ANÁLISE: Maze Runner – Correr ou Morrer

10 10 2014

Um elevador está subindo. Na escuridão plena, só o ruído de seu funcionamento é perceptível. Esse é um processo que se repete já há um bom tempo. O novato chega ao que chamam de Clareira e sua presença, recém-saída de um buraco no chão, é acompanhada de perto por inúmeros garotos, todos habitantes de uma espécie de vilarejo cercado por enormes e intransponíveis muralhas que protegem um labirinto de mesmas proporções.

Todos aqui presentes já passaram por isso: chegam desnorteados, desconhecendo seu passado e seus próprios nomes. Assim como os veteranos, o novato de agora leva algum tempo para lembrar o seu, Thomas (Dylan O’Brien, da série Teen Wolf e da comédia Os Estagiários). Em um sistema de camaradagem e cooperação (o grupo exige respeito um dos outros para a comunidade se manter nos eixos), Thomas passa a se familiarizar com o ambiente, toma ciência das regras e dos perigos que o cercam assim como o estranho fato da passagem para o labirinto se fechar ao entardecer. Antes que isso aconteça é preciso que membros do grupo, chamado de Corredores, retornem de sua jornada diária: mapear todo o labirinto durante o dia e voltar antes que a abertura se feche. Ninguém que, involuntariamente, tenha quebrado essa regra sobreviveu para contar a história. As únicas duas certezas que possuíam sobre o que se passava do outro lado da muralha ao cair da noite vinham do som das paredes internas da construção se rearranjando e os grunhidos das criaturas denominadas Verdugo.

A chegada de Thomas quebra o status quo do grupo comandado por Alby (Aml Ameen, O Mordomo da Casa Branca e Juventude Rebelde). Embora na comunidade todos cumprissem com os seus deveres, tal comportamento acabava vetando uma ousadia maior de seus membros, minguando qualquer possibilidade que os tirassem dali. Seria a desobediência às regras um mal necessário? E um mundo onde não houvesse infrações e nem autoritarismo não seria perfeito como a ideia nos parece? A ousadia e curiosidade de Thomas renderam muito mais – em poucos dias – do que o trabalho daqueles que estavam ali há anos e contentaram-se apenas em descobrir os limites do labirinto. Verdade que poucos sabiam para não acabar com a esperança de todos.

Alguns aspectos da trama de Maze Runner – Correr ou Morrer devem ser relevados, bem mais até do que o limite do aceitável para um filme ser considerado bom. Mesmo querendo levar a crer que todas as possibilidades tenham sido esgotadas anteriormente, não entendemos o porquê de nenhum deles ter usado a relva que cobre as paredes do labirinto para se esconder dos tais Verdugos e obter, assim, mais tempo para investigar o local. Ou até mesmo a existência inflada de personagens para funcionarem apenas como gatilho narrativo em certos momentos e serem totalmente ignorados no restante do filme – caso de Teresa (Kaya Scodelario, de Fúria de Titãs e Lunar) e Chuck (interpretado pelo novato Blake Cooper).

Nem mesmo com o ataque maciço dos Verdugos à Clareira, a história conseguiu eliminar todos os figurantes dispensáveis. Isso afeta diretamente as cenas de ações que empolgam pelo perigo imediato (principalmente aquelas que se passam dentro do labirinto), embora sejam poucas as pessoas com quem realmente nos preocupamos. Por isso, as sequências protagonizadas apenas por Thomas funcionem melhor do que as restantes, na medida em que o ator Dylan O’Brien realiza um bom trabalho naquilo que lhe concerne, construindo um líder admirável, crível, que transmite confiança e tenha facilidade para angariar apoio dos demais. A única exceção atende pelo implicante Gally (com Will Poulter, de Família do Bagulho e As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada, assumindo bem o papel de tirano), que tem as suas motivações para agir de tal modo.

Quem vai assistir a Maze Runner – Correr ou Morrer deve ter em mente a intenção clara do estúdio em incluir uma nova franquia de sucesso em seu catálogo e finais em aberto devem, necessariamente, fazer parte dessa receita. A esperança de uma continuação vem acompanhada de um bom desempenho de público e a liderança nas bilheterias americana e brasileira já garantiu a estreia da segunda parte para setembro de 2015. Entretanto, o longa dirigido por Wes Ball (se aventurando pela primeira vez na direção de um grande projeto de Hollywood) não cria um desejo desenfreado para a espera de uma continuação, nem mesmo com a revelação do mundo pós-apocalíptico por trás do labirinto. Na realidade há sim um certo receio em aguardar o que está por vir.

