Mostra Internacional de Cinema SP 2014 | parte 5

28 10 2014

-> Encerramos com esse post a nossa cobertura especial da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Espero que tenham aproveitado essa jornada de 5 dias e 16 filmes aqui comentados!

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UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA (Suécia, Alemanha, Noruega, França, 2014) – Se passa num universo paralelo ao nosso povoado por pessoas excêntricas que não tem noção do quanto suas atitudes e seus comportamentos são estranhos. Essa é a única explicação plausível.

Em geral, cenas corriqueiras são retratadas aqui: vendedores e suas bugigangas, a dinâmica de do salão de atendimento de um restaurante ou lanchonete qualquer, os conflitos entre vizinhos de um condomínio… Todos representados por uma realeza igualmente estranha, que expulsa todas as mulheres de um estabelecimento para apenas tomar um copo d’água e marcha a guerra com uma tropa praticamente infinita. Tais pessoas chamam a atenção pela palidez, algo muito próximo do visto nos Observadores na finada série Fringe (mas com cabelos).

A maioria das sequências traz embutido um humor proposital (no roteiro) e involuntário (por parte dos personagens), que discutem banalidades como se fossem a verdade universal. O que ocorre até de forma elegante quando o que faz rir está ao fundo da ação principal, em segundo plano. Este filme com título de 9 palavras e 47 caracteres equilibra-se na tênue linha que separa filmes bons dos ruins. E poderia muito se estabelecer aí se não incluísse uma cena de muito mal gosto envolvendo escravos. A produção passaria muito bem sem essa, já que a dita sequência não acrescenta absolutamente nada à história.

NOTA: 2/5

DUAS IRMÃS, UMA PAIXÃO (Alemanha, Áustria, Suíça, 2014) – Um casamento forjado pelo interesse financeiro (e me diga qual casamento não o era em pleno século XVIII?) impede a concretização de um amor verdadeiro entre o escritor em origem de carreira Friedrich Schiller e a aristocrata Charlotte. Como o próprio título deixa bem claro, isso não é tudo. Schiller também se apaixona pela outra irmã, Caroline, que também é correspondido e os três estão cientes disso.

Não precisa se prolongar muito para imaginar que caminhos a história irá percorrer, certo? Não é o que acha o diretor alemão Dominik Graf que cria um novo conceito de ‘prolongamento’ de filmes. Duas Irmãs, Uma Paixão aponta sua câmera para todas as direções possíveis e (in)imagináveis, mas não no aspecto técnico e sim narrativo. Desnecessariamente. O que ele consegue com isso é criar uma história burocrática, cansativa e desinteressante com as incontáveis idas e vindas de seus personagens.

Se o filme focasse toda a sua atenção para o quê realmente importa, o longa-metragem poderia até ser um curta. Quando a história realmente acontece, o espectador já não tem mais paciência para poder ser interessar pela conclusão. Tudo o que ele mais quer na vida é que o funcionário entre logo na sala de cinema e abra a porta de saída de emergência para anunciar o fim dessa tortura.

NOTA: 1/5

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Mostra Internacional de Cinema SP 2014 | parte 2

25 10 2014

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O CÍRCULO (Suíça, 2014) – Às sombras do nazismo e sua repreensão sexual, um grupo de homossexuais consegue manter por mais de 25 anos um grupo fechado em Zurique, na Suíça, onde pudessem reunir-se naturalmente sem serem desrespeitados. Além de servir como ponto de apoio aos gays, O Círculo também possuía como principal atividade a manutenção de uma publicação homoerótica voltada para os membros (cujos endereços cadastrados eram requisitados pela polícia a todo o momento) e organização de um baile anual gay.

Entre seus membros estavam Ernst Ostertag, professor de uma escola para meninas e filho de pais extremamente conservadores e o cabeleireiro e drag queen Röbi Rapp, que tinha uma ótima aceitação por parte de sua mãe. O relacionamento entre os dois sobreviveu ao fim de O Círculo e do nazismo, ao mesmo tempo em que a união incentivou a criação de um novo grupo: Club 68.

A inclusão dos depoimentos dos verdadeiros personagens que inspiraram o longa o enriquece bastante, tendo o espectador uma mescla entre ficção baseada em fatos reais e documentário, o que também abrange a utilização de fotografias reais da época em P&B ou de fotos dos próprios Ernst Ostertag e Röbi Rapp com seus respectivos atores.

