ANÁLISE: Rush – No Limite da Emoção

28 10 2013

Uma coisa Rush – No Limite da Emoção deixa bem claro em toda a sua duração: a dualidade marcante entre os pilotos de sua história James Hunt (Chris Hemsworth, Thor e Os Vingadores) e Niki Lauda (Daniel Brühl, Edukators e Bastardos Inglórios), tanto em personalidade, quanto em pilotagem. Juntos, eles protagonizaram uma das maiores disputas entre pilotos da história da Fórmula 1. Dentro e fora dos circuitos.

Ao colocar os dois atores narrando a introdução da história de seus respectivos personagens, Ron Howard (diretor vencedor do Oscar por Uma Mente Brilhante e indicado na mesma categoria por Frost/Nixon) estabelece uma característica interessante de sua produção: ambos não são os protagonistas aqui e sim a rivalidade entre eles, que começa desde muito cedo, na Fórmula 3, categoria de base do automobilismo, e chega até aos holofotes da F-1.

Mesmo com muitas diferenças, algumas semelhanças marcaram a trajetória da carreira dos dois pilotos: por exemplo, a ausência do apoio familiar direto. James Hunt contava apenas com a ajuda de amigos que compunham a sua equipe, que se preocupavam apenas em colocá-lo dentro de um bom carro. Lauda vinha de uma tradicional família austríaca de negócios e suas aventuras pelas pistas não eram bem vistas aos olhos de seu pai. Resultado? Tentar a sorte por si mesmo e alcançar uma vaga na F-1 com dinheiro adquirido com um empréstimo. Tática utilizada também por seu grande rival para atingir o mesmo objetivo.

Extremamente concentrado e focado, Niki Lauda alcançava cada vez mais fama e admiração através de sua disciplina, aliada aos seus conhecimentos técnicos de mecânica e aerodinâmica dos carros de corrida, o que inclusive é muito bem explanado pelo roteiro (lapidado pelas mãos de Peter Morgan, que repete aqui a parceria feita com Howard em Frost/Nixon e também responsável pelo roteiro de Além da Vida), que consegue em algumas rápidas cenas, explicar tal habilidade até mesmo para aqueles que desconhecem tudo aquilo que envolve uma corrida de carro. James Hunt, por outro lado, tinha o seu talento nato (não é a toa que o mesmo conquiste em determinado ano o prêmio de melhor piloto da temporada pela imprensa especializada), um dom mesmo e não algo conquistado, estudado ou aperfeiçoado. Quando não estava dentro de seu cockpit, as preocupações de Hunt limitavam-se a bebidas, mulheres e festas, não necessariamente nessa ordem.

Em meio a tantas disputas e brigas entre os pilotos, Rush ainda consegue abordar um pouco a vida pessoal destes e ainda encontra espaço para alocar passagens bem-humoradas, sejam elas as constantes provocações de Hunt em cima do adversário ou as implicações da falta de sociabilidade, de tato com as outras pessoas, de Lauda: como ser impedido de entrar numa festa. E a partir daí: depender de uma carona para retornar para casa, conseguir explicar o quanto sua bunda é importante na identificação de problemas mecânicos em um veículo e o seu sucesso nas pistas ser o real motivo para dois marmanjos o auxiliarem no meio da estrada e não a beleza da mulher que o acompanhava, Marlene (Alexandra Maria Lara, de A Queda! As Últimas Horas de Hitler e Velhas Juventude) que viria a ser a sua esposa. Vale salientar até aqui o excepcional trabalho nas atuações de Chris e Daniel, responsáveis pela absoluta imersão do espectador na trama ao conseguirem se desvencilhar de suas personalidades e convencerem como pilotos profissionais.

Antecedida por problemas financeiros de Hunt, enquanto seu rival já alcançara a Scuderia Ferrari, a trama de Rush chega ao campeonato de 1976, o ano do ápice da rivalidade entre os dois. Aqui Rush estabelece um ritmo alucinante ao abordar algumas corridas existentes no calendário daquele ano e beneficiado, claro, pela intensa disputa ponto a ponto entre Hunt e Lauda a cada grande prêmio. A dramaticidade e apreensão também ganham peso ao abordarem os tempos tenebrosos que a Fórmula 1 enfrentava na época com os vários acidentes graves e fatais em suas corridas e dos quais Niki Lauda foi uma de suas mais conhecidas vítimas, durante o GP da Alemanha de 1976, no lendário circuito de Nurburgring, considerado naquele tempo como o cemitério da F-1.

Nesse ponto, Rush – No Limite da Emoção nos apresenta outro ponto positivo de sua narração: os efeitos, tantos visuais quanto sonoros. Desde a recriação histórica dos circuitos (entre eles o de Interlagos em São Paulo) até a caracterização das feridas deixadas pelas queimaduras no rosto de Daniel Brühl. Efeitos visuais, felizmente, aperfeiçoados durante a projeção, já que na sua primeira metade de duração, algumas ultrapassagens e até batidas entre os carros soavam artificiais demais. Já no aspecto sonoro, os sons foram ótimos instrumentos para realçar a dramaticidade da trama, especialmente no seu ato principal, durante as corridas da temporada de 76 com o ronco dos motores, a combustão dos pistões. Um trabalho de primeira qualidade.

O mais novo trabalho de Ron Howard se revela uma grata surpresa nas estreias de 2013, sabendo utilizar e recriar todos os grandes momentos da história de um mundo avesso ao da cinematografia: o automobilismo e em especial a Fórmula 1. E igualmente surpreendente foi a inteligente escolha da história em si adotar uma abordagem que fosse equidistante dos dois pilotos, uma abordagem onde não há heróis e nem vilões. Há sim, dois competidores disputando entre si pelo campeonato do qual participam. E com essa competição e suas diferenças pessoais que despertavam, entre eles, o melhor de cada um, tornando-se um combustível indispensável para Niki Lauda e James Hunt buscarem a excelência em suas performances em pista. E possibilitou a realização desse grande filme.

NOTA: 5/5

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