Mostra Internacional de Cinema SP 2014 | parte 5

28 10 2014

-> Encerramos com esse post a nossa cobertura especial da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Espero que tenham aproveitado essa jornada de 5 dias e 16 filmes aqui comentados!

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UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA (Suécia, Alemanha, Noruega, França, 2014) – Se passa num universo paralelo ao nosso povoado por pessoas excêntricas que não tem noção do quanto suas atitudes e seus comportamentos são estranhos. Essa é a única explicação plausível.

Em geral, cenas corriqueiras são retratadas aqui: vendedores e suas bugigangas, a dinâmica de do salão de atendimento de um restaurante ou lanchonete qualquer, os conflitos entre vizinhos de um condomínio… Todos representados por uma realeza igualmente estranha, que expulsa todas as mulheres de um estabelecimento para apenas tomar um copo d’água e marcha a guerra com uma tropa praticamente infinita. Tais pessoas chamam a atenção pela palidez, algo muito próximo do visto nos Observadores na finada série Fringe (mas com cabelos).

A maioria das sequências traz embutido um humor proposital (no roteiro) e involuntário (por parte dos personagens), que discutem banalidades como se fossem a verdade universal. O que ocorre até de forma elegante quando o que faz rir está ao fundo da ação principal, em segundo plano. Este filme com título de 9 palavras e 47 caracteres equilibra-se na tênue linha que separa filmes bons dos ruins. E poderia muito se estabelecer aí se não incluísse uma cena de muito mal gosto envolvendo escravos. A produção passaria muito bem sem essa, já que a dita sequência não acrescenta absolutamente nada à história.

NOTA: 2/5

DUAS IRMÃS, UMA PAIXÃO (Alemanha, Áustria, Suíça, 2014) – Um casamento forjado pelo interesse financeiro (e me diga qual casamento não o era em pleno século XVIII?) impede a concretização de um amor verdadeiro entre o escritor em origem de carreira Friedrich Schiller e a aristocrata Charlotte. Como o próprio título deixa bem claro, isso não é tudo. Schiller também se apaixona pela outra irmã, Caroline, que também é correspondido e os três estão cientes disso.

Não precisa se prolongar muito para imaginar que caminhos a história irá percorrer, certo? Não é o que acha o diretor alemão Dominik Graf que cria um novo conceito de ‘prolongamento’ de filmes. Duas Irmãs, Uma Paixão aponta sua câmera para todas as direções possíveis e (in)imagináveis, mas não no aspecto técnico e sim narrativo. Desnecessariamente. O que ele consegue com isso é criar uma história burocrática, cansativa e desinteressante com as incontáveis idas e vindas de seus personagens.

Se o filme focasse toda a sua atenção para o quê realmente importa, o longa-metragem poderia até ser um curta. Quando a história realmente acontece, o espectador já não tem mais paciência para poder ser interessar pela conclusão. Tudo o que ele mais quer na vida é que o funcionário entre logo na sala de cinema e abra a porta de saída de emergência para anunciar o fim dessa tortura.

NOTA: 1/5





Mostra Internacional de Cinema SP 2014 | parte 2

25 10 2014

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O CÍRCULO (Suíça, 2014) – Às sombras do nazismo e sua repreensão sexual, um grupo de homossexuais consegue manter por mais de 25 anos um grupo fechado em Zurique, na Suíça, onde pudessem reunir-se naturalmente sem serem desrespeitados. Além de servir como ponto de apoio aos gays, O Círculo também possuía como principal atividade a manutenção de uma publicação homoerótica voltada para os membros (cujos endereços cadastrados eram requisitados pela polícia a todo o momento) e organização de um baile anual gay.

Entre seus membros estavam Ernst Ostertag, professor de uma escola para meninas e filho de pais extremamente conservadores e o cabeleireiro e drag queen Röbi Rapp, que tinha uma ótima aceitação por parte de sua mãe. O relacionamento entre os dois sobreviveu ao fim de O Círculo e do nazismo, ao mesmo tempo em que a união incentivou a criação de um novo grupo: Club 68.

A inclusão dos depoimentos dos verdadeiros personagens que inspiraram o longa o enriquece bastante, tendo o espectador uma mescla entre ficção baseada em fatos reais e documentário, o que também abrange a utilização de fotografias reais da época em P&B ou de fotos dos próprios Ernst Ostertag e Röbi Rapp com seus respectivos atores.