Quanto a dura realidade que enfrentaram nas décadas de 50 e 60, pouca se altera ao que é visto em pleno século XXI, principalmente no que se refere à Ernst que só veio assumir a sua condição após a morte de sua mãe, assim como os dois realizaram o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo da Suíça em 2003.

NOTA: 4/5

PAIXÃO MÓRBIDA (Japão, 1964) – Cores primárias vivas iluminam rostos de mulheres japonesas. Naquele beco escuro iluminado apenas pelas luzes de propagandas, elas esperam pelo próximo cliente, estáticas num canto qualquer. A inocente Yoshie de 19 anos caiu no mundo da prostituição meio que pelo acaso após conhecer Eiji num bar onde ela fazia o turno da noite.

A violência do homem a forçava a se prostituir para ajuda-lo a pagar uma dívida de jogos com a Yakuza. O amor que criava nela uma fidelidade irracional por Eiji (apesar de toda a estupidez dele) mais a truculência na forma de agir e cobrar da máfia japonesa impedia que ela pudesse abandonar essa sobrevivência humilhante. Nem mesmo com o surgimento de Fujii, um arquiteto bem sucedido e um cliente recorrente em busca de seus serviços sexuais disposto a quase tudo para tirá-la daquele beco.

A indecisão entre o desejo de uma nova vida próspera que tanto almejou e o sentimento de traição com um possível abandono de Eiji à sua própria sorte não é uma decisão fácil para Yoshie, um dilema que se repete várias vezes. Nem mesmo uma terceira escolha possível apresentada pelo desfecho demonstra alguma possibilidade de felicidade.

NOTA: 2/5

AS PONTES DE SARAJEVO (França, Bósnia, Suíça, Itália, Alemanha, Portugal, Bulgária) – Sarajevo, capital da atual Bósnia, foi o palco do gatilho inicial da Primeira Grande Guerra, conflito mundial cujo início completou 100 anos recentemente e que matou mais 19 milhões de pessoas.

Para realizar uma homenagem não oficial desta data, As Pontes de Sarajevo é constituído por treze recortes relacionados à cidade, direta ou indiretamente, a partir da visão de diretores diferentes. Exatamente por isso, os protagonistas desses microfilmes são tão diversos entre si: os militares são a grande maioria; a observação do cotidiano de Sarajevo sobreposta por imagens de homens armados possivelmente mortos; a discussão de um casal de certa idade sobre a Europa como um todo a partir da leitura de um livro ou narrações em primeira pessoa.

No entanto, a angústia e a tristeza são uma constante em todas as visões apresentadas. Mesmo nos dois últimos trechos que utilizam mais o humor em sua narração. Um belo apanhado de imagens a se contemplar.

NOTA: 4/5

A MOÇA, A BABÁ, O NETO BASTARDO E EMMA SUÁREZ (Espanha, 2014)– O filme espanhol de título quilométrico justifica o motivo de seu nome, já que cada personagem ali citado ganha a sua importância e possui o seu arco dramático, sendo todos protagonistas, exceto Emma Suárez, cuja citação funciona apenas como homenagem (e uma pequena participação) à atriz espanhola de extenso currículo.

A “moça” Júlia possui um bebê de menos de 1 ano de idade fruto de um estupro. Como trabalha todo o dia fora, ela tem confiança em Carol, a “babá”, uma jovem atriz em início de carreira que ainda enfrenta problemas de autoestima para se entregar por inteira em cima dos palcos. Com o nascimento do neto, a avó começa a visitar a filha com mais frequência. Uma aproximação que incomoda e muito Júlia, pois foi a justamente a ‘ausência’ da mãe que causou tantas mágoas ainda não superadas.

O filme espanhol funciona muito bem como uma contemplação dessas personagens e as suas respectivas buscas por uma resolução para os seus problemas. Mesmo quando não há uma. Em certos momentos, isso ocorre embrulhado por um silêncio absoluto. Também impressiona a forma que a produção atinge seus ápices dramáticos (sempre envolvendo mãe e filha) que ocorre de forma rápida e pungente.

