Mostra Internacional de Cinema SP 2014 | parte 1

19 10 2014

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15 ANOS + 1 DIA (Espanha)– A rebeldia comportada de Jon (vamos admitir, as suas ‘travessuras’ nem são tão graves assim para justificar a sua suspensão de 3 meses na escola) o leva a passar uma temporada na casa de seu avô, longe de qualquer apetrecho eletrônico.

Por mais problemático que seja, Jon (Arón Piper, de Maktub) tem um bom relacionamento com sua mãe (Maribel Verdú, do inesquecível O Labirinto do Fauno e E Sua Mãe Também), uma atriz que poderia ser veterana, mas não é. A dificuldade para ela conseguir um trabalho qualquer é tanta que até a própria mãe dela admite que a situação só não é pior devido ao bom patrimônio deixado pelo pai de Jon, cuja morte ocultada vira um dos escopos da trama.

E esse é o grande problema de 15 Anos + 1 Dia – a quantidade excessiva de temas abordados –, que acaba enfraquecendo-o como um todo narrativamente falando. Uma hora são problemas inerentes a qualquer adolescência comum, depois são os problemas familiares do passado que ainda ecoam no presente, uma discussão tola envolvendo uma desnecessária briga de vizinhos e, por fim, uma questão policial que ocupa toda a sua metade final. Tudo desenvolvido sem um aprofundamento apropriado e sem despertar o interesse necessário.

NOTA: 2/5

PÁSSARO BRANCO NA NEVASCA (EUA/França)– Podemos dizer que Kat (mas a não a Katniss de Jennifer Lawrence em Jogos Vorazes e sim Katrina Connor, vivida pela igualmente linda Shailene Woodley – vista recentemente em produções de grande apelo público como Divergente e A Culpa é das Estrelas) amadureceu bem apesar de todo o estranho ambiente familiar que a cercava.

Seus pais viviam um autêntico casamento de fachada, um relacionamento onde imperava a infelicidade. Eva Green (de Cruzada e Sin City: A Dama Fatal), que interpreta a mãe da adolescente, Eve Connor, encarna maravilhosamente bem todas as fases e temperamentos de sua personagem: desde a esposa dedicada e ideal no início de casamento até chegar ao ápice de uma mulher a beira da loucura, consumida pelo tédio que a união com Brock Connor (Christopher Meloni, Noites de Tormenta e O Homem de Aço) despertou.

Estar na pele de Kat não era mesmo uma tarefa fácil, que ouvia quase a todos os instantes as lamentações da mãe pelo casamento até o momento em que essa desaparece em 1988, quando a garota tinha então 17 anos. Pode até parecer estranho, mas o sumiço repentino da mãe pouco alterou a rotina da filha: continuava saindo com seus melhores amigos Beth (Gabourey Sidibe, que surgiu no filme Preciosa: Uma História de Esperança e da série The Big C) e Mickey (Mark Indelicato, da série americana Uggly Betty); tinha que conviver com um pai apático e apenas o seu relacionamento com Phil (Shiloh Fernandez, A Morte do Demônio e A Garota da Capa Vermelha) vinha esfriando desde então.

Embora não consiga desenvolver suas subtramas (caso de Kat com o detetive que investiga o sumiço de sua mãe) com a mesma qualidade vista no plot principal, Pássaro Branco na Nevasca melhora sempre quando volta para o seu foco primordial: desvendar o que de fato ocorreu com Eve. O longa de Gregg Araki (também diretor de Mistérios da Carne) não assume as características de um thriller policial, mas se sai bem na parte investigativa utilizando-se de pistas soltas ao longo da história. Não podemos deixar de citar a boa trilha sonora com músicas da época e o carisma demonstrado por seu elenco de coadjuvantes.

Nada disso, porém, preparou ou indicou o caminho para o seu desfecho e suas motivações.

NOTA: 4/5

FILHO DE TRAUCO (Chile) – No Chile há uma lenda que diz que crianças cujos pais são desconhecidos e são criadas por mães solteiras acabam sendo chamadas de ‘filhos de Trauco’. Uma crendice muito popular em vilarejos afastados dos grandes centros urbanos, encravados no interior do país. Crendice que ganha ainda mais força em uma comunidade instalada numa ilha isolada da parte continental do país.

