ANÁLISE: O Prisioneiro da Grade de Ferro

14 08 2013

No Brasil há aproximadamente 250.000 detentos distribuídos em poucos mais de 1.000 unidades prisionais. Mais da metade desses números citados encontram-se no estado de São Paulo. E não há melhor de se documentar esse mundo (embora também o podemos chamar de submundo) brasileiro do que aquele que foi o maior presídio da América Latina: o Carandiru.

O grande trunfo do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro não está em seus dados e números apresentados, mas sim em obter as informações numa visão singular e mais verdadeira, mais crua possível, um auto-retrato como o próprio subtítulo que os criadores intitulam sua produção: a visão dos presos. Foram eles com a câmera em mão que filmaram o cotidiano dos noves pavilhões da Casa de Detenção de São Paulo, o nome oficial do Carandiru, durante os setes meses que antecederam a sua desativação em 2002 e, portanto, dez anos após o emblemático episódio do Massacre do Carandiru.

Toda a responsabilidade de gravação e obtenção das imagens está nas mãos dos próprios reeducandos. Reeducandos é a forma que a palestra inicial para novos detentos nos ensina a chamá-los. Dessa forma é muito rica o nosso contato com um mundo completamente alheio ao que vivemos. Um mundo que ocorre atrás das grades e dos muros.

Prisioneiro, prontuário e o código do delito. É assim, como se fosse uma propaganda partidária política, que o documentário se inicia e poucos minutos de exibição são o suficientes para se notar que o ensino ou preparo para a reinserção na sociedade daqueles que ali se encontram atem-se apenas ao nome dados à eles. Qualquer outra tentativa de ocupação, trabalho e educação existente é absolutamente míngua e infelizmente não vinga. Ou não vingava. Foi o caso, por exemplo, da academia para os presos, extinta por falta de apoio da administração carcerária; o local destinado a escola era abominável e a biblioteca estava em más condições. As outras atividades que possibilitavam a remissão da pena através da mão-de-obra dos presos eram realizadas em ambientes precários sem maquinagem ou condições adequadas. Mesmo assim, muitos deles conseguiam executar, heroicamente, os seus serviços e com habilidade e criatividade eram produzidas ali bolas, pipas e outras peças artesanais. Entre todos os trabalhos se destacava as pinturas: nos quadros, a projeção da vida fora da cadeia e da idealização de momentos que o crime lhes tiraram; com o grafite expunham os seus pensamentos e ideologias e na pichação a sua indignação.

Claro que não se deve esquecer todos os delitos praticados na sociedade que motivaram a sua ida para a cadeia, mas sem nenhum incentivo e até mesmo esforço para que essas pessoas ocupassem suas mentes durante o cumprimento de suas penas só alimentava ainda mais o desgosto, a raiva e a indignação dos detentos para com o ‘sistema governamental’. Unindo-se ao tratamento desumano que recebiam (muitas doenças que eles adquiriam sequer eram tratadas), nada mais natural e elementar a velha máxima de que os presos saíam pior do quando entraram.

Fazendo jus a autodenominação de auto-retrato, o documentário apresenta com uma riqueza de detalhes todo o cotidiano e todos os nuances que mantinham o Carandiru em funcionamento: os maços de cigarro como a moeda oficial do presídio, comprando uma ampla gama de mercadorias, inclusive a maconha, o crack e a pinga produzidos por eles mesmos, cuja clandestinidade lhes garantiam um valor a peso de ouro; nos momentos de lazer prevaleciam o funk, o hip-hop, o samba e o pagode, além das partidas de futebol; a Alemanha, África do Sul, Congo, Nigéria e Argentina eram alguns dos países que possuíam presos ali; as cartas eram uma constante, um importante elo de comunicação com os familiares. Além da escrita, outro contato com o mundo exterior também foi abordado, a famosa e problemática ‘saidinha’ em dias festivos, atentando-se apenas aos raríssimos casos de retorno no prazo previsto; o trabalho coletivo de lavagem dos pavilhões antes do dia de visitação, quando o pátio externo era tomado por mães, esposas, filhos de detentos na maioria das vezes. Em outros casos, a visita era um simples conhecido, parceiro.

Outro assunto recorrente nesse meio é a espiritualidade dos detentos com adeptos de todos os credos, com destaque para os evangélicos e suas diversas vertentes, os católicos (com a Pastoral Carcerária), os espíritas, como também os praticantes do candomblé, da macumba e do satanismo. Uma ala em separado, denominada ‘Rua das Flores’, era destinada aos presos homossexuais, cujo alguns integrantes chegavam a realizar programa dentro da própria cadeia. Para os mais rebeldes, qualquer tipo de ferro era o suficiente para se confeccionar uma faca, prontos para matar ou morrer.

Após conferir tantas imagens chocantes é até um certo alívio saber que este local não existe mais. Pelo menos tudo o que foi mostrado não ocorre mais no Carandiru, já que tais mazelas podem e devem, infelizmente, perpetuar em outras cadeias Brasil afora. Não há mais aquelas ‘celas de castigo’ no Carandiru, onde presos que desrespeitaram as normas internas são amontoados, separados dos demais; não há mais o pátio externo do Carandiru infestado de ratos durante a noite; não há mais O Carandiru. Sua desativação mostra-se acertada ao vermos o claro descontentamento no depoimento daqueles que foram diretamente responsáveis por sua administração, no caso os ex-diretores e os ex-secretários de segurança pública do estado de São Paulo. Várias declarações e uma acusação em comum: a falta de investimento e de interesse do Estado em transformaram a Casa de Detenção de São Paulo nesse ambiente exaustivamente documentado. Uma falta de agir política causadora não só da degradação do Carandiru, mas a grande responsável também de todos os problemas de ordem pública enfrentados pelo Brasil atualmente.

NOTA: 5/5

“Esta crítica é parte integrante da mostra “Cine Doc” realizada durante o mês de agosto no Instituto CPFL | Cultura em Campinas”

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