NOTA: 4/5

AS NOITES BRANCAS DO CARTEIRO (Rússia, 2014) – A profissão de Lyokha proporciona um contato direto e diário com seus vizinhos, todos habitando às margens de um lago, ao norte da Rússia, que os separam do restante do mundo.

Em sua rotina, o carteiro atravessa esse lago constantemente em busca das correspondências e de outros produtos que alguém daqui venha precisar. Além de um mero entregador de cartas, esse senhor torna-se um grande amigo para todos aqueles que visita, principalmente com uma de suas ex-colegas de escola (sua eterna antiga paixão) e seu filho.

A partir do momento em que o motor de seu barco é furtado, Lyokha estreita ainda mais a sua relação com o garoto, numa das raras ocasiões em que algo se altera nessa distante comunidade. O carteiro ainda terá que enfrentar outra mudança mais significativa (ao menos para ele) por ali, quando então tudo continuará no mesmo ritmo. E este filme russo consegue retratar tais passagens sem se tornar entendiante.

NOTA: 3/5





A Rede pelo Twitter #8: Dona Lúcia

10 07 2014

Chegou a hora de resgatarmos mais um clássico do Universo E!, A Rede pelo Twitter, para celebrarmos a Copa das Copas, quando o Mundial da FIFA desembarcou em nosso país pela segunda vez. Uma competição que será lembrada pelos jogos aqui disputados, mas também será eternamente marcada pelo chocolate alemão que levamos na semifinal ao sermos goleados por 7×1.

E é exatamente após essa derrota que a edição nº 8 de A Rede pelo Twitter começa quando ele…

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…lê a carta dessa simpática senhora:

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A DONA LÚCIA!!!

Pela imagem anterior, essa informação procede:

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Pela tamanha compreensão de Dona Lúcia com a nossa querida e amada seleção brasileira, nada mais justo…

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Tem que ser uma pessoa muito boa MESMO para pensar assim depois de 7×1.

Será?

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Tem quem ache que sim…

 

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A zueira never ends e a bondade de Dona Lúcia também não…

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Mas meu caro. Dona Lúcia é uma pessoa muito moderna. Quem disse que ela escreveu uma carta? Ela digitou sua linda mensagem para a nossa seleção e a enviou via e-mail para CBF. Tudo muito simples, rápido e fácil.

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Já expliquei isso acima senhor.

Mas como tudo na internet, Dona Lúcia já virou desculpa para tudo:

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Mesmo aposentada, Dona Lúcia já é alvo de investimentos da CBF

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Confesso que com essas palavras sábias de Dona Lúcia também me sinto bem melhor agora. Os 7×1 nem doem mais.

Mas muitos duvidam das qualidades profissionais dela, coisa que a própria Dona Lúcia admite. Uma senhora honesta:

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Mais respeito com a Dona Lúcia gente!!!

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Ahn… não rebaixa a Dona Lúcia a esse nível! Não gostei. Sério! Vou embora pra casa da Dona Lúcia que preparou, carinhosamente, alguns bolinhos de chuva. Tchau!

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Vai ter Copa sim! (E nos cinemas ainda)

6 06 2014

Ah, você fanático por futebol, mas igualmente alucinado por cinema, achou que ia ficar distante das salas escuras e suas telonas durante a realização da Copa do Mundo aqui no Brasil, não é mesmo?

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Pois saiba que você está redondamente (perdão pelo trocadilho) enganado. O site Ingresso.com, a Cinelive (empresa pioneira na distribuição de conteúdo digital via satélite para os cinemas), juntamente com as redes de cinema Cinemark, Kinoplex, UCI, Cinépolis, Moviecom e GNC serão responsáveis por trazer as emoções das partidas da Copa para dentro dos cinemas de todo o Brasil.

E o melhor: o foco das transmissões não se limitará apenas aos jogos da seleção brasileira. Para a cidade de Campinas, por exemplo, já está disponível a venda de ingressos para os jogos do Brasil contra Croácia (quinta, dia 12) e contra o México (terça, dia 17), mas também há opções de compra para os confrontos:

– Espanha x Holanda (sexta, dia 13);

– Inglaterra x Itália (sábado, dia 14) e

– Alemanha x Portugal (segunda, dia 16)

As capitais como São Paulo e Rio de Janeiro oferecem mais opções. No momento em que este post é escrito, ambas as cidades tinham 9 jogos habilitados para compra de ingressos. Então, para maiores informações sobre preços e outros jogos disponíveis na sua cidade consulte o hotsite do Ingresso.com para a Copa e divirta-se!