NOTA: 3/5





ANÁLISE: Isolados

7 10 2014

Assobios de alguém que está procurando algo na escuridão. Uma trilha sonora grave e contínua e uma câmera hesitante em mostrar o que está acontecendo criam uma atmosfera misteriosa e envolvente. Mais alguns instantes e a surpresa: toda a escuridão presente advinha muito mais da mata fechada em si, que impedia a penetração da luz de um dia que já se findava lá fora, do que uma falta real de luminosidade.

Gratificante acompanhar essa crescente diversificação do cinema nacional, não só em temática, mas também em gêneros. Uma produção cinematográfica que já abordou a favela, o sexo, a violência, que agora insiste na comédia descompromissada, mas consegue agora produzir suspenses e dramas muito bem realizados e começa a se aventurar nas animações (e conquistar importantes prêmios internacionais nesse terreno).

Lauro (Bruno Gagliasso em seu segundo filme após Mato sem Cachorro) e Renata (Regiane Alves, de Zuzu Angel e O Menino no Espelho) são um casal que vão passar alguns dias numa casa totalmente isolada no meio da mata no estado do Rio de Janeiro. Mas o que eles não sabiam antes de chegarem ali era o fato de que mulheres foram mortas e violentadas no meio da floresta. E quem o fazia ainda continuava a espreita.

O motivo para essa viagem e para esse isolamento é explicado em rápidos e sucintos flashblacks, que mostram o passado conturbado de Renata, mentalmente falando, motivado por um trauma de infância: a perda repentina e precoce do pai. Ela torna-se paciente de Lauro, um psiquiatra que se autodefende como alguém que “gosta de levar trabalho para casa” e daí para surgir um relacionamento entre eles foi um pulo. Passar uma temporada longe da agitação da grande cidade poderia auxiliar no tratamento dela. Poderia.

Renata surta em dado momento quando Lauro a impede de sair de casa. Ela desconhecia o que se passava na região. Uma hora a mulher consegue se desvencilhar da proteção do namorado/doutor e foge mata adentro. Isolados age corretamente em manter a ameaça escondida, nunca a exibindo. Tudo o que o espectador recebe nesse sentido são relances dos assassinos, sons em meio à mata, sombras. Os suspeitos nunca são devidamente expostos, nem mesmo quando Lauro se depara com os criminosos. Decisões clichês, mas que funcionam e atendem a proposta do filme.

Os protagonistas passam a viver uma aflição e um temor dentro da casa. Impossibilitados de deixarem o local devido ao grave ferimento na perna de Renata, eles acabam isolados na residência, trancafiados, sem energia e sem comunicação, portanto, sem nenhum tipo de auxílio externo. Mais do que a probabilidade que os assassinos voltem a agir novamente, são os surtos cada vez mais frequentes de Renata que podem atrapalhar a tentativa de saírem dessa situação.

Eficiente em sua montagem que cria um thriller interessante, principalmente nas cenas de ação beneficiadas por uma edição ágil, Isolados peca mesmo no roteiro de duas formas distintas: no excesso de frases expositivas e óbvias, com o claro intuito de indicar o rumo da trama e na construção rasa do núcleo de personagens da força policial – que agem e falam de um modo tão inexperiente que chegamos a temer pelas vítimas cujas respectivas vidas dependam da investigação realizada por eles.

Mesmo com tais falhas, a história surpreende em seu desfecho por desconstruir completamente o perfil de um personagem e mesclar realidade e fantasia sem negar tudo o que foi mostrado. Vale a pena destacar também a linda e justa homenagem prestada durante boa parte dos créditos finais a José Wilker (O Bem Amado e Casa da Mãe Joana) que faz uma pequena participação especial com, possivelmente, uma das cenas do ator que acabaram sendo excluídas da edição final.

NOTA: 3/5





ANÁLISE: O Lobo Atrás da Porta

4 10 2014

FILME VISTO DURANTE A 1ª SEMANA TUPINIQUIM CINEFLIX

Uma investigação sobre o rapto de uma garotinha na creche aponta que há motivações bem mais graves por trás do sequestro. As revelações ocorrem a partir de depoimentos dos envolvidos frente ao delegado vivido por Juliano Cazarré (dos filmes Serra Pelada e A Febre do Rato). De forma incisiva e até bruta, ele consegue maiores detalhes dos depoentes. A sua experiência no cargo lhe ensinou a não ignorar nenhuma vertente de possibilidades, por mais que aqueles sentados a sua frente possam estranhar os seus questionamentos.

