ANÁLISE: Clube de Compras Dallas

14 03 2014

Difícil afirmar o que Ron Woodroof gostava mais em sua vida: os rodeios, as mulheres, as drogas ou o dinheiro. Mas esse eletricista vivia seus dias intensamente e em nenhum deles faltava esses quatros itens. Entre o consumo de cocaína, a noitada com os amigos, a presença em touradas ou fugindo de quem lhe cobrava dívidas, a tosse sempre estava presente. Um sintoma que, juntamente com a magreza e os desmaios frequentes indicavam que algo não estava bem com Ron.

Num desses desmaios, os médicos confirmam o que já se suspeitava: Ron Woodroof era portador do vírus HIV, causador da Aids. Para um homem que a todo momento  reafirmava a sua virilidade e masculinidade, esse diagnóstico não era facilmente assimilado por um cidadão típico do estado americano do Texas reconhecido pelo seu ideal conservador. Não é a toa que Ron acha inadmissível ser portador de uma doença que se julgava atingir apenas os homossexuais e sua promiscuidade, afinal estamos falando da década de 80, mais precisamente do ano de 1985.

Não bastando o grave problema de ser portador de uma doença autoimune que abala o sistema imunológico humano, anulando-o quase que totalmente, a confirmação da doença veio em um momento complicado para quem era soro positivo. Naquela época, as pesquisas na luta contra a Aids ainda engatinhavam e os coquetéis, tão comumente utilizados nos dias atuais e que garantem uma vida praticamente normal para aqueles que os utilizam, ainda não estavam cientificamente estabelecidos.

Talvez seja por seu perfil irrequieto que Ron tenha conseguido ultrapassar tantos os 30 dias restantes de vida dado à ele como previsão inicialmente. Com muita garra e num trabalho excepcional e vencedor do Oscar de melhor ator de Matthew McCounaghey (da comentada série da HBO True Detective e Magic Mike), que o eletricista, por investimento e empenhos próprios, conseguiu trazer aos EUA novos ‘tratamentos’, para não ficar dependente da pouca eficaz ‘terapia em grupo’ oferecida até então pelo governo. Felizmente, Ron Woodroof acabou moldando definitivamente a forma como a saúde pública tratava os portadores de vírus HIV.

Lutar contra o sistema governamental não foi uma tarefa fácil. As outras drogas desenvolvidas mundo a fora para tratar a doença só chegavam em suas mãos através de contrabando, ou seja, ilegalmente. A sede de viver de Ron não o permitia aguardar o lento desenvolvimento das pesquisas americanas. Com essa brecha, ele via uma oportunidade de expandir o seu tratamento particular para as outras pessoas que sofriam do mesmo mal – desde que pagassem (claro!) por isso. Ron deixava claro que não fazia e nem queria fazer caridade. Nascia assim o Clube de Compras Dallas do título.

Esse novo negócio lucrativo o aproximou do grupo que ele mais detestava: o dos homossexuais, que acabaram se tornando os seus principais (se não únicos) clientes.Para vencer o seu preconceito e atingir o público-alvo desejado, Ron contou com o auxílio da “senhorita Homem”, Rayon (Jared Leto, vocalista da banda 30 Seconds to Mars, mas que já trabalhou em outros filmes como O Senhor das Armas e Réquiem para um Sonho), transexual vivido pelo igualmente magro e com a mesma performance excepcional de Jared Leto. Um trabalho também reconhecido pelo prêmio de melhor ator coadjuvante no Oscar.

Para manter o clube de compras em plena atividade, Ron estava disposto a (quase) tudo. Se passar por um (hilário) padre para atravessar ilegalmente a fronteira entre EUA e o México; falsificar documentos para conseguir novas drogas no Japão, China, Israel ou onde quer que elas sejam feitas; enfrentar a ferocidade da receita federal por faturar em um ramo econômico ainda não regulamentado; frequentar boates GLS junto com Rayon para conseguir novos clientes. Mesmo ciente da gravidade de sua doença, Ron mantinha com a mesma prática, intensidade e frequência, os péssimos hábitos vistos no início do longa: as mulheres, o dinheiro, a trambique e as drogas. A vida desregrada continuava a mesma.

Em ao meio ao redemoinho de acontecimentos que marcaram os últimos meses de vida de Ron Woodroof desde que foi diagnosticado com Aids, a única ‘ajuda oficial’ que ele teve foi da doutora Eve (Jennifer Garner, da série Alias: Codinome Perigo e dos filmes Elektra e Juno). Embora a pesquisa dela no hospital fosse diretamente afetada pela automedicação dos pacientes que se tornavam clientes do clube de compras, a doutora via o potencial do trabalho a parte realizado por Ron e sua pesquisa desenfreada na tentativa de obter a cura, mesmo que as autoridades e os médicos americanos não o percebessem.

De 1985 (quando soube da doença) até 1992, foram 2.557 dias em que Ron conviveu com a Aids. Dias que não só prolongou a sua vida muito, mas muito além mesmo dos 30 dias previstos inicialmente, mas permitiu alterar drasticamente a forma de tratamento contra o vírus HIV. O modelo atual de tratamento das pessoas portadoras da doença é fortemente inspirado na obsessão real que Ron Woodroof teve, à sua própria maneira, de aliviar o seu prognóstico mortal há quase trinta anos atrás. Uma história verdadeira que encontrou no premiado par de atores, Matthew McCounaghey e Jared Leto, a coragem e a entrega essencial para se reconstruir essa dura trajetória.

NOTA: 5/5


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Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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