Quanto a dura realidade que enfrentaram nas décadas de 50 e 60, pouca se altera ao que é visto em pleno século XXI, principalmente no que se refere à Ernst que só veio assumir a sua condição após a morte de sua mãe, assim como os dois realizaram o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo da Suíça em 2003.

NOTA: 4/5

PAIXÃO MÓRBIDA (Japão, 1964) – Cores primárias vivas iluminam rostos de mulheres japonesas. Naquele beco escuro iluminado apenas pelas luzes de propagandas, elas esperam pelo próximo cliente, estáticas num canto qualquer. A inocente Yoshie de 19 anos caiu no mundo da prostituição meio que pelo acaso após conhecer Eiji num bar onde ela fazia o turno da noite.

A violência do homem a forçava a se prostituir para ajuda-lo a pagar uma dívida de jogos com a Yakuza. O amor que criava nela uma fidelidade irracional por Eiji (apesar de toda a estupidez dele) mais a truculência na forma de agir e cobrar da máfia japonesa impedia que ela pudesse abandonar essa sobrevivência humilhante. Nem mesmo com o surgimento de Fujii, um arquiteto bem sucedido e um cliente recorrente em busca de seus serviços sexuais disposto a quase tudo para tirá-la daquele beco.

A indecisão entre o desejo de uma nova vida próspera que tanto almejou e o sentimento de traição com um possível abandono de Eiji à sua própria sorte não é uma decisão fácil para Yoshie, um dilema que se repete várias vezes. Nem mesmo uma terceira escolha possível apresentada pelo desfecho demonstra alguma possibilidade de felicidade.

NOTA: 2/5

AS PONTES DE SARAJEVO (França, Bósnia, Suíça, Itália, Alemanha, Portugal, Bulgária) – Sarajevo, capital da atual Bósnia, foi o palco do gatilho inicial da Primeira Grande Guerra, conflito mundial cujo início completou 100 anos recentemente e que matou mais 19 milhões de pessoas.

Para realizar uma homenagem não oficial desta data, As Pontes de Sarajevo é constituído por treze recortes relacionados à cidade, direta ou indiretamente, a partir da visão de diretores diferentes. Exatamente por isso, os protagonistas desses microfilmes são tão diversos entre si: os militares são a grande maioria; a observação do cotidiano de Sarajevo sobreposta por imagens de homens armados possivelmente mortos; a discussão de um casal de certa idade sobre a Europa como um todo a partir da leitura de um livro ou narrações em primeira pessoa.

No entanto, a angústia e a tristeza são uma constante em todas as visões apresentadas. Mesmo nos dois últimos trechos que utilizam mais o humor em sua narração. Um belo apanhado de imagens a se contemplar.

NOTA: 4/5

A MOÇA, A BABÁ, O NETO BASTARDO E EMMA SUÁREZ (Espanha, 2014)– O filme espanhol de título quilométrico justifica o motivo de seu nome, já que cada personagem ali citado ganha a sua importância e possui o seu arco dramático, sendo todos protagonistas, exceto Emma Suárez, cuja citação funciona apenas como homenagem (e uma pequena participação) à atriz espanhola de extenso currículo.

A “moça” Júlia possui um bebê de menos de 1 ano de idade fruto de um estupro. Como trabalha todo o dia fora, ela tem confiança em Carol, a “babá”, uma jovem atriz em início de carreira que ainda enfrenta problemas de autoestima para se entregar por inteira em cima dos palcos. Com o nascimento do neto, a avó começa a visitar a filha com mais frequência. Uma aproximação que incomoda e muito Júlia, pois foi a justamente a ‘ausência’ da mãe que causou tantas mágoas ainda não superadas.

O filme espanhol funciona muito bem como uma contemplação dessas personagens e as suas respectivas buscas por uma resolução para os seus problemas. Mesmo quando não há uma. Em certos momentos, isso ocorre embrulhado por um silêncio absoluto. Também impressiona a forma que a produção atinge seus ápices dramáticos (sempre envolvendo mãe e filha) que ocorre de forma rápida e pungente.

NOTA: 4/5

AS NOITES BRANCAS DO CARTEIRO (Rússia, 2014) – A profissão de Lyokha proporciona um contato direto e diário com seus vizinhos, todos habitando às margens de um lago, ao norte da Rússia, que os separam do restante do mundo.

