ANÁLISE: Vidas ao Vento

20 03 2014

Realmente é uma pena que pessoas tão talentosas optem precocemente (na minha visão pelo menos) pela aposentadoria, em busca do merecido repouso. Conferir o último trabalho do mestre japonês de animações Hayao Miyazaki, Vidas ao Vento, só faz aumentar ainda mais o saudosismo que teremos do fundador do Studio Ghibli, que nos trouxe obras como A Viagem de Chihiro (vencedor do Oscar de melhor animação em 2003 e do Urso de Ouro do Festival de Berlim), Ponyo – Uma Amizade que veio do Mar e O Castelo Animado. Talento incomum que ainda faz da animação tradicional algo extremamente poético e encantador.  A intimidade desse cineasta com os traços a lápis cria a cada frame (não só nesse, mas em seus trabalhos anteriores também) uma imagem digna de ser emoldurada e eternizada na parede. Em Vidas ao Vento isso já é perceptível logo nas cenas iniciais, quando as luzes do sol ao amanhecer banham a paisagem bucólica de um vilarejo japonês.

Acompanhamos assim a história real da trajetória de Jiro Horikoshi, um menino apaixonado pela aviação. Manifestando-se já na infância, a miopia afastou esse pequeno sonhador de se tornar piloto profissional. Para não se afastar da área de atuação que tanto desejava, Jiro concentra todos os seus esforços para aquilo que sua visão lhe permite praticar: a construção de aviões. Uma obsessão que, nem o inglês das publicações voltadas para o assunto naqueles anos e nem a constante implicância de sua irmã caçula, conseguem atrapalha-lo.

A grande inspiração de sua vida na época, em meados da década de 1920, vinha da Itália e atendia pelo nome de senhor Giovanni Batista Caproni, o mestre em construção de aviões naquele tempo. Essa positiva influência é inserida na narrativa através dos sonhos de ambos, assumindo-se que aqueles que desejavam construir o “mais belo e perfeito avião” compartilhavam não só o mesmo objetivo, como também a área criativa em seu inconsciente. Desta forma, mesmo baseando-se em fatos reais que envolvem dois episódios tristes da Humanidade (as duas grandes guerras mundiais), Hayao Miyazaki permite-se construir aquilo que melhor sabe fazer: o fantástico. Tudo em meio a cálculos saindo da ponta do lápis e com a imaginação funcionando como o único simulador possível.

Até ver seu sonho concretizado, os problemas foram inúmeros. Assumindo o perfil característico do japonês com suas virtudes – inteligência, obstinação, honradez – o menino e agora homem, Jiro, exercita seus traços heroicos em alguns acontecimentos chaves da narrativa. Num desses trágicos momentos, ele encontra aquela que viria a ser o amor da sua vida, Naoko Satomi, quando um forte terremoto causa o descarrilamento do trem em que viajavam rumo a Tóquio. Jiro exerce continuamente o seu papel de salvador sem exigir nada em troca, muito menos reconhecimento. Mas a relação Jiro-Naoko só viria a ser concretizada anos a frente.

A genialidade de Jiro permanece mesmo dependendo  da precariedade da indústria japonesa no período: os aviões, por exemplo, eram puxados por vacas até a área de decolagem para testes. Muito diferente do que era desenvolvido pela Alemanha. Diferente de seus companheiros, Jiro era um curioso nato. Qualquer equipamento funcional merecia sua atenção, mesmo que aparentemente não tivesse relação alguma com a aviação. Até um simples pedaço de papel servia de inspiração para ele. Ao contrário de seus colegas engenheiros, Jiro frequentemente visitava as oficinas de montagem da Mitsubishi (empresa que trabalhava) demonstrando a sua humildade com os operários de lá e conquistando a admiração destes.

Se para atingir o sucesso profissional era preciso percorrer um caminho árduo, no campo afetivo as coisas também não foram assim tão fáceis. O namoro e o casamento com Naoko, cuja história se iniciou e se consolidou com um chapéu ao vento, só reservaria mais preocupações para Jiro. Assim como a mãe dela, sua amada sofria de tuberculose, que com o passar dos anos só vinha agravando o estado de saúde da jovem. Vidas ao Vento estabelece em seu decorrer essa relação dúbia na vida de Jiro: a busca pelo avião perfeito percorria uma linha ascendente, enquanto suas preocupações em relação a Naoko só aumentava.

Exatamente com essas dualidades que Vidas ao Vento nos conquista: tanto como estrutura, alternando entre o mundo real e o mundo dos sonhos – onde Miyazaki permite-se explorar o aspecto fantasioso inerente às suas animações, – quanto na trajetória pessoal de Jiro que experimenta duas sensações tão opostas quase que simultaneamente. Tentar compreender e sentir a satisfação de Jiro ao ver seu trabalho concluído e a tristeza e a dor que este sente com a partida de Naoko deixa qualquer coração despedaçado. Uma angústia em dobro proporcionada pela história e pela despedida de seu diretor, misturada com a alegria de poder conferir mais uma bela obra de Hayao Miyazaki. Os nossos sentimentos como espectador também são contraditórios!

NOTA: 5/5

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One response

23 12 2014
Retrospectiva 2014 | parte 1 - Ser ou nao sei

[…] finalmente, o seu início com a animação que precedeu a aposentadoria do mestre Hayao Miyasaki: Vidas ao Vento. E apontamos o que viria por aí nos festivais É Tudo Verdade (de documentários) e Varilux (de […]

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