ANÁLISE: Alemão

1 04 2014

Para que o governo do estado do Rio de Janeiro implementasse o seu programa de pacificação das comunidades carentes dos morros cariocas era preciso um levantamento detalhado da movimentação e da organização dos traficantes nesses locais. Daí a necessidade de policiais disfarçados nesses locais para obtenção de informações e assim instalar as famosas UPP’s, as Unidades de Polícia Pacificadora.

Alemão, longa de José Eduardo Belmonte (Se Nada mais der Certo e Billi Pig), concentra-se nesses policiais infiltrados a partir do momento em que fichas com seus nomes acabam caindo nas mãos dos traficantes que o reconhecem de imediato. Referindo-se ao bairro onde a história se passa, percebemos o quão abrangente o título se torna quando toda a ação ocorre praticamente num único e diminuto local do Morro do Alemão, uma pizzaria, justamente onde os cinco policiais à paisana encontram-se acuados sem poderem sair da comunidade devido ao pente-fino que os traficantes realizam nos becos e ruelas da favela.

Vividos por Caio Blat (de Xingu e na recente estreia de Entre Nós), Gabriel Braga Nunes (O Homem do Futuro e Anita e Garibaldi) , Milhem Cortaz (Tropa de Elite 1 e 2 e Assalto ao Banco Central), Otávio Muller (Reis e Ratos e Giovanni Improtta) e pelo novato Marcello Melo Júnior, os policiais infiltrados Samuel, Danilo, Branco, Doca e Carlinhos, respectivamente, são o que a narrativa tem de mais forte em tela. Não só pelo perigo iminente que correm de serem encontrados a qualquer momento pelos traficantes, mas também pela forte desconfiança que um tem do outro em relação à responsabilidade de estarem nessa situação, ou seja, que um deles tenha dedurado o verdadeiro papel deles ali. Obtêm-se assim duas formas eficientes de tensão.

O problema de Alemão ocorre quando o enfoque da história não está nesses cinco protagonistas. O maior deles atende pelo nome de Cauã Reymond (À Deriva e Estamos Juntos) que comanda o tráfico na comunidade com a alcunha de Playboy. O ator em momento algum oferece uma intensidade dramática ao seu personagem que parece muito mais um mauricinho de classe média do que um comandante marginal e impiedoso. Com um fraquíssimo vilão, todo o temor e apreensão que deveria vir do personagem se esvai e o longa acaba se perdendo na dualidade entre o bem e o mal, essencial para qualquer boa história. Se a intenção de Cauã era se desvencilhar da figura de ‘bom-moço’ – intenção que revelou em entrevistas sobre a sua escolha de personagens -, não obteve sucesso algum. A atuação dele torna-se ainda mais apagada quando o roteiro de Leonardo Levis (O Concurso) e Gabriel Martins trata de excluí-lo da tomada de decisão no momento crucial do filme.

O pequeno núcleo policial na delegacia envolvendo a participação de Antônio Fagundes (Deus é Brasileiro e Quando eu Era Vivo) como o delegado Valadares e pai do personagem de Caio Blat também pouco acrescenta à trama, além de ocupar minutos preciosos de projeção que seriam melhor aproveitáveis se fossem destinados aos policiais encurralados na favela. Vale destacar também a participação pavorosa e completamente descartável de um policial enviado à comunidade para obter informações de seus companheiros e é infantilmente capturado pelos traficantes.

Com louváveis acertos (como manter os protagonistas como sombras na maior parte do tempo no cenário, realçando o quanto estes não pertencem ao local em que se encontram), os atores principais propriamente ditos, mas também com muitos erros, Alemão oferece um bom momento de entretenimento mesmo optando por soluções simplistas (nesse caso a diarista Mariana – participação de Mariana Nunes de A Febre do Rato -, que serve apenas para alterar a direção da história em dois momentos) e parcamente elaboradas. Nada muito além do razoável.

NOTA: 3/5

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Abril: os festivais

25 03 2014

Finalmente podemos declarar que o ano de 2014 começou. Como todo bom cinéfilo, o ano só se inicia depois da cerimônia do Oscar, que nesse ano premiou Gravidade e 12 Anos de Escravidão. Depois de uma intensa maratona para conferir todos os indicados e comentá-los aqui no Universo E!, na medida do possível, veio as merecidas férias.

Um período de descanso que não necessariamente quer dizer que ficamos afastados do cinema. Ainda pude conferir a última animação de Hayao Miyazaki, Vidas ao Vento, que fez dobradinha com outra animação, dessa vez a brasileira: O Menino e o Mundo. O início de 2014, aliás, começou na base das sessões duplas, já que Alemão e Ninfomaníaca – Volume 2 foram vistos em seguida também no mesmo dia.