ANÁLISE: Praia do Futuro

22 05 2014

Cabo Donato (Wagner Moura, Elysium e Tropa de Elite 1 e 2) trabalha como salva-vidas nas praias de Fortaleza até que, um dia, perde sua primeira vítima (um estrangeiro) para o mar. Tal fatalidade o aproxima do alemão Konrad (Clemens Schick, Círculo de Fogo [2001] e 007: Cassino Royale), amigo que viajava junto com o turista agora falecido.

Os dez dias de buscas que sucedem o ocorrido é o suficiente para a construção do relacionamento entre os dois homens. Uma construção rápida e brusca demais, já que uma simples carona já desencadeia a primeira transa entre os dois, mesmo logo após a fatalidade do afogamento. Por outro lado, a próxima cena traz o personagem de Wagner Moura observando as tatuagens do corpo do companheiro através da luz tênue do celular, suavizando o choque de transição entre os dois momentos. Enquanto isso, o diretor Karim Ainouz (diretor de O Céu de Suely e Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo)  utiliza do mesmo período para esmiuçar o relacionamento muito próximo que Donato possuía com seu irmão Ayrton (interpretado na infância pelo novato  Savio Ygor Ramos), abordando os momentos de descontração entre os dois.

Adotando uma questionável divisão em capítulos – que interfere levemente no ritmo e fluidez da história -, Praia do Futuro chega em um momento importante e decisivo para Donato: o retorno de Konrad para a Alemanha. Uma paixão que floresceu a partir de um infortúnio agora enfrenta novos desafios: abandonar ou não a família em Fortaleza? Seguir ou não o novo amor de sua vida, rumo à Europa? A resposta para essas duas questões vem no segundo ato elencado pelo roteiro, uma co-autoria de Karim com Felipe Bragança (que também assina o roteiro de Heleno e do documentário Girimunho). Primeiro, com as imagens de uma Berlim gélida e segundo, pela expressão contida de satisfação de Donato ao caminhar pelas ruelas da capital alemã numa atividade extremamente banal, corriqueira.

O que mais chama atenção no relacionamento entre os dois e que se intensificou ainda mais com a ida do brasileiro à Alemanha é a cumplicidade existente entre Konrad e Donato, méritos totais da atuação de seus respectivos atores Clemens Schick e Wagner Moura. Algo que nem a diferença de idiomas ou de cidades foi capaz de prejudicar, muito menos as mudanças de temperamento ou as discussões inerentes a qualquer namoro, seja ele homossexual ou não. Essa qualidade permite que tanto um quanto o outro se expressem muito sem dizer nada. Uma simples expressão, uma única troca de olhares é capaz de substituir uma sentença gramatical inteira. E o filme explora isso com muita eficiência, basta observar a escolha de locais vazios e silenciosos em que os dois discutem (um dia chuvoso em um parque, um almoço na cozinha ou um telhado), só existem eles ali e nada mais ou como Wagner Moura demonstra uma saudade do calor brasileiro ao parar por poucos segundos diante de frios raios solares berlinenses ao deixar determinado prédio.

Vale a pena destacar também outra cena que marca a desnecessidade que uma palavra seja dita, quando Donato resolve não desembarcar do metrô que o levaria para o aeroporto e daí de volta para o Brasil. Konrad só percebe a decisão quando o companheiro permanece imóvel e calado no banco. Uma decisão que assinala sua permanência definitiva no país europeu.

Se até aqui nada disso estava planejado para Donato, Ayrton, no Brasil, já tinha algo bem claro em mente: reencontrar o seu irmão. Uma determinação que ele coloca em prática muitos anos depois. Com a cara e coragem, Ayrton – agora mais velho e vivido por Jesuíta Barbosa (de Tatuagem e Serra Pelada) – chega a Berlim a procura de Donato, sabendo o básico da língua alemã e carregando consigo todo o ressentimento causado pela ‘fuga’ do irmão velho anos atrás. A raiva demonstrada no reencontro deles e o conhecimento exato do ano, meses e dias que se passaram desde a morte da mãe deles são a prova disso.