Em sua rotina, o carteiro atravessa esse lago constantemente em busca das correspondências e de outros produtos que alguém daqui venha precisar. Além de um mero entregador de cartas, esse senhor torna-se um grande amigo para todos aqueles que visita, principalmente com uma de suas ex-colegas de escola (sua eterna antiga paixão) e seu filho.

A partir do momento em que o motor de seu barco é furtado, Lyokha estreita ainda mais a sua relação com o garoto, numa das raras ocasiões em que algo se altera nessa distante comunidade. O carteiro ainda terá que enfrentar outra mudança mais significativa (ao menos para ele) por ali, quando então tudo continuará no mesmo ritmo. E este filme russo consegue retratar tais passagens sem se tornar entendiante.

NOTA: 3/5





Mostra Internacional de Cinema SP 2014 | parte 1

19 10 2014

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15 ANOS + 1 DIA (Espanha)– A rebeldia comportada de Jon (vamos admitir, as suas ‘travessuras’ nem são tão graves assim para justificar a sua suspensão de 3 meses na escola) o leva a passar uma temporada na casa de seu avô, longe de qualquer apetrecho eletrônico.

Por mais problemático que seja, Jon (Arón Piper, de Maktub) tem um bom relacionamento com sua mãe (Maribel Verdú, do inesquecível O Labirinto do Fauno e E Sua Mãe Também), uma atriz que poderia ser veterana, mas não é. A dificuldade para ela conseguir um trabalho qualquer é tanta que até a própria mãe dela admite que a situação só não é pior devido ao bom patrimônio deixado pelo pai de Jon, cuja morte ocultada vira um dos escopos da trama.

E esse é o grande problema de 15 Anos + 1 Dia – a quantidade excessiva de temas abordados –, que acaba enfraquecendo-o como um todo narrativamente falando. Uma hora são problemas inerentes a qualquer adolescência comum, depois são os problemas familiares do passado que ainda ecoam no presente, uma discussão tola envolvendo uma desnecessária briga de vizinhos e, por fim, uma questão policial que ocupa toda a sua metade final. Tudo desenvolvido sem um aprofundamento apropriado e sem despertar o interesse necessário.

NOTA: 2/5

PÁSSARO BRANCO NA NEVASCA (EUA/França)– Podemos dizer que Kat (mas a não a Katniss de Jennifer Lawrence em Jogos Vorazes e sim Katrina Connor, vivida pela igualmente linda Shailene Woodley – vista recentemente em produções de grande apelo público como Divergente e A Culpa é das Estrelas) amadureceu bem apesar de todo o estranho ambiente familiar que a cercava.

Seus pais viviam um autêntico casamento de fachada, um relacionamento onde imperava a infelicidade. Eva Green (de Cruzada e Sin City: A Dama Fatal), que interpreta a mãe da adolescente, Eve Connor, encarna maravilhosamente bem todas as fases e temperamentos de sua personagem: desde a esposa dedicada e ideal no início de casamento até chegar ao ápice de uma mulher a beira da loucura, consumida pelo tédio que a união com Brock Connor (Christopher Meloni, Noites de Tormenta e O Homem de Aço) despertou.

Estar na pele de Kat não era mesmo uma tarefa fácil, que ouvia quase a todos os instantes as lamentações da mãe pelo casamento até o momento em que essa desaparece em 1988, quando a garota tinha então 17 anos. Pode até parecer estranho, mas o sumiço repentino da mãe pouco alterou a rotina da filha: continuava saindo com seus melhores amigos Beth (Gabourey Sidibe, que surgiu no filme Preciosa: Uma História de Esperança e da série The Big C) e Mickey (Mark Indelicato, da série americana Uggly Betty); tinha que conviver com um pai apático e apenas o seu relacionamento com Phil (Shiloh Fernandez, A Morte do Demônio e A Garota da Capa Vermelha) vinha esfriando desde então.