Sylvia (Fabíula Nascimento, Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho e Estação Liberdade) aparece com uma queixa na delegacia contra a responsável pela creche de sua filha, já que a criança foi entregue a uma desconhecida após uma falsa ligação em nome dela alegando mal-estar e, portanto, não poderia buscar a criança na escola. Com a chegada do pai, Bernardo (Milhem Cortaz, dos dois Tropa de Elite e Amanhã Nunca Mais), e a perspicácia do delegado, logo se sabe a existência de uma amante. Assim, todas as suspeitas recaem sobre Maria Rosa (a atriz Leandra Leal, de Cazuza: O Tempo não Pára e Zuzu Angel), mulher que mantem um relacionamento extraconjugal de mais de um ano com o pai da criança desaparecida.

Flashblacks complementam os testemunhos, momentos em que o roteiro de Fernando Coimbra (e que também dirige o seu primeiro longa-metragem), usa para mostrar o ponto de vista de cada personagem e, dessa forma, consegue mesclar sequências de intensa carga emocional com outras cenas mais tranquilas, mais íntimas. Para um thriller policial, o filme conta com algumas passagens com ritmo que destoa do restante da narrativa, sem afetar dessa forma o nosso interesse pela trama. Observe uma das inúmeras interações entre Bernardo e Rosa, onde em certo momento os dois conversam lenta e pausadamente com uma grade de janela separando eles da câmera. Poucos filmes do mesmo gênero apostariam em uma cena tão extensa como essa.

Sem dúvida isso é fruto do talento de seus atores. Com um dos melhores atores do cinema brasileiro em atividade, Milhem Cortaz, que demonstra perfeitamente todo o cinismo e cafajestismo de Bernardo – preocupado apenas em satisfazer seu desejo sexual – e mais Leandra Leal, que juntos em cena, transbordam uma sensualidade intensa. A atriz, por sua vez, transita muito bem pelos três perfis que compõe a sua personagem: além do de amante, ainda se faz de dissimulada para a esposa de Bernardo, frequentando sua casa como se fosse uma distante conhecida de muito tempo do casal e o de vilã, escondida atrás de suas expressões dóceis.

As ações dos dois que levam às drásticas ocorrências que O Lobo Atrás da Porta reserva em seu desfecho: Bernardo, tentando esconder a todo custo o seu relacionamento extraconjugal, opta por artifícios bárbaros ao forçar um aborto em Rosa e por um fim na relação, o que a leva ir até as últimas consequências. O problema é que ele nunca desconfiou (ou nunca acreditou) das tendências psicopatas dela. Psicopatia que não estabelece limites para o quê pode ou não ser feito para se vingar do término do caso amoroso e da crueldade a que ela foi submetida. Ao não querer falar mais do assunto, nem se arrepender do que fez e muito menos exigir o perdão de quem quer seja, define muito bem o lado vingativo, frio e calculista de Rosa.

O Lobo Atrás da Porta é um eficiente quebra-cabeças que vai sendo montado aos poucos e consegue camuflar os seus mistérios e apontar, propositadamente, para a direção errada (e nesse caminho conta com a participação especial da surpreendente e explosiva Thalita Carauta) sem se perder do fio condutor principal do drama. Uma experiência gratificante acompanhar o seu desenrolar e ver uma bem-sucedida diversificação (de gênero, temática e montagem) do cinema nacional que consegue extrair uma ótima história de um triângulo amoroso e de todas as suas mentiras e dissimulações. Uma promissora entrada de Fernando Coimbra no cenário de longas metragens brasileiros.

NOTA: 5/5





ANÁLISE: De Menor

28 09 2014

FILME VISTO DURANTE A 1ª SEMANA TUPINIQUIM CINEFLIX 

Helena retorna para casa após mais um momento de curtição na praia. Na residência à venda está Caio (Giovanni Gallo, mais conhecido por ser um dos protagonistas da série Pedro e Bianca da TV Cultura), seu irmão mais novo de 16 anos, pelo qual ela ficou responsável devido à perda de seus pais. Num primeiro momento, De Menor foca na relação extremamente carinhosa entre os irmãos com direito a brincadeiras inocentes na praia, a cafunés na cozinha e no sofá e abraços afetuosos.

Helena (Rita Batata, Não por Acaso e O Magnata) é uma defensora pública que lida diariamente com menores infratores na cidade de Santos om perfis extremamente opostos ao de seu irmão. Há aquele que não tem a presença de nenhum dos pais por perto e não possui vida escolar, mas faz luzes no cabelo e tem um braço todo coberto por tatuagens; há aquela menina grávida que pretende ter o filho na rua por não aceitar ficar em abrigos e nem retornar para a casa da mãe e há outros que cometem infrações de menor potencial ofensivo.

Ter um adolescente sob sua responsabilidade faz com que Helena tenha muito mais proximidade e compaixão com aqueles que sentam no banco de réus da Vara da Infância e Juventude. Natural também que sua atuação nessas audiências seja sempre mais branda do que a de seus nobres colegas julgadores. O seu comprometimento com trabalho a leva, inclusive, a procurar a mãe de um deles em São Paulo (e ajuda-la financeiramente) para que ela compareça na audiência na cidade litorânea.

O que Helena jamais esperava é que uma das audiências que já está tão acostumada a presenciar seria com o seu irmão. Caio enganou muito bem, tanto a irmã quanto o público. Jamais esperávamos que o mesmo garoto de danças psicodélicas debaixo do chuveiro, consumidor de bolachas recheadas e autor de beijos carinhosos em sua irmã advogada fosse se enveredar pelas trilhas do crime. Se a primeira vez em que é visto algemado na delegacia surpreende, a segunda vez em que é preso já não causa tanta surpresa. Nem mesmo a gravidade do crime dessa vez: assalto a mão armada.

Com uma dupla de protagonistas que constroem personagens e situações verossímeis com atuações tão evidentes por closes frequentes, De Menor apresenta também um competente Caco Ciocler (do divertidíssimo 2 Coelhos e Meu Pé de Laranja Lima) no papel de juiz. O ator veterano consegue se destacar não só pela compreensão ao conduzir suas audiências, mas também por demonstrar sua autoridade em momentos em que não surge em tela, trazendo a firmeza de seu personagem apenas com a voz.

Dolorido presenciar o processo de desconstrução que Helena faz da imagem de seu irmão conforme vai descobrindo fatos que ele ocultava em sua própria investigação. Dói vê-la vasculhar o quarto dele em busca de algo que tivesse passado despercebido, fazendo com que não tomasse providências anteriormente. Uma ferida interna crescente após a tamanha responsabilidade que passou a ter em mãos de repente, ao ter um adolescente para educar e criar, sem a maturidade suficiente para tanto.

De Menor é um desses filmes que não precisam de muito para ser mostrar a que veio. A simplicidade de seu roteiro e de sua montagem não deixa a desejar, mas sim só a valorizar, por convencer com muito pouco. A defensora pública agora com o próprio irmão recolhido em uma Fundação Casa agora terá que reencontrar forças para continuar a vida, que dia após dia, não vem se revelando fácil para ela. E por mais que Helena pareça não sucumbir a essa pressão, a cena que encerra o longa, com ela encolhida numa banheira mostra o quanto ela já está sofrendo com tudo isso.

NOTA: 5/5





ANÁLISE: O Homem das Multidões

27 09 2014

FILME VISTO DURANTE A 1ª SEMANA TUPINIQUIM CINEFLIX

Uma multidão lá embaixo; muitos pedestres e o som conjunto de todas as suas vozes chegam ao mesmo tempo até a sacada do apartamento. O pátio de manobras do metrô em Belo Horizonte. Uma simetria ocorre na tela com um trilho em meio a duas composições de trens prontos para entrarem em operação. Em duas cenas iniciais, a direção conjunta de Marcelo Gomes (de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo e Cinema, Aspirinas e Urubus) e Cao Guimarães (diretor em Rua de Mão Dupla e editor em A Festa da Menina Morta) resume rapidamente a vida do homem das multidões. Uma tarefa fácil porque não há muito que se falar dele.

