Breves & Curtas #12 | VI Paulínia Film Festival

3 08 2014

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CASA GRANDE [Brasil, 2014] – A família de Jean é muito bem estabelecida no Rio de Janeiro. A cena que abre o longa tem toda a atenção voltada para a mansão a que o título se refere e onde a família reside: com três pavimentos (todos muito bem iluminados), um espaçoso quintal equipado com externo ambiente, piscina e jacuzzi aquecida.

O jovem protagonista desfruta de todo o conforto proporcionado pelo pai. Vai ao Colégio São Bento (privado) com motorista particular, tem disponível uma generosa mesada para as baladas de fim de semana. Apesar do status social, o personagem (muito bem representado por Thales Cavalcanti) não demonstra a arrogância que muitos com a mesma realidade possuem. Um comportamento que se estende à toda família. Basta observar o amistoso relacionamento que todos possuem com os funcionários da casa.

Mas o futuro que reluz ao horizonte não parece ser promissor para eles. Algo que não está claro e nem evidente num primeiro momento, mas que vai se percebendo aos poucos. O responsável pelo disfarce é o pai, vivido por Marcello Novaes (vencedor do Menina de Ouro de melhor ator coadjuvante), que teima em esconder a crise da família e do espectador. Mas somos os primeiros a descobrir quando o mesmo anuncia, entusiasmado, seus investimentos na OGX – a famosa empresa de Eike Batista -, cujo fim todos nós já sabemos.

Um filme sobre derrocadas familiares? Sim. Mas seria injusto e superficial classifica-lo apenas desse modo. Casa Grande também é, à sua maneira, sobre a adolescência e seus problemas, representada aqui não só pelo protagonista, mas também por sua irmã.

Impressionante observar a naturalidade com que as situações são abordadas em Casa Grande a partir de seus dois principais tópicos: a crise financeira da família e a passagem pela adolescência e a maturidade de Jean. A violência no Rio, a descoberta do sexo e do primeiro amor, o convívio com os amigos, a pressão feita às vésperas do vestibular, as discussões com os pais super protetores e o esforço destes em contornar toda essa atuação sem atingir, diretamente, os filhos.

Além de melhor ator coadjuvante, Casa Grande ainda recebeu dois Menina de Ouro no VI Paulínia Film Festival: o de melhor atriz coadjuvante para Clarissa Pinheiro e o de melhor roteiro para Fellipe Barbosa e Karen Sztajnberg. E nossa menção honrosa para Thales Cavalcanti pelo trabalho apresentado, sendo essa sua primeira experiência na área da atuação e um verdadeiro achado da produção do longa.

NOTA: 4/5

SANGUE AZUL [Brasil, 2014] – O circo Netuno está de volta a ilha paradisíaca incrustada no meio do oceano Atlântico. Há muito tempo atrás essa cena se repetia e mais uma vez, o circo está ali realizando suas apresentações, mas este retorno desenterra memórias de outrora.

O primeiro ato de Sangue Azul reúne os melhores momentos do longa. Sequências em preto-e-branco, a paisagem espetacular oferecida por Fernando de Noronha, a imensidão do mar e o ruído de suas ondas fisgam a atenção do espectador de tal forma, que é até complicado determinar quando a fotografia passou a ficar colorida.

Além do reencontro com a família, o retorno de Pedro (Daniel de Oliveira, Cazuza: O Tempo não Pára e 400 Contra Um: A História do Comando Vermelho)  à ilha traz ainda outras questões muito mais fortes do que o trauma dele com o mar. Mas a montagem confusa de Sangue Azul joga contra a própria trama. A história do protagonista não ganha a força e a importância devida, pois os arcos narrativos referentes aos coadjuvantes são burocráticos e inadequadamente desenvolvidos. Por que a longa permanência na ilha iria afetar a profissionalmente a equipe do circo?

A obra de Lírio Ferreira (de Árido Movie) conquista merecidamente os troféus Menina de Ouro de melhor fotografia e de melhor figurino no VI Paulínia Film Festival. Vale a pena mencionar também as apresentações circenses existentes ao longo do filme, muito bem captadas e ensaiadas. Um acerto que se opõe a tentativa barata (e frustrada) da direção em criar polêmicas a partir de seus coadjuvantes sem propósito algum.

NOTA: 2/5

PARAÍSO [México, 2013] – Silhuetas de corpos nus em fundo branco bastante iluminado. Paraíso trata sobre o amor e o cotidiano de pessoas pouco retratadas pelo cinema em geral: as pessoas… gordinhas.

Carmen (Daniela Rincón) está abandonando a sua vida no interior do México (o paraíso de acordo com sua irmã), deixando para trás toda a sua família, a sua cadela de estimação e seu serviço de contabilidade para seguir com o seu marido, Alfredo (Andrés Almeida, de E Sua Mãe Também), para a Cidade do México onde ele foi transferido pelo banco em que trabalha.

Por tudo o que foi visto nessa dinâmica inicial, o excesso de peso nunca foi um empecilho e nem um trauma para a felicidade à dois e também nunca foi algo com que eles se preocupassem. O cotidiano deles era repleto de ‘gordo/gorda’ como, carinhosamente, um chamava o outro.

A situação muda quando, sem querer, Carmen ouve comentários maliciosos sobre eles numa festa promovida pelo banco. Aí sim, ela (mais do que ele) passa a possuir um olhar de reprovação sobre si mesma. Natural a expectativa, então, de que Carmen procurasse caminhos e meios para emagrecer. Livros de autoajuda e de dieta, academia, exercícios ao ar livre, programa comunitário de vigilantes do peso. Alfredo não compreendia a mudança repentina de comportamento da esposa, mas resolveu acompanha-la sem questionar. Prova do seu amor.