Embora não consiga desenvolver suas subtramas (caso de Kat com o detetive que investiga o sumiço de sua mãe) com a mesma qualidade vista no plot principal, Pássaro Branco na Nevasca melhora sempre quando volta para o seu foco primordial: desvendar o que de fato ocorreu com Eve. O longa de Gregg Araki (também diretor de Mistérios da Carne) não assume as características de um thriller policial, mas se sai bem na parte investigativa utilizando-se de pistas soltas ao longo da história. Não podemos deixar de citar a boa trilha sonora com músicas da época e o carisma demonstrado por seu elenco de coadjuvantes.

Nada disso, porém, preparou ou indicou o caminho para o seu desfecho e suas motivações.

NOTA: 4/5

FILHO DE TRAUCO (Chile) – No Chile há uma lenda que diz que crianças cujos pais são desconhecidos e são criadas por mães solteiras acabam sendo chamadas de ‘filhos de Trauco’. Uma crendice muito popular em vilarejos afastados dos grandes centros urbanos, encravados no interior do país. Crendice que ganha ainda mais força em uma comunidade instalada numa ilha isolada da parte continental do país.

O protagonista do filme, Jaime (o novato Xabier Usabiaga), se enquadra parcialmente nessa descrição.  O jovem de 14 anos desconhece a sua paternidade, mas mesmo sendo habitante da ilha, não cai facilmente nos contos criados pelos seus conterrâneos. O seu espírito poético é libertador (que mais tarde o longa revela ser um dom herdado de seu pai), o que invoca nele uma imensa vontade de deixar a ilha e seguir para o norte do Chile, rumo à uma cidade maior. Uma ideia que ganha mais força ao ser suspenso injustamente pela direção de sua escola em um caso de plágio.

Filho de Trauco é o primeiro longa-metragem do diretor Alan Fischer, que a partir de uma lenda urbana, cria uma aventura juvenil com Jaime em busca da verdade sobre a identidade de seu pai, deparando-se com uma nova versão sobre a identidade do seu pai e o que lhe ocorreu a cada passo dado. Tudo envolto por uma atmosfera híbrida meio fantástica, meio real, criada habilmente através de criativos créditos iniciais (que acabam nos apresentando a ilha onde a trama se passa) e as recriações digitais de visões de Violeta (a estreante Ignacia Tellez), o primeiro interesse amoroso de Jaime. Mas nada muito além disso.

NOTA: 3/5

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ATENÇÃO: Esse post inicial é apenas um aperitivo. A cobertura do Universo E! na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo continua no próximo fim-de-semana, onde dedicaremos, no total, 5 dias ao festival.





Breves & Curtas #11 | VI Paulínia Film Festival

1 08 2014

 

A fachada do Theatro Municipal de Paulínia, sede do Paulínia Film Festival

A fachada do Theatro Municipal de Paulínia, sede do Paulínia Film Festival

AS FÉRIAS DO PEQUENO NICOLAU [França, 2014] – Encerrado o período de aulas em Paris, chega-se uma temporada ansiosamente aguardada pelos alunos: as férias escolares. Assim, todas as famílias estão possibilitadas e dispostas a realizar suas viagens de descanso e curtição com todas as implicações que esse deslocamento em debandada pode ocasionar. E quando digo todas as famílias são todas mesmo. O diretor Laurent Tirard (de O Pequeno Nicolau e As Aventuras de Molière) faz uma breve piada com essa situação ao mostrar que, se um morador parisiense permanece na cidade nesse período, encontrará a capital da França povoada por turistas.

Voltado para o público, o longa faz sucesso com a comédia de situações, algo que o cinema francês sabe fazer com maestria e com muito dinamismo, rindo deles mesmos. Mesmo tendo a criança como público-alvo, perceptível não só na história, mas também no cenário colorido da casa e no abuso de diversas cores pastéis quando a trama passa a se desenvolver no litoral, o filme é maduro o suficiente para ousar em certos momentos. O que ocorre na sequência envolvendo a praia de nudismo em que a falta de pudor vai até o limiar permitido pela classificação livre da produção.

Brincando com tudo e com todos, As Férias do Pequeno Nicolau sabe utilizar e reutilizar as gag’s de seus vários personagens, todos estereotipados, no bom sentido da expressão. As confusões que a turma de Nicolau cria no litoral para livrar o protagonista de um possível relacionamento com uma garota (à la Namorada Sinistra) são o motor da narração. O filme, de quando em vez, esbarra nos clichês, mas consegue desviar-se deles em momentos oportunos, tornando-se um ótimo passatempo. E as vezes, um filme não precisa mais do que isso.