O protagonista do filme, Jaime (o novato Xabier Usabiaga), se enquadra parcialmente nessa descrição.  O jovem de 14 anos desconhece a sua paternidade, mas mesmo sendo habitante da ilha, não cai facilmente nos contos criados pelos seus conterrâneos. O seu espírito poético é libertador (que mais tarde o longa revela ser um dom herdado de seu pai), o que invoca nele uma imensa vontade de deixar a ilha e seguir para o norte do Chile, rumo à uma cidade maior. Uma ideia que ganha mais força ao ser suspenso injustamente pela direção de sua escola em um caso de plágio.

Filho de Trauco é o primeiro longa-metragem do diretor Alan Fischer, que a partir de uma lenda urbana, cria uma aventura juvenil com Jaime em busca da verdade sobre a identidade de seu pai, deparando-se com uma nova versão sobre a identidade do seu pai e o que lhe ocorreu a cada passo dado. Tudo envolto por uma atmosfera híbrida meio fantástica, meio real, criada habilmente através de criativos créditos iniciais (que acabam nos apresentando a ilha onde a trama se passa) e as recriações digitais de visões de Violeta (a estreante Ignacia Tellez), o primeiro interesse amoroso de Jaime. Mas nada muito além disso.

NOTA: 3/5

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ATENÇÃO: Esse post inicial é apenas um aperitivo. A cobertura do Universo E! na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo continua no próximo fim-de-semana, onde dedicaremos, no total, 5 dias ao festival.

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Breves & Curtas #12 | VI Paulínia Film Festival

3 08 2014

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CASA GRANDE [Brasil, 2014] – A família de Jean é muito bem estabelecida no Rio de Janeiro. A cena que abre o longa tem toda a atenção voltada para a mansão a que o título se refere e onde a família reside: com três pavimentos (todos muito bem iluminados), um espaçoso quintal equipado com externo ambiente, piscina e jacuzzi aquecida.

O jovem protagonista desfruta de todo o conforto proporcionado pelo pai. Vai ao Colégio São Bento (privado) com motorista particular, tem disponível uma generosa mesada para as baladas de fim de semana. Apesar do status social, o personagem (muito bem representado por Thales Cavalcanti) não demonstra a arrogância que muitos com a mesma realidade possuem. Um comportamento que se estende à toda família. Basta observar o amistoso relacionamento que todos possuem com os funcionários da casa.

Mas o futuro que reluz ao horizonte não parece ser promissor para eles. Algo que não está claro e nem evidente num primeiro momento, mas que vai se percebendo aos poucos. O responsável pelo disfarce é o pai, vivido por Marcello Novaes (vencedor do Menina de Ouro de melhor ator coadjuvante), que teima em esconder a crise da família e do espectador. Mas somos os primeiros a descobrir quando o mesmo anuncia, entusiasmado, seus investimentos na OGX – a famosa empresa de Eike Batista -, cujo fim todos nós já sabemos.

Um filme sobre derrocadas familiares? Sim. Mas seria injusto e superficial classifica-lo apenas desse modo. Casa Grande também é, à sua maneira, sobre a adolescência e seus problemas, representada aqui não só pelo protagonista, mas também por sua irmã.

Impressionante observar a naturalidade com que as situações são abordadas em Casa Grande a partir de seus dois principais tópicos: a crise financeira da família e a passagem pela adolescência e a maturidade de Jean. A violência no Rio, a descoberta do sexo e do primeiro amor, o convívio com os amigos, a pressão feita às vésperas do vestibular, as discussões com os pais super protetores e o esforço destes em contornar toda essa atuação sem atingir, diretamente, os filhos.

Além de melhor ator coadjuvante, Casa Grande ainda recebeu dois Menina de Ouro no VI Paulínia Film Festival: o de melhor atriz coadjuvante para Clarissa Pinheiro e o de melhor roteiro para Fellipe Barbosa e Karen Sztajnberg. E nossa menção honrosa para Thales Cavalcanti pelo trabalho apresentado, sendo essa sua primeira experiência na área da atuação e um verdadeiro achado da produção do longa.