Revisitando e relembrando traumas de infância do caçula, Donato realiza seu desejo de mostrar ao irmão uma praia na cidade onde a maré recua para que Ayrton possa, assim, ‘entrar’ no mar sem temer a água e contando com o auxílio (leia-se reaproximação) de Konrad para amenizar a relação entre os ditos Aquaman e Speedracer – codinomes de uma brincadeira fraterna -, nada mais são do que alternativas para que Donato consiga, enfim, sentir-se realizado em Berlim, recompensando os erros cometidos no passado. O futuro? Será incerto, tal qual a neblina da cena final que esconde o prolongamento da autoestrada numa curva qualquer.

NOTA: 4/5





ANÁLISE: Vidas ao Vento

20 03 2014

Realmente é uma pena que pessoas tão talentosas optem precocemente (na minha visão pelo menos) pela aposentadoria, em busca do merecido repouso. Conferir o último trabalho do mestre japonês de animações Hayao Miyazaki, Vidas ao Vento, só faz aumentar ainda mais o saudosismo que teremos do fundador do Studio Ghibli, que nos trouxe obras como A Viagem de Chihiro (vencedor do Oscar de melhor animação em 2003 e do Urso de Ouro do Festival de Berlim), Ponyo – Uma Amizade que veio do Mar e O Castelo Animado. Talento incomum que ainda faz da animação tradicional algo extremamente poético e encantador.  A intimidade desse cineasta com os traços a lápis cria a cada frame (não só nesse, mas em seus trabalhos anteriores também) uma imagem digna de ser emoldurada e eternizada na parede. Em Vidas ao Vento isso já é perceptível logo nas cenas iniciais, quando as luzes do sol ao amanhecer banham a paisagem bucólica de um vilarejo japonês.

Acompanhamos assim a história real da trajetória de Jiro Horikoshi, um menino apaixonado pela aviação. Manifestando-se já na infância, a miopia afastou esse pequeno sonhador de se tornar piloto profissional. Para não se afastar da área de atuação que tanto desejava, Jiro concentra todos os seus esforços para aquilo que sua visão lhe permite praticar: a construção de aviões. Uma obsessão que, nem o inglês das publicações voltadas para o assunto naqueles anos e nem a constante implicância de sua irmã caçula, conseguem atrapalha-lo.

A grande inspiração de sua vida na época, em meados da década de 1920, vinha da Itália e atendia pelo nome de senhor Giovanni Batista Caproni, o mestre em construção de aviões naquele tempo. Essa positiva influência é inserida na narrativa através dos sonhos de ambos, assumindo-se que aqueles que desejavam construir o “mais belo e perfeito avião” compartilhavam não só o mesmo objetivo, como também a área criativa em seu inconsciente. Desta forma, mesmo baseando-se em fatos reais que envolvem dois episódios tristes da Humanidade (as duas grandes guerras mundiais), Hayao Miyazaki permite-se construir aquilo que melhor sabe fazer: o fantástico. Tudo em meio a cálculos saindo da ponta do lápis e com a imaginação funcionando como o único simulador possível.

Até ver seu sonho concretizado, os problemas foram inúmeros. Assumindo o perfil característico do japonês com suas virtudes – inteligência, obstinação, honradez – o menino e agora homem, Jiro, exercita seus traços heroicos em alguns acontecimentos chaves da narrativa. Num desses trágicos momentos, ele encontra aquela que viria a ser o amor da sua vida, Naoko Satomi, quando um forte terremoto causa o descarrilamento do trem em que viajavam rumo a Tóquio. Jiro exerce continuamente o seu papel de salvador sem exigir nada em troca, muito menos reconhecimento. Mas a relação Jiro-Naoko só viria a ser concretizada anos a frente.

A genialidade de Jiro permanece mesmo dependendo  da precariedade da indústria japonesa no período: os aviões, por exemplo, eram puxados por vacas até a área de decolagem para testes. Muito diferente do que era desenvolvido pela Alemanha. Diferente de seus companheiros, Jiro era um curioso nato. Qualquer equipamento funcional merecia sua atenção, mesmo que aparentemente não tivesse relação alguma com a aviação. Até um simples pedaço de papel servia de inspiração para ele. Ao contrário de seus colegas engenheiros, Jiro frequentemente visitava as oficinas de montagem da Mitsubishi (empresa que trabalhava) demonstrando a sua humildade com os operários de lá e conquistando a admiração destes.