Passada a ressaca, março se encerra daqui a poucos dias e já podemos vislumbrar um abril recheado de atrações. Dois grandes festivais tradicionais aqui no Universo E! chegam no mês de Tiradentes e do dia da mentira: o festival internacional de documentários É Tudo Verdade e o Festival Varilux de Cinema Francês 2014.

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Amanhã publicaremos aqui a programação da edição de número 19 do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade e o que destacamos de mais importante na extensa programação do maior festival latino-americano destinado às produções não-ficcionais. E no fim de semana, chegará a vez dos principais lançamentos que ocorreram no berço cinematográfico nos últimos meses e desembarcam no Brasil no Festival Varilux. Aguardem!

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10 09 2012

O blog Universo E! tá muito tristinho! E você, caríssimo leitor, pode fazê-lo um pouco mais feliz!

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Simples.

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E para finalizar esse post, que mais parece os três pedidos ao gênio da garrafa mágica, pedimos a você que celebre conosco os três anos da análise de ‘A Onda‘, o filme alemão que continua batendo o recorde em acessos aqui no Universo E! Desde sua publicação em 7 de setembro de 2009, continua sendo, diariamente, uma das postagens mais lidas por aqui, raramente saindo dos Top Posts – ranking que você pode conferir na coluna a sua direita.

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ANÁLISE: Hanami – Cerejeiras em Flor

17 04 2010

Hanami conta a história de um casal bastante comum, com um relacionamento sólido, bem vivido e harmonioso. Juntos a um tempo considerável, Trudi e Rudi levam uma vida pacata e tranquila no interior da Alemanha.

Um dia, no entanto, Trudi descobre que seu marido possui uma doença terminal, restando poucos meses de vida. Então, ela é aconselhada pela equipe médica a realizar uma viagem, algo que fugisse da rotina do casal, cujo sugestão é acatada, mesmo com o mau humor característico (e ás vezes até divertido) de Rudi, que rejeita veementemente qualquer ‘aventura’ como esta.

Assim, eles decidem visitar seus filhos, todos já maiores de idade, em Berlim. Só que o que era para ser uma diversão, uma distração, acaba se tornando um grande incômodo para os filhos que com afazeres típicos de uma cidade grande, não dispõem de muito tempo para sairem com as visitas. E com a vida corriqueira, já não possuem nenhuma semelhança e nem mesmo saudades da vida pacata que provavelmente levavam com os pais e que estes ainda desfrutam.

Sentindo-se deslocada com essa situação, Rudi leva seu esposo para um lugar em que há anos não visitavam: a praia. E é na orla do mar Báltico que a história do filme ganha uma reviravolta… SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME, O TEXTO CONTINUA COM SPOILERS, QUE PODE O DESAGRADAR. CONTINUE A LER ESSE TEXTO APÓS CONFERIR HANAMI – CEREJEIRAS EM FLOR.

SE VOCÊ JÁ VIU… CONTINUE CONOSCO —> … e a reviravlta do filme baseia-se na morte repentina de Trudi, que pega seu marido totalmente despreparado. Ela era aquela esposa realizada em seu casamento, que zelava pelo bem-estar do marido, ajudando-o em todos os detalhes em casa – que aguardava a chegada dele após o trabalho e lhe preparava o jantar, o auxiliava a vestir a blusa e o chinelo ao entrar em casa, a arrumar a sua marmita para o dia seguinte… – e sempre com aquela expressão serena no rosto, encarando tudo isso não como uma obrigação, mas realizada com esses gestos e demonstrações de carinho, pois a convivência dela com esse homem era a felicidade plena que encontrara na vida.

E no sepultamento da esposa ao conversar com uma conhecida da família é que Trudi atenta-se para um fato, para um desejo de Rudi que ele até tinha um certo conhecimento, mas que sempre renegava: a paixão de Trudi pelo butô (dança típica japonesa), o seu sonho em conhecer o Japão e o monte Fuji.

Arrependido por não proporcionar esse momento para sua mulher, Rudi decide viajar até o Japão – onde mora o seu filho mais velho, e que por ironia do destino nunca fora visitado pelos pais embora o desejo de Trudi fosse justamente o contrário –, levando consigo tudo aquilo que mais recordava sua esposa em seu íntimo: jóias, manta, roupas… É com esses objetos que Rudi tenta mostrar um pouco de Tóquio. Para ele, esses objetos representariam a presença de Trudi junto com ele.

E começa então suas investidas, suas aventuras pelas ruas dessa grande metrópole asiática que reserva lugares únicos em seus domínios. O lugar que se mais destaca em todo o longa são claramente as praças repletas de cerejeiras em flor, cerejeiras floridas marcando um período de grande confraternização entre os japoneses.