NOTA: 4/5

SANGUE AZUL [Brasil, 2014] – O circo Netuno está de volta a ilha paradisíaca incrustada no meio do oceano Atlântico. Há muito tempo atrás essa cena se repetia e mais uma vez, o circo está ali realizando suas apresentações, mas este retorno desenterra memórias de outrora.

O primeiro ato de Sangue Azul reúne os melhores momentos do longa. Sequências em preto-e-branco, a paisagem espetacular oferecida por Fernando de Noronha, a imensidão do mar e o ruído de suas ondas fisgam a atenção do espectador de tal forma, que é até complicado determinar quando a fotografia passou a ficar colorida.

Além do reencontro com a família, o retorno de Pedro (Daniel de Oliveira, Cazuza: O Tempo não Pára e 400 Contra Um: A História do Comando Vermelho)  à ilha traz ainda outras questões muito mais fortes do que o trauma dele com o mar. Mas a montagem confusa de Sangue Azul joga contra a própria trama. A história do protagonista não ganha a força e a importância devida, pois os arcos narrativos referentes aos coadjuvantes são burocráticos e inadequadamente desenvolvidos. Por que a longa permanência na ilha iria afetar a profissionalmente a equipe do circo?

A obra de Lírio Ferreira (de Árido Movie) conquista merecidamente os troféus Menina de Ouro de melhor fotografia e de melhor figurino no VI Paulínia Film Festival. Vale a pena mencionar também as apresentações circenses existentes ao longo do filme, muito bem captadas e ensaiadas. Um acerto que se opõe a tentativa barata (e frustrada) da direção em criar polêmicas a partir de seus coadjuvantes sem propósito algum.

NOTA: 2/5

PARAÍSO [México, 2013] – Silhuetas de corpos nus em fundo branco bastante iluminado. Paraíso trata sobre o amor e o cotidiano de pessoas pouco retratadas pelo cinema em geral: as pessoas… gordinhas.

Carmen (Daniela Rincón) está abandonando a sua vida no interior do México (o paraíso de acordo com sua irmã), deixando para trás toda a sua família, a sua cadela de estimação e seu serviço de contabilidade para seguir com o seu marido, Alfredo (Andrés Almeida, de E Sua Mãe Também), para a Cidade do México onde ele foi transferido pelo banco em que trabalha.

Por tudo o que foi visto nessa dinâmica inicial, o excesso de peso nunca foi um empecilho e nem um trauma para a felicidade à dois e também nunca foi algo com que eles se preocupassem. O cotidiano deles era repleto de ‘gordo/gorda’ como, carinhosamente, um chamava o outro.

A situação muda quando, sem querer, Carmen ouve comentários maliciosos sobre eles numa festa promovida pelo banco. Aí sim, ela (mais do que ele) passa a possuir um olhar de reprovação sobre si mesma. Natural a expectativa, então, de que Carmen procurasse caminhos e meios para emagrecer. Livros de autoajuda e de dieta, academia, exercícios ao ar livre, programa comunitário de vigilantes do peso. Alfredo não compreendia a mudança repentina de comportamento da esposa, mas resolveu acompanha-la sem questionar. Prova do seu amor.

Só que surge uma nova crise entre os dois. O único a colher resultados em todo esse processo foi ele, que emagrecia cada vez mais. Carmen (que inclusive burlava o sistema de pesagem do grupo que frequentavam), além da preocupação com seu número de manequim, agora cria a ilusão de que o marido não a ama mais com a diferença de pesos existente agora.

Transitando entre a comédia romântica e a comédia dramática, Paraíso não utiliza de maniqueísmos para a construção de sua trama ou para emocionar o seu espectador numa perseguição alucinada e irracional pelo final feliz como muito se vê em filmes desse tipo. A emoção que a história atinge vem naturalmente, tanto pelo desenrolar da história como pela utilização recorrente de alguns elementos construídos que exercem, delicadamente, sua função narrativa como a árvore plantada no parque ou o peixinho que Carmen sempre admirava na casa de animais.

NOTA: 5/5








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