NOTA: 4/5

BOA SORTE [Brasil, 2014] – João conhece Judite numa clínica de reabilitação para dependentes químicos, com problemas psiquiátricos e outros que tais. Ele (vivido por João Pedro Zappa, Disparos e Ressaca), depressivo e viciado em medicamentos de tarja preta. Ela, (Deborah Secco, Bruna Surfistinha e Confissões de Adolescente), uma veterana usuária de drogas, portadora do vírus HIV, sofrendo da ineficácia do coquetel em seu corpo.

Num ambiente de (aparente) controle rígido e com a liberdade limitada, natural a gradativa aproximação entre os dois e mais natural ainda o rumo que essa relação segue. Deborah Secco incorpora uma personagem ciente da sua realidade e do seu iminente destino, que carrega em sua trajetória uma tragédia familiar. Mesmo assim, Judite não aceita assumir o papel de vítima por sua situação, demonstrando uma força bem maior que a sua fragilidade física supõe e quer repassar esse ‘otimismo’ para o inexperiente rapaz ao seu lado. E por sua própria inexperiência, João não compreende o que está por vir e acaba se apaixonando por ela.

Por mais que apresente uma triste conjectura de fatos, o longa de Carolina Jabor  (do documentário O Mistério do Samba) consegue estabelecer um relacionamento extremamente adocicado entre Judite e João, fruto da excelente atuação do ator João Pedro Zappa que traz todo um ar de inocência e graça ao seu personagem. Bem-vinda também a inserção do humor vindo dos personagens coadjuvantes, amigos do casal protagonista, assim como a pequena, divertida e marcante participação de Fernanda Montenegro (Central do Brasil, O Tempo e o Vento e Infância) como a avó hippie de Judite.

O longa sai do VI Paulínia Film Festival como melhor filme pela votação popular e com o troféu Menina de Ouro de melhor direção de arte.

NOTA: 5/5





Festival Varilux de Cinema Francês 2014 – Números finais

4 06 2014

Saiu hoje o balanço geral do Festival Varilux de Cinema Francês 2014.

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O festival que trouxe as produções mais recentes da cinematografia francesa para 70 cinemas distribuídos em 40 cidades por todo o Brasil. A 5ª edição do Festival Varilux contou com a exibição de 16 filmes e chegou á um público recorde de 97 mil espectadores. O Universo E! fez uma intensa cobertura que resultou em 5 posts com rápidas resenhas sobre os filmes vistos, incluindo O Passado, Eu, Mamãe e os Meninos e Antes do Inverno (parte 1, parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5).

Extremamente contente pelos números alcançados na edição desse ano, parabenizo também a cidade de Campinas (cidade-sede do Universo E!) por figurar entre as 10 cidades de maiores públicos do Festival Varilux (3.330 espectadores) em nível nacional e a 2ª entre as cidades paulistas, ficando a frente de capitais como Brasília, Porto Alegre, Salvador, Goiânia entre outras cidades. Os dois cinemas que sediaram as exibições por aqui – Topázio Cinemas no Prado Boulevard e Cineflix do Galleria Shopping – perfizeram uma renda total de R$32.563,00. Ambos também figuraram entre os 30 cinemas com maior arrecadação do festival!

Obrigado à todos que nos acompanharam nessa deliciosa jornada e já estamos à espera do próximo!

 

 

 





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 05

20 05 2014

Finalmente, antes tarde do que nunca, aqui estão os últimos comentários do Universo E! sobre o Festival Varilux de Cinema Francês de 2014. Pela terceira vez presente no festival, esta é a primeira vez que conseguimos falar sobre praticamente todos os filmes vistos: das 16 produções integrantes da programação, assistimos 15 e escrevemos (incluo esse post) sobre 13 deles. Um feito inédito!

Esperamos que tenham curtido! E que venham mais ótimos filmes pela frente!

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UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA (França, 2013) – Sua realização por si só já é uma viagem extraordinária. Uma coprodução franco-canadense conta a história de TS Spivet (Kyle Catlett, da série The Following), que vive junto com sua família num rancho isolado no oeste americano. A mãe Clair, Helena Bonham Carter (Os Miseráveis, a cinessérie Harry Potter e Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet), colecionava insetos; o pai era um típico cowboy; a irmã sonhava em participar do concurso de miss dos EUA e o seu irmão gêmeo seguia os passos rústicos do pai, adorando manusear armas desde pequeno.

Gêmeos, a única coisa em comum entre TS e Layton mesmo era a data de nascimento. Layton (Jakob Davies, de O Homem das Sombras e Guerra é Guerra!) não possuía nenhuma fração da genialidade e engenhosidade do irmão com seus cálculos e análises científicas. Uma tragédia, no entanto, acaba levando Layton a óbito.

A perda do irmão desperta em TS um sentimento de desprezo por parte da família, especialmente sua mãe. Deslocado em seu próprio ambiente familiar, ele vê na Baird Awards (organização que premia os grandes projetos científicos) uma oportunidade de ter a sua inteligência reconhecida, ao mesmo tempo que terá a chance de se afastar de seus familiares. Mesmo que momentaneamente.

Cruzar o território americano a bordo (clandestinamente) de um trem que atravessa o território de oeste a leste não é nenhuma ideia original. Encontrar os mais diferentes tipos de pessoas nesse caminho também não. E são exatamente estes momentos que Uma Viagem Extraordinária não oferta nada de novo. O ator-mirim que vive o protagonista também não se sai bem nos momentos da trama que lhe exigem mais emoção, o que certamente garantiria uma imersão maior do espectador.

O que resta mesmo são os momentos divertidos que o roteiro apresenta ao explorar a dualidade entre a genialidade TS e a vida comum de pessoas nem tão inteligentes assim. Também não é monótona acompanhar a reconciliação entre os membros da família nessa trajetória, que conta com ótimas trilha sonora e fotografia. Uma viagem nem tão extraordinária assim, mas certamente divertida.

NOTA: 3/5

UM AMOR EM PARIS (França, 2013) – Brigitte (Isabelle Huppert, Amor e Uma Relação Delicada) e o marido vivem nos arredores de Paris onde cuidam de cabeças de gado de alto pedigree para participar de exposições competitivas de bois.

Uma vida pacata e sem sobressaltos, típica de casais com muito tempo de união e com os filhos já criados. Só de tempos em tempos que o sossego é quebrado quando jovens vindos da capital francesa organizam festas na chácara vizinha.

Em uma dessas festas, Brigitte conhece Stan (Pio Marmaï, Um Evento Feliz e Alyah), um rapaz que não está muito a vontade na festa e acaba (assim como as organizadoras da festa pedindo favores a todo momento) indo parar na porta dos vizinhos.

Interessante analisar como essa safra de filmes franceses traz a crise dos casamentos de longa data para a tela. Brigitte não está infeliz no seu matrimônio, mas está insatisfeita em como ele está girando apenas na atividade de criação de gados, algo que agrada apenas ao seu marido.

É em Paris, portanto, que ela vai em busca de sua própria felicidade, tendo como pretexto uma consulta médica. Mas não será a cidade-luz que a afastará das decepções da vida, assim como homens maduros e economicamente bem estabelecidos não serão garantia  de felicidade plena.

NOTA: 2/5

GRANDES GAROTOS (França, 2012) – Dificilmente filmes conseguem construir habilmente uma construção de personagens em um curto espaço de tempo e com cortes tão rápidos. Um exemplo clássico e insuperável até hoje é aquele elaborado na animação Up – Altas Aventuras abordando o relacionamento entre Carl Fredricksen e Ellie. Grandes Garotos utiliza-se do mesmo artifício apara estabelecer rapidamente a relação entre Lola (Mélanie Bernier, A Delicadeza do Amor e A Datilógrafa) e Thomas (Max Boublil, de Aconteceu em Saint-Tropez) uma vez que o seu grande motim será a amizade que se estabelecerá entre Thomas e seu sogro Gilbert (Alain Chabat, Uma Noite no Museu 2 e A Espuma dos Dias) .

Gilbert é o exemplo de tudo que Thomas não quer em sua vida futura: um homem infeliz, descontente no casamento e que vê sua mulher Suzanne (Sabrine Kiberlain, de Uma Juíza Sem Juízo e Políssia) envolvida apenas na caridade. Mas ao mesmo tempo, Gilbert por experiência própria, valoriza e incentiva o sonho de Thomas, que sempre é menosprezado pela namorada dele: a música.

Essa repentina amizade abordada em Grande Garotos entre genro e sogro também apresenta uma dualidade e um choque entre gerações. E o título se refere a absoluta falta de maturidade existente nas ações deles, quando passam a dividir momentos juntos, em detrimento ao relacionamento destes com suas respectivas esposa/namorada.

Apenas quando uma rápida incursão no mundo fonográfico torna-se uma grande frustação (principalmente quando se rendem às vontades e traquejos de uma cantora-mirim irritante) que Thomas e Gilbert percebem o quão importante eram suas vidas anteriores à essa jornada – mesmo que isso não se traduzisse em todos os seus desejos realizados. Só que há um único problema: agora eles terão que reconquistar suas amadas que já estavam se acertando com outros companheiros. E isso pode não ser tão fácil quanto parece.

O grande destaque aqui fica por conta de uma das cenas finais, quando Thomas resolve invadir uma conferência internacional para declarar (mais uma vez) o seu amor por Lola, utilizando-se de uma gag recorrente no filme.

NOTA: 3/5





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 04

2 05 2014

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A GRANDE VOLTA (França, 2012) – François Nouel (Clovis Cornillac, Eterno Amor e Asterix nos Jogos Olímpicos) tinha uma paixão e um fascínio desenfreados pela famosa Tour de France, evento anual de ciclismo na França. Apesar da enorme vontade, o seu envolvimento com a competição nunca ultrapassou o limite das arquibancadas ou das imagens transmitidas pela televisão. Até que chega em suas mãos uma oportunidade de correr por uma equipe profissional. Tudo daria certo se não fosse a reação de Sylvie (Élodie Bouchez, Perigosa Obsessão e da série Alias: Codinome Perigo), sua esposa – que detestava o esporte -, ao saber da notícia.

Sem um acordo para o conflito do casal, dividido entre a corrida e as tão pretendidas férias em família, Sylvie leva o filho para o litoral, abandonando o marido à sua própria sorte de esportista amador. Só e sem saber para onde eles foram, François decide realizar o seu sonho,  cumprindo todas as etapas da Tour de France antes da passagem oficial dos competidores e consegue, durante o percurso, reunir em torno de seu objetivo uma equipe semi-profissional para acompanhá-lo.

O que era para ser a realização de um sonho pessoal torna-se uma sensação nacional com a transmissão em rede de TV, paralelamente a realização do torneio oficial. Divertido na medida certa, A Grande Volta não se esquiva muito das maioria das produções cômicas de seu gênero, apresentando o tradicional final feliz do protagonista e a resolução de todos os seus conflitos, incluindo aí a confraternização com seu inimigo.

NOTA: 3/5

EU, MAMÃE E OS MENINOS (França, 2013) – Comédia sensação da atual temporada do cinema francês, o grande vencedor desse ano do César (o Oscar da França) já tem uma grande sacada já em seu título: uma referência a forma como a família de Guillaume chamava todos os meninos para o almoço. Mesmo sendo três irmãos, a homossexualidade visível de Guillaume não permitia que fossem chamados apenas por ‘mamãe e meninos’. Haveria de ter uma distinção de Guillaume de seus irmãos.

Construído como uma espécie de biografia da vida de Guillaume (vivido pelo talentosíssimo Guillaume Gallienne, de Maria Antonieta e Yves Saint Laurent, que também interpreta a mãe do protagonista, além de assinar a direção e o roteiro de Eu, Mamãe e os Meninos), cujos diálogos com sua mãe (sua grande inspiração) e as diversas passagens de sua vida, sobretudo os inúmeros bullyings que sofreu em sua adolescência, são mesclados entre as cenas propriamente ditas e o seu monólogo no teatro, construindo-se assim um híbrido entre longa-metragem e peça teatral. O longa ainda aborda sem nenhum receio todas as formas de preconceito possíveis para quem seja gay: na família (desaprovação do pai), na escola (a incompatibilidade geral com qualquer tipo de esporte) e no próprio meio GLS.

Muito mais comédia de situações, como se fosse uma sucessão de quadros de stand-up comedy, difícil explicar a quantidade de premiações recebidas pelo filme e o burburinho causado no público e crítica. Por mais que realmente seja divertido e tenha um ator com grande desenvoltura para ser o protagonista, não há como aceitar os seus prêmios. Ousado por brincar sem pudor com um tema tão em voga e tão debatido atualmente? Ok. Mas não podemos focar nesse aspecto em detrimento de outras obras bem mais complexas, cinematograficamente falando, que estiveram em cartaz nesse próprio festival.