Num bosque da cidade, Rudi passa a conhecer You, uma menina de rua, que pratica todos os dias, solitariamente, o butô. Uma grande amizade floresce entre os dois, principalmente quando ela transmite a esse senhor todo o significado da dança japonesa (talvez Rudi mesmo pudesse transmitir esses mesmos conhecimentos no passado) e um pouco dos costumes e tradições do Japão quando passam a andar juntos por Tóquio.

Assim, nada mais normal que a história desenvolva-se para o seu ato final com a visita dos dois ao Monte Fuji, o ‘tímido senhor japonês’, que passa grande parte do seu tempo envolto por fortes neblinas. E são elas que obrigam You e Rudi a passar vários dias numa pousada tipicamente japonesa em um vilarejo muito próximo ao Monte.

Quando no amanhecer o Monte Fuji decide se exibir, esplendorosamente diga-se de passagem, Rudi encontra sua redenção num ato emocionante e singelo. Hanami – Cerejeiras em Flor é um desses filmes impactantes, persistindo por muito tempo na memória do espectador. Possui uma fotografia límpida, que retrata o passar do tempo como um folhear de álbum fotográfico, enaltecendo por sua vez, os contrastes e as belezas pelas cidades onde a história se desenrola, mas atinge o seu ápice nas lindas locações no Japão. E possui uma trilha sonora baseada principalmente na musicalidade envolvente desse país. Um belo filme portanto.

COTAÇÃO: 5/5





ANÁLISE: A Fita Branca

15 02 2010

Estranhos acontecimentos aflingem um pequeno vilarejo alemão, alguns anos antes do início da 1ª Guerra Mundial: o acidente do médico local é o estopim da história. Voltando para sua casa, o seu cavalo acaba caindo após passar por um misterioso arame colocado na porteira de sua chácara. O ocorrido o leva a ficar meses internado devido aos ferimentos.

Quem colocou o arame naquele local? Ninguém sabe. Aliás, ele foi colocado e retirado do lugar sem ninguém notar. E o pior, ninguém percebe, ninguém testemunha vários outros acontecimentos durante a exibição do longa. Ou melhor, alguns deles até percebem, mas preferem se omitir diante de tal fato, para se beneficiarem de alguma ‘boa ação’, mesmo que venha acompanhada de muita humilhação depois.

A utilização da religião para repreender os ‘pecados’ defendidos pela Igreja é a ferramenta de um austero pai de família, e espécie de líder político local, para educar os seus diversos filhos, alguns deles na puberdade. E a fita branca que dá nome ao longa alemão, representa justamente isso: uma lembrança para suas crianças da pureza e da inocência e que elas jamais caiam na maldição do prazer carnal.

Se temos isso de um lado, temos o médico do início do filme, do outro, que sem o menor pudor, bolina sua filha mais velha, acobertado por sua governanta.

Tantas fraquezas e tantos atos bárbaros cometidos ao longo de A Fita Branca, que acaba sobrando até para o espectador: é uma grande tortura ter que ver o filme se arrastando do seu início ao seu fim. Péssimo, péssimo, péssimo!

Raramente o filme consegue exibir uma cena que consiga prender a atenção do espectador. Em certos momentos, só como exemplo, temos esse mesmo líder político local tendo que repreender seu filho mais velho: vemos a porta de um quarto; o filho sai de dentro do quarto e entra em outro cômodo; vemos a porta de um quarto; continuamos vendo a porta de um quarto; o filho sai do cômodo e vemos o que ele fora buscar: um chicote. O castigo estava próximo; ele, a passos lentos, sai do cômodo em que estava e caminha lentamente, lentamente mesmo, dessa porta para a porta do quarto (que já estávamos vendo anteriormente) que seu pai se encontra; o filho entra; vemos a porta de um quarto; e continuamos vendo essa porta de um quarto até ouvir o gritos do filho mais velho. Tudo isso assim mesmo, bem l-e-n-t-a-m-e-n-t-e.

Anteriormente, o pai decidira castigá-lo com dez chicotadas. Felizmente, somos poupados desse sofrimento. Não o da dor física, mas o de asssitir a tal cena, que é cortada quando ouvimos a quinta chicotada, tudo pelo ângulo da porta…

Pelo menos já se sai da sessão com uma boa idéia: um remédio para insônia. O nome? Fita Branca.

COTAÇÃO: 1/5





Conferindo A Fita Branca

15 02 2010

ATENÇÃO: POST PRÉ-PROGRAMADO

Continuando minha maratona pré-Oscar 2010, está começando agora a minha sessão de A Fita Branca. O longa alemão foi o grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado, levou o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e concorre, no próximo dia 06, ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Mais tarde, mais detalhes sobre a produção. Claro que também estou devendo a minha análise de Guerra ao Terror, mas procurarei eliminar essas pendências o mais rápido possível, ok?











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Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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