Maquinista na capital de Minas Gerais – uma profissão por si só reclusa -, Juvenal (o novato Paulo André) tem uma vida inacreditavelmente solitária e monótona que se resume ao trabalho, ao vagar pela população sem rumo e à sua casa. No meio da multidão belo-horizontina, nem se pode dizer que ele esteja inserido, tamanha a sua invisibilidade. Nas calçadas e logradouros públicos ele está presente e ao mesmo tempo ausente. Ele sobe e desce as escadas rolantes das estações sem ser notado. Observar a operação noturna dos trens em BH é um estranho passatempo e o máximo de interação que consegue ter com os seres humanos que o cercam é o esboçar um sorriso a partir de uma gargalhada alheia.

Impossível que o convívio mútuo entre funcionários gerado pelo ambiente de trabalho não o fizesse criar um vínculo de amizade sequer. Assim, proveniente de uma iniciativa maior dela, Juvenal conhece a sua versão feminina interpretada por Sílvia Lourenço (de Bicho de Sete Cabeças e O Cheiro do Ralo). Margo só não possui o mesmo nível de isolamento crônico dele por manter contatos virtuais pela internet. Frios, mais ainda assim contatos. Até seu noivado é fruto de acessos a sites de relacionamento. Mas a inabilidade nata com o contato humano, com a conversa tête-à-tête é igual para os dois.

A dinâmica na amizade entre eles é peculiar, pois ambos têm a dualidade ausente-presente muito forte. Um está ao lado do outro, mas não há tato algum; as palavras no que, na prática, seria uma conversa são raríssimas. Tantas coisas em similaridade que acabou resultando nessa “amizade”, capaz de convencê-lo do improvável e tornar Juvenal padrinho de casamento dela. A maior aventura da vida dele foi ter dormido uma vez na cabine de maquinista, disparando o sistema de segurança do trem.

Assim, a história dos dois é mostrada e contada, mesmo que ela não vá para lugar algum e nem apresente nada de extraordinário. Nada se modifica e tudo permanece o mesmo. Muitas vezes até a câmera, imóvel e observadora, parece não reconhecer os personagens principais, onde o foco aponta para uma direção qualquer e de vez em quando temos a sorte (ou azar) de vê-los no enquadramento.  Com um modo de viver tão limitado e sem ambições, O Homem das Multidões ainda impõe limites ainda maiores ao adotar o incomum aspecto de vídeo 1×1: um buraco quadrado na tela do cinema.

A vida cotidiana natural e crua, em sua absoluta maioria, não apresenta nada de extraordinário que possa render uma história adaptável para o cinema. Mas, por outro lado, esse mesmo cinema não pode (e nem deve) se limitar a essa ou àquela história, afinal é sua liberdade criativa e inventiva (como o citado aspecto de vídeo) que o torna tão fascinante.

O Homem das Multidões possibilita questionamentos sim, ainda mais se tratando de algo que, se ainda não o é, virá a ser uma tendência a partir do crescente número de pessoas morando sozinhas e adotando o estilo solteiro de se viver. Mas torço para que essa preferência signifique uma vivência dinâmica, efervescente e pulsante, dada a sua liberdade, e não em algo mecânico, vazio e óbvio como o retratado aqui. É esse sentimento agridoce que o longa nos acomete. Levanta questões de grande interesse filosófico inerente ao homem e à sociedade atual. Mas em determinados essas divagações passam a extrapolar o limite da sala de cinema e aí temos que redobrar a nossa atenção e voltar o foco para a projeção. Se o filme deixa isso ocorrer alguma coisa está errada nele e aí opto pela visão daqueles que sempre consideram o copo meio vazio.

NOTA: 2/5





ANÁLISE: Guardiões da Galáxia

1 09 2014

Uma aventura intergaláctica que ocorre ao som de clássicos que vão de 1966 até 1979. Assim podemos resumir muito bem a nova aposta da Marvel Studios para o cinema, agora com novos heróis e muitos deles desconhecidos de grande parte do público, acostumados com as milionárias produções individuais ou em conjunto de Os Vingadores.

A sessão musical nostálgica que se ouve durante o filme é explicado pelo inseparável walkman e a fita cassete que Peter Quill (Chris Pratt, de Ela, O Homem que Mudou o Jogo e empresta a voz para o protagonista de Uma Aventura Lego) carrega consigo por onde quer que vá. A fita contem gravações das músicas que sua mãe mais gostava, antes que ela viesse a falecer em 1988, o mesmo ano em que Peter é abduzido pelo grupo de alienígenas liderado por Yondu Udonta (Michael Rooker, mais conhecido por ser o irmão de Daryl Dixon na série The Walking Dead).

