ANÁLISE: Amor

14 02 2013

CORRIDA DE OURO – OSCAR 2013

A nova produção de Michael Haneke (A Fita Branca e Violência Gratuita) conta a história de George e Anne Laurent, um casal há muito tempo casado e sem maiores preocupações na vida. Já contribuíram muito para a sociedade em que vivem e a filha, adulta e bem casada, não necessita mais da atenção ou dos cuidados deles.

O nosso primeiro contato com o cotidiano deles é a apresentação de concerto. Uma audiência lotada contemplando, metaforicamente, a audiência real, daqui de fora. Se não deixei nada passar, essa é a única cena não ambientada na casa dos Laurent. Amor, daqui por diante, se concentrará apenas e somente neles.

O longo tempo dividindo o mesmo teto revela um conhecimento muito profundo um do outro e demonstrado perfeitamente pelas interpretações de Jean-Louis Trintignant (A Fraternidade é Vermelha e O Conformista, com 82 anos de idade) e Emmanuelle Riva (Hiroshima Meu Amor e A Liberdade é Azul, completando 86 anos agora dia 24 de fevereiro, dia do Oscar!). Uma simples conversa passa para uma discussão sem alternância alguma no tom de voz ou alguma outra expressão de nervosismo. Claro sinal do tempo de convivência muito bem interpretado por eles e resultado do sentimento empregado para dar nome a produção.

É numa conversa, aliás, que se inicia todo o drama de Amor. Durante uma refeição, Anne sofre uma crise e fica imóvel diante da mesa, não respondendo aos estímulos e nem as perguntas de George. Percebendo a gravidade da situação, ele se prepara para pedir ajuda com a velocidade que a sua idade lhe permite. Aqui temos a marca registrada de Michael Haneke que sempre opta por uma câmera estática apontada para um único cômodo (ou corredor) da casa, enquanto os personagens ou o som (na maioria das vezes) se encarrega de dar continuidade a trama. O som da torneira aberta, nesse caso, assume a função de anunciar o fim da crise de Anne. Ao menos por enquanto.

A situação desse velho casal muda radicalmente quando uma cirurgia para o desentupimento da artéria carótida não é satisfatória e Anne, como sequela, tem todo o lado direito do corpo paralisado. A partir desse momento sai a elegância com que Haneke monta seus filmes para apreciarmos e chorarmos com a brilhante performance de Emmanuelle Riva. Jean-Louis, por sua vez, desempenha um papel fundamental em mostrar a dificuldade de adaptação de George a nova realidade onde sua esposa depende totalmente dele. Se a situação já não é séria o bastante, ele também tem que enfrentar o pessimismo dela com a própria situação ao acreditar se tornar um fardo pesado de se carregar agora.

Mesmo com todos os contra-tempos, George se mantem irremediável para que não haja alteração alguma na rotina do dia-a-dia dos dois, ou seja, para que não haja interferência e/ou presença de terceiros dentro de casa. Seja pela promessa feita de não levá-la à algum hospital ou clínica, seja por simplesmente não existir outra alternativa que sem colocá-los numa situação degradante. Mas não por muito tempo, já que a situação de Anne só piora com o passar dos dias. Quando uma das enfermeiras profissionais contratadas afirma que a lamentação “doi… doi… doi” dela seja apenas um reflexo comum as pessoas nesse estado, nos perguntamos: até que ponto isso é verdadeiro? Isso ocorre nesse caso?

Não há como descrever como os dois atores conseguem construir, dosar e controlar toda a intensa carga emocional de Amor. E não há dúvida que isso só venha com a experiência (e ambos tem uma extensa filmografia) para que possam assumir, destemidamente, tantos ápices dramáticos. Por isso, concordamos plenamente com a indicação de Emmanuelle Riva ao Oscar (a atriz mais velha a ser indicada, diga-se de passagem) e será inaceitável que ela saia das cerimônias de mãos vazias depois de testemunharmos o agravamento do estado de saúde de sua personagem. Para ficarmos num único exemplo, podemos citar a sequência quando, já bastante debilitada, Anne recebe a visita da filha – mas pode chamá-la de monstro – Eva (Isabelle Huppert, A Professora de Piano e Huckabees – A Vida é uma Comédia) e não consegue mais dialogar com as pessoas ou construir raciocínios e em nenhum momento é interrompida pela diabólica filha, mesmo essa presenciando tamanha dificuldade da mãe.

De forma alguma o trabalho de Jean-Louis deve ser desprezado. Principalmente porque é de George que vem os momentos mais fortes, dramáticos e arrebatadores de Amor. Resultado de um esforço hercúleo de cuidar da esposa e de não aceitar que a mesma desista de viver antes mesmo que ele desista dela como, fatalmente, vem a ocorrer. Só de relembrar e escrever tal passagem voltam a dor e o aperto no coração. Uma das cenas mais fortes e tocantes já realizadas pelo Cinema!

Assim, muito mais do que o amor, Michael Haneke constrói um drama que evidencia como tal sentimento, através da passagem do tempo, pode se tornar uma das mais fortes ligações invisíveis entre dois seres humanos. E como o amor, somente o amor, pode enfrentar e resistir as mais duras e cruéis barreiras impostas pela vida.

NOTA: 5/5

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




PALPITEIRO BRASILEIRO

Campeonato dos Palpiteiros - Temporada 2017

Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema

Site com atividades e informações sobre a associação que reúne profissionais da crítica cinematográfica de todo o Brasil

Sinfonia Paulistana

um novo olhar

%d blogueiros gostam disto: