo rapaz, é o suficiente para alterar seus planos de viagem. E a discussão desse relacionamento torna-se a cena mais singela e marcante de Aliyah: onde um simples guardanapo serve de pano de fundo para o resumo da relação entre eles; um resumo da vida de Alex; um resumo do filme em si. Tudo isso apresentado numa cena intimista que põe o espectador sentado na mesa, compartilhando a cena com os personagens.

Como epílogo, a produção ainda apresenta a nova rotina de Alex em Tel Aviv. Um início deveras complicado, mas que ele, paciente, saberá lidar e driblar os obstáculos que porventura vierem (ou assim desejamos). E com a angustiante sequência final – do local de trabalho até sua nova residência -, constatamos que sua solidão (agora efetiva em solo israelense) é a mesma de Paris para cá, assim como sua vida não teve nenhuma grande alteração, exceto pela mudança de cidade. Quem sabe seja aqui que Alex consiga encontrar um significado para sua vida.

NOTA: 5/5

POLÍSSIA Políssia coloca o espectador dentro da BPM – Batalhão de Proteção aos Menores – que lida diariamente com um dos piores crimes da sociedade: a pedofilia.

Rotineiramente são inúmeros os casos apresentados a esses policiais o que acarreta em muitas entrevistas com as crianças e adolescentes, vítimas de atos tão covardes, tentando extrair o máximo deles, o que obviamente não é fácil. Da mesma forma, isso ocorre também com os agressores que são na maioria das vezes, da mesma família ou muito próximos ao núcleo familiar dos menores. E as reações diante do interrogatório variam da aceitação plena da culpa (e de suas consequências) à repulsiva atitude de encarar a situação como algo normal e corriqueiro.

No trabalho em campo a coisa também não é fácil. À paisana os agentes podem observar os maus-tratos dos pais com seus filhos ou participar de operações especiais bem planejadas, seja desmantelando uma rede de exploração de trabalho infantil, seja perseguindo a uma mãe com problemas mentais que acabou sequestrando seu filho de uma creche.

Natural que ter contato diário essas situações difíceis levem os policiais a suportar um grande carga de stress. Por isso, Políssia também aborda eficientemente o lado pessoal desses profissionais onde enfrentam mais problemas… ou relacionado aos filhos (onde perdem um pouco a capacidade de tratá-los com naturalidade como num simples banho) ou relacionado aos seus companheiros.

Extremamente profissionais em ação, o relacionamento interpessoal entre os integrantes é inconstante, instável e intempestivo. Diante da pressão encontrada no dia-a-dia do trabalho, essas discussões entre eles, muitas vezes motivadas por banalidades, ganham outras proporções, seja no escritório ou na rua. E é exatamente essa mesma pressão que, numa ocasião tão corriqueira, conclua surpreendentemente o longa.

NOTA: 5/5

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




PALPITEIRO BRASILEIRO

Campeonato dos Palpiteiros - Temporada 2017

Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema

Site com atividades e informações sobre a associação que reúne profissionais da crítica cinematográfica de todo o Brasil

Sinfonia Paulistana

um novo olhar

%d blogueiros gostam disto: