ANÁLISE: 12 Anos de Escravidão

4 03 2014

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O novo filme de Steve McQueen aborda uma triste realidade da história da humanidade e um momento que, infelizmente, esteve presente na construção de todo o continente americano no século XIX. Se a escravidão por si só foi um dos atos mais cruéis e covardes já praticados pelo homem, imagine o quão terrível seria se a exploração inumana da mão-de-obra de um indivíduo ocorresse injustamente. O músico Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor, O Gângster e Filhos da Esperança) sentiu isso na pele durante longos 12 anos.

Um grande equívoco tira Northup do caminho do circo em Washington, onde se apresentaria como violinista, para os estados do sul dos Estados Unidos onde o comércio escravocrata florescia. Seja a pé, de carroça ou de barco, a tentativa de uma fuga era muito complicada principalmente pela falta de apoio dos companheiros escravos, pois estes estavam acomodados à situação em que se encontravam, sem contar o perigo de morte que uma fuga representaria devido aos armamentos daqueles que os transportavam. Entre os brancos, a descrença na história de homem livre de Northup era total. Aliás, seu nome verdadeiro deixou de existir durante esse período e todos se referiam a ele apenas como Platt.

Dos palcos e das apresentações públicas, Platt enfrentava agora a amargura das plantações de cana, o ego super inflado dos capatazes e das amas e da dor profunda das chibatadas pelos motivos mais fúteis. A câmera de Steve McQueen quer deixar isso bem claro para o espectador. Por isso, sempre nos momentos de grande angústia, os planos são longos e expositivos, ressaltando a dor física enfrentada por quem era castigado. Ver Platt pendurado à uma árvore mantendo-se com muita dificuldade na ponta dos pés durante um longo tempo é um exemplo desses momentos de aflição.

Em doze anos, muitos foram os ‘donos’ de Platt. Alguns mais compreensivos (mesmo utilizando o trabalho escravo) como o senhor Ford, interpretado por Benedict Cumberbatch (O Hobbit: A Desolação de Smaug, Além da Escuridão – Star Trek e da série Sherlock). Bondade que não se aplicava aos seus funcionários. Seu capataz Tibeats (Paul Dano, Pequena Miss Sunshine, Looper – Assassinos do Futuro e do excepcional Os Suspeitos) não suportava a modesta admiração de seu chefe pelo escravo e acaba tornando-se o grande algoz de Platt e a razão para que o escravo fosse transferido para outra fazenda.

Na propriedade de Edwin Epps (Michael Fassbender, 300, Prometheus e do ainda inédito X-Men: Dias de um Futuro Esquecido) que cultivava algodão, Platt entrou em contato com o lado ainda mais violento da escravidão ao lado da também escrava Patsey (Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por esse trabalho e que também pode ser vista na estreia recente de Sem Escalas). Grande parte dos castigos aqui eram motivados pelo ciúme da esposa de Edwin, personagem de Sarah Paulson (da série American Horror Story e do filme Amor Bandido), cujo marido se engraçava com Patsey.

Se tem alguma coisa que desabone 12 Anos de Escravidão é o modo formulaico com que o roteiro de John Ridley (que também assina o roteiro de Três Reis e do inédito All is by my Side) utilizar para solucionar o mal entendido de sua história, algo completamente incondizente com tudo que foi apresentado até o momento. A inserção do personagem de Brad Pitt na trama como salvador da pátria é extremamente abrupta, forçosa e artificial. Um deus ex-machina desnecessário. Poderia ser bem mais elaborada a descoberta do paradeiro de Northup e a resolução do seu suposto sumiço.

Por outro lado, temos a inteligente montagem do filme que sutilmente demonstra a passagem  de tempo em sua história sem jamais indicar claramente isso ao seu espectador. Em outros casos semelhantes, muita gente optaria em utilizar caracteres em tela, que sempre é uma escolha discutível. Os doze anos que compõe o título do longa só são perceptíveis nos ciclos da agricultura, com seus campos ora áridos e desnudos, ora plenamente cultivados.

Com seus erros e acertos, é inegável o forte apelo emocional da última cena de 12 Anos de Escravidão, quando Solomon Northup finalmente reencontra sua esposa e seus filhos: as crianças já não são mais pequenas, assim como o bebê de antes não cabe mais no colo. Solomon até tenta quebrar o gelo da situação ao revelar que precisa ter uma conversa séria com o genro, mas a revelação do nome do neto é de desmantelar qualquer coração, ainda mais quando estamos cientes da jornada que o avô percorreu para chegar até esse momento. Uma homenagem mais do que justa!

NOTA: 5/5

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