Só que surge uma nova crise entre os dois. O único a colher resultados em todo esse processo foi ele, que emagrecia cada vez mais. Carmen (que inclusive burlava o sistema de pesagem do grupo que frequentavam), além da preocupação com seu número de manequim, agora cria a ilusão de que o marido não a ama mais com a diferença de pesos existente agora.

Transitando entre a comédia romântica e a comédia dramática, Paraíso não utiliza de maniqueísmos para a construção de sua trama ou para emocionar o seu espectador numa perseguição alucinada e irracional pelo final feliz como muito se vê em filmes desse tipo. A emoção que a história atinge vem naturalmente, tanto pelo desenrolar da história como pela utilização recorrente de alguns elementos construídos que exercem, delicadamente, sua função narrativa como a árvore plantada no parque ou o peixinho que Carmen sempre admirava na casa de animais.

NOTA: 5/5

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VI Paulínia Film Festival – programação de 22 a 27/07

17 07 2014

De 22 a 27 de julho, a cidade de Paulínia, na região de Campinas, realiza a 6ª edição de seu festival de cinema. Uma celebração inspirada em seu Pólo Cinematográfico que incentiva a produção de filmes na cidade, movimentando a economia e a população do município localizado a cerca de 100 km da capital paulista.

Fachada do Theatro Municipal de Paulínia, a casa do VI Paulínia Film Festival

Fachada do Theatro Municipal de Paulínia, a casa do VI Paulínia Film Festival

Alguns imbróglios políticos interromperam a realização do evento nos últimos anos, então o VI Paulínia Film Festival pode ser considerado a retomada definitiva da celebração, do apoio e da difusão da produção cinematográfica nacional pelo município. Com a política de ingressos gratuitos, o festival possibilita que o grande público tenha acesso às produções mais recentes do cinema mundial, já que sete filmes internacionais farão sua estreia no Brasil durante o evento.

Para a abertura, no dia 22, há a homenagem aos 25 anos da distribuidora brasileira Imovision e a exibição do longa Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho, uma cinebiografia do escritor brasileiro. No encerramento, dia 27, além da cerimônia de premiação, o festival homenageará o cineasta Cacá Diegues. No último dia também está programada a exibição do filme A Imigrante, o trabalho mais recente do diretor americano James Gray e estrelado por Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner.

Além da competição de longas oficial, o VI Paulínia Film Festival terá uma competição paralela de curtas-metragens, debates com as equipes técnicas dos filmes exibidos e uma programação especialmente dedicada ao público infantil com sessões às 9h e 14h.

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO:

DIA 22/07 – ABERTURA

  • 19h00 – Homenagem aos 25 anos da distribuidora brasileira Imovision
  • 20h30 – Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho

DIA 23/07

  • 09h00 A Guerra dos Botões
  • 14h00 O Pequeno Nicolau
  • 16h00 MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS
  •                  Jessy / O Menino que Sabia Voar
  • 16h30Aprendi a Jogar com Você
  • 18h00O Samba
  • 19h30 – Neblina
  • 21h30 – Sinfonia da Necrópole

DIA 24/07

  • 09h00 – O Pequeno Nicolau
  • 10h00 DEBATE COM EQUIPE DOS CURTAS-METRAGENS*
  • 11h00 DEBATE COM EQUIPE DOS LONGAS-METRAGENS*
  • 14h00 – Minhocas: O Filme
  • 17h00 MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS
  •                 De Bom Tamanho / O Bom Comportamento
  • 18h00 – As Férias do Pequeno Nicolau
  • 20h00 – Boa Sorte
  • 21h30 – Castanha

DIA 25/07

  • 09h00 – Zarafa
  • 10h00 DEBATE COM EQUIPE DOS CURTAS-METRAGENS*
  • 11h00 DEBATE COM EQUIPE DOS LONGAS-METRAGENS*
  • 14h00 – Meu Pé de Laranja Lima
  • 17h00 MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS
  •                  190 / O Clube
  • 17h45 – A Pedra da Paciência
  • 19h30 – Casa Grande
  • 21h30 – Sangue Azul

DIA 26/07

  • 10h00 DEBATE COM EQUIPE DOS CURTAS-METRAGENS*
  • 11h00 DEBATE COM EQUIPE DOS LONGAS-METRAGENS*
  •             Amazônia
  • 15h00 – Paraíso
  • 17h00 MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS
  •                  Recordação / Edifício Tatuapé Mahal
  • 17h30 – Geronimo
  • 19h30 – A Hsitória da Eternidade
  • 21h30 – Infância

DIA 27/07

  • 10h00 DEBATE COM EQUIPE DE CURTAS-METRAGENS*
  • 11h00 DEBATE COM EQUIPE DE LONGAS-METRAGENS*
  • 15h00 – A Imigrante
  • 17h00 – O Casamento de May
  • 19h30 CERIMÔNIA DE ENCERRAMENTO
  •                  Homenagem ao cineasta Cacá Diegues
  • 21h00 – Bem Vindo a Nova York

* Os debates serão realizados no auditório do Paço Municipal e as sessões no Theatro Municipal Paulo Gracindo, ambos localizados no Parque Brasil 500: Avenida Prefeito José Lozano Araújo, 1551, ao lado do RodoShopping de Paulínia.

 

 








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Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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