Se para atingir o sucesso profissional era preciso percorrer um caminho árduo, no campo afetivo as coisas também não foram assim tão fáceis. O namoro e o casamento com Naoko, cuja história se iniciou e se consolidou com um chapéu ao vento, só reservaria mais preocupações para Jiro. Assim como a mãe dela, sua amada sofria de tuberculose, que com o passar dos anos só vinha agravando o estado de saúde da jovem. Vidas ao Vento estabelece em seu decorrer essa relação dúbia na vida de Jiro: a busca pelo avião perfeito percorria uma linha ascendente, enquanto suas preocupações em relação a Naoko só aumentava.

Exatamente com essas dualidades que Vidas ao Vento nos conquista: tanto como estrutura, alternando entre o mundo real e o mundo dos sonhos – onde Miyazaki permite-se explorar o aspecto fantasioso inerente às suas animações, – quanto na trajetória pessoal de Jiro que experimenta duas sensações tão opostas quase que simultaneamente. Tentar compreender e sentir a satisfação de Jiro ao ver seu trabalho concluído e a tristeza e a dor que este sente com a partida de Naoko deixa qualquer coração despedaçado. Uma angústia em dobro proporcionada pela história e pela despedida de seu diretor, misturada com a alegria de poder conferir mais uma bela obra de Hayao Miyazaki. Os nossos sentimentos como espectador também são contraditórios!

NOTA: 5/5





Um pedacinho da Mostra de São Paulo em Campinas

23 11 2013

A 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo realizada entre os dias 18 e 31 de outubro na capital paulista e que recebeu em sua programação cerca de 350 títulos, agora realiza a sua tradicional Itinerância pelas cidades do litoral e interior de São Paulo. E a partir do próximo dia 26 até domingo, 1º de dezembro, será a vez de Campinas receber um pedacinho do que foi exibido em São Paulo em uma ação conjunta na cidade entre o SESC e o Topázio Cinemas, uma parceria que ocorre pelo 3º ano consecutivo.

A abertura da Itinerância da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em Campinas ocorre na sede do SESC SP da cidade as 19h30 com a sessão gratuita do filme holândes A Montanha de Matterhorn na terça. De quarta a domingo, a programação continua no complexo do Topázio Cinemas no Shopping Prado.

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Confira a programação completa a seguir e os respectivos endereços:

SESC/SP Campinas – Rua Dom José I, 270/333, Bairro Bonfim (entrada gratuita)

  • 26/11 — 19h30: A Montanha Matterhorn (Holanda)

Topázio Cinemas (Shopping Prado) – Avenida Washington Luís, 2480, Vila Marieta — Ingressos: R$ 3,00 (p/ associados SESC) — R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia)

  • 27/11 — 19h00: Jackie (Holanda / EUA)
  • 27/11 — 21h00: Bwakaw (Filipinas)
  • 28/11 — 19h00: La Jaula de Oro (México)
  • 28/11 — 21h00: Cães Errantes (Taiwan / França)
  • 29/11 — 19h00: Centro Histórico (Portugal)
  • 29/11 — 21h00: Meteora (Alemanha / Grécia)
  • 30/11 — 19h00: Run & Jump (Irlanda / Alemanha)
  • 30/11 — 21h00: Dark Blood (EUA / Reino Unido / Holanda)
  • 01/12 — 19h00: Marina (Bélgica / Itália)




As músicas que embalam Jogos Vorazes: Em Chamas

3 11 2013

Em novembro temos a estreia de um dos filmes mais aguardados de 2013. E assim como ocorreu com Rush – No Limite da Emoção, Jogos Vorazes: Em Chamas tem a sua estreia mundial nos cinemas brasileiros no dia 15 de novembro.

Se a ansiedade já é grande para conferir a continuação da história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson) após o primeiro Jogos Vorazes de 2012, a produção do segundo longa baseado na história escrita por Suzanne Collins, reserva um novo e bom motivo para elevar a expectativa dos fãs ansiosos: sua trilha sonora.