A grande aventura mesmo começa vinte e seis anos depois, quando Peter sobrevive de planeta em planeta como caçador de recompensas. O objeto-alvo de agora é um Orbe que carrega dentro de si uma das Joias do Infinito, uma das armas mais poderosas de universo. Tanto poder que atrai os mais variados tipos de raças para o seu encalço. Entre eles, Ronan, o Acusador (um trabalho indistinguível de Lee Pace, de O Hobbit: A Desolação de Smaug e da finada série Pushing Daisies), que deseja a peça para obter auxílio de Thanos (papel de Josh Brolin, Onde os Fracos não Tem Vez e Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme, não-creditado) em seu desejo de destruir o planeta de Xandar.

É o próprio Orbe que faz, involuntariamente, surgir os ditos guardiões da galáxia: o guaxinim Rocket (com a voz de Bradley Cooper, Trapaça e a trilogia Se Beber Não Case) e a árvore humanoide Groot (voz de Vin Diesel, da cinessérie Velozes e Furiosos e O Resgate do Soldado Ryan) se interessam pela recompensa oferecida para quem capturasse Peter;  Gamora (Zoe Saldana, Avatar e Além da Escuridão: Star Trek) deseja vingar a morte de seus pais utilizando a caça do Orbe como uma falsa justificativa, o mesmo espírito vingativo rege as ações de Drax, o  Destruidor (o grandalhão Dave Bautista, de Riddick 3 e O Homem com Punhos de Ferro), cuja família foi assassinada por Ronan.

Ciente do público-alvo de seu longa, o diretor e também roteirista James Gunn (diretor em Para Maiores e roteirista em Madrugada dos Mortos) não perde um minuto sequer para contar a história, nem mesmo a história de Peter Quill na Terra demonstrada de forma bem sucinta durante o início do filme. As motivações dos demais personagens (vilões ou aliados) são explanadas juntamente com as várias sequências de ação que o compõe, situadas em diversos lugares da galáxia. Bebendo da fonte das histórias em quadrinhos (e o seu festival de codinomes), Guardiões da Galáxia ainda apresenta pinceladas, uma hora ou outra, de outros títulos de gênero semelhante do Cinema: personagens bastante carismáticos e de criação híbrida de Star Trek ou as cenas de ação em pleno espaço de Star Wars.

Mas o ponto bastante positivo deste novo filme da Marvel Studios seja mesmo a sua fidelidade à pouca seriedade destinada a esse universo. Com uma legião de protagonistas que não abandonam de forma alguma suas idiossincrasias pelo dito “bem maior” pelo qual lutam, Guardiões da Galáxia faz piada a toda hora, até nos momentos mais emblemáticos, e ainda desempenhando inclusive funções narrativas para a trama. Praticamente todos os personagens têm os seus momentos cômicos, mas Groot, Rocket e Peter se sobressaem nesse quesito. Um blockbuster com qualidades acima da média e que casa muito bem suas naves de conceito moderníssimo com velhos clássicos da música da década de 1970.

NOTA: 5/5





ANÁLISE: Planeta dos Macacos – O Confronto

20 08 2014

Agora, a Golden Gate Bridge em São Francisco funciona como uma divisa entre dois territórios: de um lado, os símios estabelecidos em uma sociedade primitivamente constituída em meio a floresta e do outro, os homens imunes à substância AZL-113, vivendo nas ruínas de uma São Francisco de fazer inveja à Nova York sitiada vista em Eu Sou a Lenda.

Tal situação estende-se há mais de 10 anos, sendo que nos dois últimos não houve nenhuma interação direta entre humanos e macacos. O grupo liderado por Cesar (Andy Serkis, ator que é sinônimo da tecnologia de captura de movimentos no cinema, desempenhando a mesma função na trilogia de O Senhor dos Anéis e na refilmagem mais recente de King Kong) mantem o progresso cognitivo de sua espécie observada em Planeta dos Macacos – A Origem, aprimorando a comunicação entre si através da língua de sinais e aperfeiçoando gradativamente a habilidade da fala e como também aprendendo a domesticar outros animais, já que surgem em muitas vezes montados em cavalos. O diretor Matt Reeves (que também dirigiu os filmes Cloverfield: Monstro e Deixe-me Entrar) acerta em pontuar os momentos de maior intensidade dramática do filme em Cesar e suas respostas monossilábicas, algo já visto no primeiro filme de 2011.

