ANÁLISE: O Lobo Atrás da Porta

4 10 2014

FILME VISTO DURANTE A 1ª SEMANA TUPINIQUIM CINEFLIX

Uma investigação sobre o rapto de uma garotinha na creche aponta que há motivações bem mais graves por trás do sequestro. As revelações ocorrem a partir de depoimentos dos envolvidos frente ao delegado vivido por Juliano Cazarré (dos filmes Serra Pelada e A Febre do Rato). De forma incisiva e até bruta, ele consegue maiores detalhes dos depoentes. A sua experiência no cargo lhe ensinou a não ignorar nenhuma vertente de possibilidades, por mais que aqueles sentados a sua frente possam estranhar os seus questionamentos.

Sylvia (Fabíula Nascimento, Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho e Estação Liberdade) aparece com uma queixa na delegacia contra a responsável pela creche de sua filha, já que a criança foi entregue a uma desconhecida após uma falsa ligação em nome dela alegando mal-estar e, portanto, não poderia buscar a criança na escola. Com a chegada do pai, Bernardo (Milhem Cortaz, dos dois Tropa de Elite e Amanhã Nunca Mais), e a perspicácia do delegado, logo se sabe a existência de uma amante. Assim, todas as suspeitas recaem sobre Maria Rosa (a atriz Leandra Leal, de Cazuza: O Tempo não Pára e Zuzu Angel), mulher que mantem um relacionamento extraconjugal de mais de um ano com o pai da criança desaparecida.

Flashblacks complementam os testemunhos, momentos em que o roteiro de Fernando Coimbra (e que também dirige o seu primeiro longa-metragem), usa para mostrar o ponto de vista de cada personagem e, dessa forma, consegue mesclar sequências de intensa carga emocional com outras cenas mais tranquilas, mais íntimas. Para um thriller policial, o filme conta com algumas passagens com ritmo que destoa do restante da narrativa, sem afetar dessa forma o nosso interesse pela trama. Observe uma das inúmeras interações entre Bernardo e Rosa, onde em certo momento os dois conversam lenta e pausadamente com uma grade de janela separando eles da câmera. Poucos filmes do mesmo gênero apostariam em uma cena tão extensa como essa.

Sem dúvida isso é fruto do talento de seus atores. Com um dos melhores atores do cinema brasileiro em atividade, Milhem Cortaz, que demonstra perfeitamente todo o cinismo e cafajestismo de Bernardo – preocupado apenas em satisfazer seu desejo sexual – e mais Leandra Leal, que juntos em cena, transbordam uma sensualidade intensa. A atriz, por sua vez, transita muito bem pelos três perfis que compõe a sua personagem: além do de amante, ainda se faz de dissimulada para a esposa de Bernardo, frequentando sua casa como se fosse uma distante conhecida de muito tempo do casal e o de vilã, escondida atrás de suas expressões dóceis.

As ações dos dois que levam às drásticas ocorrências que O Lobo Atrás da Porta reserva em seu desfecho: Bernardo, tentando esconder a todo custo o seu relacionamento extraconjugal, opta por artifícios bárbaros ao forçar um aborto em Rosa e por um fim na relação, o que a leva ir até as últimas consequências. O problema é que ele nunca desconfiou (ou nunca acreditou) das tendências psicopatas dela. Psicopatia que não estabelece limites para o quê pode ou não ser feito para se vingar do término do caso amoroso e da crueldade a que ela foi submetida. Ao não querer falar mais do assunto, nem se arrepender do que fez e muito menos exigir o perdão de quem quer seja, define muito bem o lado vingativo, frio e calculista de Rosa.

O Lobo Atrás da Porta é um eficiente quebra-cabeças que vai sendo montado aos poucos e consegue camuflar os seus mistérios e apontar, propositadamente, para a direção errada (e nesse caminho conta com a participação especial da surpreendente e explosiva Thalita Carauta) sem se perder do fio condutor principal do drama. Uma experiência gratificante acompanhar o seu desenrolar e ver uma bem-sucedida diversificação (de gênero, temática e montagem) do cinema nacional que consegue extrair uma ótima história de um triângulo amoroso e de todas as suas mentiras e dissimulações. Uma promissora entrada de Fernando Coimbra no cenário de longas metragens brasileiros.