Há muito tempo um filme não reunia tantos nomes de relevância mundial no cenário da música em único disco. Para começar basta vermos a música tema de Jogos Vorazes: Em Chamas que ficou a cargo de ninguém menos que a banda Coldplay: Atlas, que possui um clipe esteticamente lindo!

Além da banda que possui mais de 581 milhões de visualizações no YouTube, a trilha de Em Chamas ainda reserva espaço para The Lumineers, Sia (ft. Weeknd & Diplo), Christina Aguilera, Mikky Ekko entre outros. Confira as principais canções em vídeos no final desse post.

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Procurando se aproximar ainda mais dos mercados onde o filme será lançado, a Lionsgate juntamente com a gravadora Republic Records, adicionou canções específicas na trilha sonora para cada país. Assim, teremos uma faixa alemã exclusiva para a Alemanha e Áustria; uma faixa espanhola apenas para o público hispânico e aqui no Brasil é da banda CPM 22 a canção ’13’ que fará parte da trilha sonora voltada exclusivamente para o público brasileiro.

O mais importante dessa ‘personalização’ é que todas as músicas específicas estarão presentes durante os créditos finais, cada qual em seu país.

Confira agora os principais destaques da trilha sonora de Jogos Vorazes: Em Chamas!

1) The Lumineers – Gale Song:

2) Sia (ft. Weeknd & Diplo) – Elastic Heart:

3) Christina Aguilera- We Remain:

4) CPM 22 – 13:

 

 





ANÁLISE: O Prisioneiro da Grade de Ferro

14 08 2013

No Brasil há aproximadamente 250.000 detentos distribuídos em poucos mais de 1.000 unidades prisionais. Mais da metade desses números citados encontram-se no estado de São Paulo. E não há melhor de se documentar esse mundo (embora também o podemos chamar de submundo) brasileiro do que aquele que foi o maior presídio da América Latina: o Carandiru.

O grande trunfo do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro não está em seus dados e números apresentados, mas sim em obter as informações numa visão singular e mais verdadeira, mais crua possível, um auto-retrato como o próprio subtítulo que os criadores intitulam sua produção: a visão dos presos. Foram eles com a câmera em mão que filmaram o cotidiano dos noves pavilhões da Casa de Detenção de São Paulo, o nome oficial do Carandiru, durante os setes meses que antecederam a sua desativação em 2002 e, portanto, dez anos após o emblemático episódio do Massacre do Carandiru.

Toda a responsabilidade de gravação e obtenção das imagens está nas mãos dos próprios reeducandos. Reeducandos é a forma que a palestra inicial para novos detentos nos ensina a chamá-los. Dessa forma é muito rica o nosso contato com um mundo completamente alheio ao que vivemos. Um mundo que ocorre atrás das grades e dos muros.

Prisioneiro, prontuário e o código do delito. É assim, como se fosse uma propaganda partidária política, que o documentário se inicia e poucos minutos de exibição são o suficientes para se notar que o ensino ou preparo para a reinserção na sociedade daqueles que ali se encontram atem-se apenas ao nome dados à eles. Qualquer outra tentativa de ocupação, trabalho e educação existente é absolutamente míngua e infelizmente não vinga. Ou não vingava. Foi o caso, por exemplo, da academia para os presos, extinta por falta de apoio da administração carcerária; o local destinado a escola era abominável e a biblioteca estava em más condições. As outras atividades que possibilitavam a remissão da pena através da mão-de-obra dos presos eram realizadas em ambientes precários sem maquinagem ou condições adequadas. Mesmo assim, muitos deles conseguiam executar, heroicamente, os seus serviços e com habilidade e criatividade eram produzidas ali bolas, pipas e outras peças artesanais. Entre todos os trabalhos se destacava as pinturas: nos quadros, a projeção da vida fora da cadeia e da idealização de momentos que o crime lhes tiraram; com o grafite expunham os seus pensamentos e ideologias e na pichação a sua indignação.