No grupo dos humanos, muitos rostos conhecidos vindos das séries americanas: Keri Russell (Felicity e The Americans) como Ellie, Kirk Acevedo (Fringe e Oz) como Carver, além do adolescente Alexander (Kodi Smit-McPhee, de A Estrada e da animação ParaNorman), liderados tanto por Dreyfus (Gary Oldman, da trilogia O Cavaleiro das Trevas ou  o Sirius Black da cinessérie Harry Potter) quanto por Malcolm (Jason Clarke, de A Hora mais Escura e O Grande Gatsby). Todos estão prestes a ficar sem energia e a única solução plausível é uma antiga represa cuja proximidade com o território comandado por César será a causadora dos conflitos vistos nessa continuação.

Ambos os lados apresentam suas próprias razões para se oporem ao restabelecimento de contato entre as espécies: o símio Koba (criado a partir da captura dos movimentos de Toby Kebbell, de O Conselheiro do Crime e Cavalo de Guerra), por exemplo, carrega cicatrizes pelo corpo que o recordam, a todo instante, o tempo em que esteve junto com os humanos e daí a sua revolta com a liderança pacificadora promovida por Cesar. Já Carver, por sua vez, traz consigo toda a intolerância e indiferença inerentes à Humanidade no que se refere as ditas “raças inferiores”, sempre subjugando-as por meio da força e da violência. Só que dessa vez, Cesar, Koba, Maurice e companhia bela não tem mais nada de inferioridade…

Apesar do enredo bem desenvolvido e composto por inúmeras boas sequências de ação – como aquela na qual os macacos atacam o refúgio humano com um tanque de guerra ou mesmo o lado circense de Koba em enganar os homens – Planeta dos Macacos – O Confronto peca mesmo por se acomodar na resolução de seus conflitos, não inovando e decidindo-se enveredar por caminhos óbvios, já vistos fartamente em outras produções. O longa não esconde e nem disfarça as possíveis alianças e traições de um grupo e de outro que vão conduzir ao seu desfecho. Como destaque mesmo temos a sabedoria de Cesar, ciente de que os humanos não perdoarão este confronto, funcionando como um ótimo chamariz para a terceira parte dessa nova refilmagem prevista para chegar aos cinemas em 2016. Só a empolgação pela nova continuação que poderia ser maior.

NOTA: 3/5





ANÁLISE: O Menino e o Mundo

16 08 2014

 

Texto republicado em nossa página no Ser ou Não Seihttp://bit.ly/1Weuo5x





VI Paulínia Film Festival | Sinfonia da Necrópole

30 07 2014
Troféu Menina de Ouro do Paulínia Film Festival

Troféu Menina de Ouro do Paulínia Film Festival

[BRASIL, 2014] – Quem diria que um assunto tão peculiar (o cemitério) poderia render uma boa história contada através de gêneros difíceis de relacionar à essa temática: a comédia e o musical. Tal façanha foi alcançada com extremo sucesso por Juliana Rojas (em segundo longa, depois de dirigir Trabalhar Cansa) e equipe.

Um grande cemitério da cidade de São Paulo recebeu um candidato pouco apto a exercer a profissão da qual é aprendiz – coveiro. A primeira vez que vemos Deodato (Eduardo Gomes) ocorre quando o vemos ser resgatado de dentro da cova de um enterro em andamento. O mal súbito do protagonista é recorrente, o quinto em menos de um mês, ou seja, são praticamente nulas as chances de prosperidade de Deodato nesse cargo.

Um fiel espelho da grande metrópole em que está instalado, o cemitério (ou a necrópole do título) passa pelos mesmos problemas da cidade que o cerca. Só que no primeiro caso os envolvidos são os mortos e os seus túmulos e, no segundo, somos nós e os nossos corpos. Vivos. Por enquanto…

Falta de manutenção, jazigos abandonados e espaço escasso para receber novos inquilinos. A comparação é verdadeira, já que a escassez de espaço é a desculpa recorrente da (pouca) mobilidade urbana. Para solucionar essa mórbida questão entra em cena Jaqueline (Luciana Paes, Onde está a Felicidade? e Crô: O Filme), uma entusiasmada profissional do ramo funerário, contratada pelo administrador do cemitério, Aloíso (Hugo Villavicenzio, O Cheiro do Ralo e Trabalhar Cansa) e encarregada de mapear e recadastrar todas as pessoas enterradas, encontrar espaços ociosos e contatar famílias a serem indenizadas devido a realocação de alguns túmulos. Tudo integrando um plano de verticalização do cemitério (qualquer semelhança com o lado externo é mera coincidência).

