ANÁLISE: Se Eu Ficar

17 09 2014

O mal tempo típico do inverno no hemisfério norte fecha as escolas e altera o cotidiano de Mia (Chlöe Grace Moretz, A Invenção de Hugo Cabret e Carrie, A Estranha) possibilitando uma pequena viagem de carro dela com sua mãe (Mireille Enos, Guerra Mundial Z e Caça aos Gângsters), seu pai (Joshua Leonard, A Bruxa de Blair e Homens de Honra) e seu irmão caçula Teddy (Jakob Davies, de Uma Viagem Extraordinária e Guerra é Guerra!) . Muito mais do que uma simples alteração da rotina diária, essa mudança nos planos irá marcar definitivamente a vida da protagonista.

Nessa viagem, Mia sofre um trágico acidente e passa por uma experiência além-corpo enquanto inconsciente no leito do hospital. Ela vivencia, em espírito, tudo o que ocorre ao seu redor e o que se passa com os seus outros familiares na emergência onde a trama, efetivamente, ocorre. Flashbacks ao longo do filme desenvolvem melhor a personagem principal contando sua vida em família, da sua paixão pelo violoncelo e do seu envolvimento amoroso com Adam (Jamie Blackley, Branca de Neve e o Caçador e O Quinto Poder).

Se Eu Ficar, porém, trata-se muito mais de uma tentativa forçosa de emocionar (em vão) e repleto de frases de efeito vazias– ou marcantes ou de autoajuda, aquelas típicas de legendas de imagens alto astral que infestam as redes sociais -, e que deveriam causar algum impacto, mas não soam verdadeiras quando ditas pelos seus respectivos atores, sejam eles os novatos ou até mesmo os veteranos. A única vez em que essa intenção é atingida, o filme já está em sua parte final, quando o avô (Stacy Keach, de A Outra História Americana e Nebraska) discorre a neta sobre as decisões tomadas por seu filho no passado e enumera a dura realidade que a garota virá a enfrentar caso sobreviva. Um único e efetivo discurso em meio a tantas outras frivolidades.

O diretor R.J. Cutler (produtor-executivo da série Nashville), inclusive, foca demais na abordagem juvenil e desinteressante da trama e desperdiça nuances e características que poderia torna-la bem mais marcante. Logo no início, momentos antes da fatalidade que atinge a família de Mia, a montagem inclui rápidas inserções da paisagem que permeia a estrada sem nenhum intuito narrativo. E este seria um momento ideal para a contemplação do longa e uma maior valorização de sua boa fotografia.

O próprio acidente (em seu instante e no momento imediatamente posterior) é ocultado, quando deveria ser mais bem abordado sem prejudicar, necessariamente, em sua classificação indicativa. Faixa etária que, certamente, foi a maior preocupação de seus produtores. A própria música clássica vira uma mera alegoria na trama. Mia poderia ter qualquer outro dom ou hobbie que não haveria nenhuma interferência na trama, o que é indesejável de onde se espera uma boa história. E soa risível quando a jovem afirma que o violoncelo seria, para ela, o seu lar, o seu refúgio. O instrumento musical surge em cena como um garfo deveria aparecer numa cena de jantar.

O relacionamento entre Mia e Adam, construído inteiramente através dos flashbacks, também apresenta mais do mesmo. A fase do flerte, adequação de um ao mundo do outro (aqui, o mundo do rock ao mundo da música clássica), as dificuldades do namoro à distância a partir do momento em que Adam começa a sair em turnês com a sua banda e Mia precisa ficar em casa e praticar para a sua audição no renomado instituto da Juilliard

A única coisa interessante de Se Eu Ficar é convergir a crise no relacionamento dos dois adolescentes com o desfecho do acidente.  E o faz satisfatoriamente. Da necessidade da presença de Adam no hospital para que Mia tenha uma chance real de sobrevivência, um motivo para que ela possa se apegar aqui na Terra. Mas com uma construção tão mesquinha e covarde oferecida até esse instante, a concretização fica muito aquém do ideal. E uma das razões para tanto seja a inexperiência do diretor em projetos para o cinema, já que possui uma carreira praticamente toda voltada para a televisão americana.

NOTA: 1/5

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One response

23 12 2014
ludoms

Os filmes de Joshua Leonard eu sempre achei que era muito bom, eu estou animado para ver sua série Togetherness.

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