Claro que não se deve esquecer todos os delitos praticados na sociedade que motivaram a sua ida para a cadeia, mas sem nenhum incentivo e até mesmo esforço para que essas pessoas ocupassem suas mentes durante o cumprimento de suas penas só alimentava ainda mais o desgosto, a raiva e a indignação dos detentos para com o ‘sistema governamental’. Unindo-se ao tratamento desumano que recebiam (muitas doenças que eles adquiriam sequer eram tratadas), nada mais natural e elementar a velha máxima de que os presos saíam pior do quando entraram.

Fazendo jus a autodenominação de auto-retrato, o documentário apresenta com uma riqueza de detalhes todo o cotidiano e todos os nuances que mantinham o Carandiru em funcionamento: os maços de cigarro como a moeda oficial do presídio, comprando uma ampla gama de mercadorias, inclusive a maconha, o crack e a pinga produzidos por eles mesmos, cuja clandestinidade lhes garantiam um valor a peso de ouro; nos momentos de lazer prevaleciam o funk, o hip-hop, o samba e o pagode, além das partidas de futebol; a Alemanha, África do Sul, Congo, Nigéria e Argentina eram alguns dos países que possuíam presos ali; as cartas eram uma constante, um importante elo de comunicação com os familiares. Além da escrita, outro contato com o mundo exterior também foi abordado, a famosa e problemática ‘saidinha’ em dias festivos, atentando-se apenas aos raríssimos casos de retorno no prazo previsto; o trabalho coletivo de lavagem dos pavilhões antes do dia de visitação, quando o pátio externo era tomado por mães, esposas, filhos de detentos na maioria das vezes. Em outros casos, a visita era um simples conhecido, parceiro.

Outro assunto recorrente nesse meio é a espiritualidade dos detentos com adeptos de todos os credos, com destaque para os evangélicos e suas diversas vertentes, os católicos (com a Pastoral Carcerária), os espíritas, como também os praticantes do candomblé, da macumba e do satanismo. Uma ala em separado, denominada ‘Rua das Flores’, era destinada aos presos homossexuais, cujo alguns integrantes chegavam a realizar programa dentro da própria cadeia. Para os mais rebeldes, qualquer tipo de ferro era o suficiente para se confeccionar uma faca, prontos para matar ou morrer.

Após conferir tantas imagens chocantes é até um certo alívio saber que este local não existe mais. Pelo menos tudo o que foi mostrado não ocorre mais no Carandiru, já que tais mazelas podem e devem, infelizmente, perpetuar em outras cadeias Brasil afora. Não há mais aquelas ‘celas de castigo’ no Carandiru, onde presos que desrespeitaram as normas internas são amontoados, separados dos demais; não há mais o pátio externo do Carandiru infestado de ratos durante a noite; não há mais O Carandiru. Sua desativação mostra-se acertada ao vermos o claro descontentamento no depoimento daqueles que foram diretamente responsáveis por sua administração, no caso os ex-diretores e os ex-secretários de segurança pública do estado de São Paulo. Várias declarações e uma acusação em comum: a falta de investimento e de interesse do Estado em transformaram a Casa de Detenção de São Paulo nesse ambiente exaustivamente documentado. Uma falta de agir política causadora não só da degradação do Carandiru, mas a grande responsável também de todos os problemas de ordem pública enfrentados pelo Brasil atualmente.

NOTA: 5/5

“Esta crítica é parte integrante da mostra “Cine Doc” realizada durante o mês de agosto no Instituto CPFL | Cultura em Campinas”





‘Senna’ ganha prêmio em Los Angeles

3 07 2011

O documentário Senna dirigido pelo inglês Asif Kapadia que narra a trajetória do piloto brasileiro de Fórmula 1, Ayrton Senna, de sua ascensão nas pistas, passando pela conquista do tricampeonato até a sua trágica morte no GP de Ímola em 1994, ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro, no domingo passado (dia 26/06) pelo júri popular no Festival de Cinema de Los Angeles.

O mesmo longa já conquistara, no início do ano, o prêmio de melhor documentário, também pelo júri popular do Festival Sundance.

De acordo com a editoria de cinema do portal Terra, o documentário vem sendo lançado comercialmente nos países presentes no circuito mundial de Fórmula 1: caso de Alemanha, Espanha, França, Itália, Japão, Turquia, além é claro, do Brasil. Por aqui, o documentário pode ser encontrado disponível em DVD e blu-ray para venda ou locação.








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