Além dos túmulos, o cemitério e suas adjacências são povoados por personagens coadjuvantes carismáticos que auxiliam na criação do humor afiado da produção. O roteiro também assinado pela diretora, por exemplo, recria expressões populares para se adequar ao cenário abordado, ao mesmo tempo em que cria esquetes que não soam tolas e deixam uma dúvida bem-vinda: o riso ocorre por que a produção não se leva a sério? Ou por que leva a sério o que é engraçado? Acredito que um pouco dos dois…

De qualquer forma, a experiência como um todo é gratificante. Claramente uma produção de baixo orçamento, Sinfonia da Necrópole entusiasma mais pelo carisma de seus personagens e pela originalidade de sua história (principalmente as canções) do que pela possibilidade de um relacionamento entre seus protagonistas, que existe, embora seja passageiro.

NOTA: 4/5





VI Paulínia Film Festival | Neblina

26 07 2014
Troféu Menina de Ouro do Paulínia Film Festival

Troféu Menina de Ouro do Paulínia Film Festival

[BRASIL, 2014] – A essência primordial de um documentário é transmitir o maior número possível de informações sobre determinado assunto, reunindo para tanto: dados históricos, depoimentos de pessoas que conheceram ou vivenciaram o tópico em questão e pesquisa de imagens. Tudo de uma forma orgânica e funcional, e por que não, prazerosa de se assistir.

Com muitos méritos, Neblina consegue preencher muito bem esses quesitos ao enfocar as ruínas ferroviárias da vila de Paranapiacaba, na região da Serra do Mar em São Paulo, distante 74 quilômetros da capital paulista. Frequentemente um denso nevoeiro encobre o cenário da região. O que certamente seria um charme a mais para a pacata vila em seu apogeu no passado, quando era o coração e um importante corredor de exportação do estado, hoje a neblina é sinônimo de depressão para os moradores.

Mas depressivo mesmo é o que a névoa esconde e o sol, em dias límpidos, escancara sem rancor. Todo o sítio ferroviário de Paranapiacaba (que, infelizmente, pode ser estendido a todo Brasil, salvas raríssimas exceções) estão em completo abandono. Vagões são grandes sucatas a céu aberto; as estações, os pátios de manobras e todo o conjunto arquitetônico voltado para o funcionamento da ferrovia estão em degradação perene. A própria vila sofre com a precariedade de suas estruturas antigas e a falta de investimentos necessários para a sua manutenção e conservação.

Como parte de um todo, o que aconteceu e tem acontecido em Paranapiacaba sofreu uma clara influência externa, muitas vezes contrária à vontade daqueles que a habitam. Desde a arquitetura de inspiração portuguesa e inglesa (os primeiros imigrantes que se estabeleceram na região), o humor econômico europeu que determinava o quê, como e de que forma as verbas seriam investidas ali ou decisões políticas internas, conjuntamente com a forte pressão financeira de montadoras de veículos, que foram minando, gradativamente, a importância das estradas de ferro brasileiras. Um grave equívoco para uma nação continental como o Brasil em apostar todas as suas ficha$ na malha rodoviária e relegar as ferrovias ao segundo, terceiro, sétimo plano.

O que se vê hoje em Paranapiacaba é um retrato fiel e melancólico do que se tornou a rede ferroviária no país. Uma sucessão de erros e má decisões que a deixou fragmentada, descontínua e deixou em ruínas um passado que será difícil reconstruir. Em Neblina, importante destacar a abrangência da visão adotada pelos diretores Daniel Pátaro e Fernanda Machado ao abordar essa decadência, que acaba interferindo um pouco no ritmo do documentário. Um campo de visão alicerçado em uma extensa seleção de imagens de arquivo preto-e-branco dos mais variados temas (que jamais suporíamos estarem presentes em um documentário sobre Paranapiacaba), mesclados com os depoimentos de seus moradores, que vivenciaram o tempo de esplendor da vila ou que simplesmente tentam, com muita dificuldade, preservar um pouco dessa história.

NOTA: 4/5  








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