NOTA: 5/5

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ANÁLISE: Alemão

1 04 2014

Para que o governo do estado do Rio de Janeiro implementasse o seu programa de pacificação das comunidades carentes dos morros cariocas era preciso um levantamento detalhado da movimentação e da organização dos traficantes nesses locais. Daí a necessidade de policiais disfarçados nesses locais para obtenção de informações e assim instalar as famosas UPP’s, as Unidades de Polícia Pacificadora.

Alemão, longa de José Eduardo Belmonte (Se Nada mais der Certo e Billi Pig), concentra-se nesses policiais infiltrados a partir do momento em que fichas com seus nomes acabam caindo nas mãos dos traficantes que o reconhecem de imediato. Referindo-se ao bairro onde a história se passa, percebemos o quão abrangente o título se torna quando toda a ação ocorre praticamente num único e diminuto local do Morro do Alemão, uma pizzaria, justamente onde os cinco policiais à paisana encontram-se acuados sem poderem sair da comunidade devido ao pente-fino que os traficantes realizam nos becos e ruelas da favela.

Vividos por Caio Blat (de Xingu e na recente estreia de Entre Nós), Gabriel Braga Nunes (O Homem do Futuro e Anita e Garibaldi) , Milhem Cortaz (Tropa de Elite 1 e 2 e Assalto ao Banco Central), Otávio Muller (Reis e Ratos e Giovanni Improtta) e pelo novato Marcello Melo Júnior, os policiais infiltrados Samuel, Danilo, Branco, Doca e Carlinhos, respectivamente, são o que a narrativa tem de mais forte em tela. Não só pelo perigo iminente que correm de serem encontrados a qualquer momento pelos traficantes, mas também pela forte desconfiança que um tem do outro em relação à responsabilidade de estarem nessa situação, ou seja, que um deles tenha dedurado o verdadeiro papel deles ali. Obtêm-se assim duas formas eficientes de tensão.

O problema de Alemão ocorre quando o enfoque da história não está nesses cinco protagonistas. O maior deles atende pelo nome de Cauã Reymond (À Deriva e Estamos Juntos) que comanda o tráfico na comunidade com a alcunha de Playboy. O ator em momento algum oferece uma intensidade dramática ao seu personagem que parece muito mais um mauricinho de classe média do que um comandante marginal e impiedoso. Com um fraquíssimo vilão, todo o temor e apreensão que deveria vir do personagem se esvai e o longa acaba se perdendo na dualidade entre o bem e o mal, essencial para qualquer boa história. Se a intenção de Cauã era se desvencilhar da figura de ‘bom-moço’ – intenção que revelou em entrevistas sobre a sua escolha de personagens -, não obteve sucesso algum. A atuação dele torna-se ainda mais apagada quando o roteiro de Leonardo Levis (O Concurso) e Gabriel Martins trata de excluí-lo da tomada de decisão no momento crucial do filme.

O pequeno núcleo policial na delegacia envolvendo a participação de Antônio Fagundes (Deus é Brasileiro e Quando eu Era Vivo) como o delegado Valadares e pai do personagem de Caio Blat também pouco acrescenta à trama, além de ocupar minutos preciosos de projeção que seriam melhor aproveitáveis se fossem destinados aos policiais encurralados na favela. Vale destacar também a participação pavorosa e completamente descartável de um policial enviado à comunidade para obter informações de seus companheiros e é infantilmente capturado pelos traficantes.

Com louváveis acertos (como manter os protagonistas como sombras na maior parte do tempo no cenário, realçando o quanto estes não pertencem ao local em que se encontram), os atores principais propriamente ditos, mas também com muitos erros, Alemão oferece um bom momento de entretenimento mesmo optando por soluções simplistas (nesse caso a diarista Mariana – participação de Mariana Nunes de A Febre do Rato -, que serve apenas para alterar a direção da história em dois momentos) e parcamente elaboradas. Nada muito além do razoável.

NOTA: 3/5








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