Por outro lado, há a satisfação de se surpreender com a repentina alteração do rumo narrativo que o filme oferece em seu final, anulando (quase que completamente) tudo o que fora projetado até então. E com a maestria que só o cinema francês tem para deixar a conclusão da história para o seu público com uma conclusão abrupta. Mais uma em meio a tantas outras.

NOTA: 4/5

O AMOR É UM CRIME PERFEITO (França, 2013) – Uma hora esse momento teria que chegar. Um momento eu iria ver um filme abaixo da linha do razoável, que é justamente o que aconteceu com O Amor é um Crime Perfeito.

Marc (Mathieu Amalric, Cosmópolis e 007: Quantum of Solace) leciona literatura em uma universidade francesa ao mesmo tempo que coleciona uma infindável lista de casos amorosos com suas alunas. Menos por sua beleza e mais pelo seu charme e carisma. Algo tão corriqueiro para ele que mal se lembra o nome daquela com que passou a última noite, por exemplo.

Certo dia, uma bela mulher (Maïwenn, sim esse é o nome da atriz que pode ser vista também nos filmes Políssia e Alta Tensão) o procura na universidade, mas não com as intenções que gostaria. Ela está ali para obter mais informações a respeito de Barbara, enteada dela e aluna dele, que encontra-se desaparecida. Esse desaparecimento será o fio condutor de toda a narrativa.

Ao longo do filme conhecemos outras mulheres que fazem ou passam a fazer parte de sua vida. Como sua irmã Marianne (Karin Viard, também presente em Políssia e Aconteceu em Saint-Tropez) com quem divide uma casa em meio aos alpes franceses e que nutrem um amor e um ciúme surreal um pelo outro, muito além do que se espera num relacionamento entre irmãos, mesmo com o relacionamento dela com Richard (Denis Podalydès, O Código da Vinci e Caché), superior hierárquico de Marc na universidade. Em sala de aula surge uma nova aluna, Suzanne, que chega com uma obsessão  inexplicável por ele.

São justamente nesses diversos casos sexuais que O Amor é um Crime Perfeito não convence. Um grave erro ao percebemos que as grandes revelações do filme serão baseadas neles. Quando isso ocorre em tela, o impacto da surpresa não vem, simplesmente porque o roteiro não conseguiu estabelecer esses relacionamentos e seus desdobramentos da forma como deveria.

NOTA: 2/5





Breves & Curtas #9: Festival É Tudo Verdade | Campinas

28 04 2014

A mais nova edição do Breves & Curtas traz a nossa cobertura especial do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade em sua itinerância por Campinas. A passagem do festival pela cidade do interior paulista e nessa semana por Brasília (de 30/04 a 04/05) e por Belo Horizonte em julho, traz os vencedores e os principais destaques produções das edições integrais do É Tudo Verdade que ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro no início do mês.

Os nossos textos durante os três dias em que estivemos na capital paulista pode ser visto nos links a seguir: dia 01, dia 02 e dia 03.

Vamos conferir agora o que vimos em Campinas:

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HOMEM COMUM (Brasil, 2013)  Vencedor do prêmio CPFL Energia / É Tudo Verdade: Janela para o Contemporâneo (melhor documentário brasileiro de longa/média-metragem

Utiliza das semelhanças de dois filmes – o dinamarquês Ordet (1955) e o americano Life, the Dream (2012) – para moldar o retrato de vida de um caminhoneiro e sua família durante quase 20 anos. Uma mescla interessante entre o que é real e o que é ficção.

NOTA: 4/5

SOBRE A VIOLÊNCIA (Suécia, EUA, Dinamarca e Finlândia, 2014) – Uma análise da violência a partir do colonialismo e, principalmente, quando esta surge com a descolonização. Aqui, países como Zimbábue, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau são as grandes vítimas da opressão religiosa, militar, social e econômica dos países europeus, uma intervenção dizimadora de culturas.

Em troca de suas riquezas naturais, o povo explorado recebia miséria, pobreza, fome e desolação. Incisivo em suas denúncias, Sobre a Violência levanta outras questões interessantes: o prevalecimento de valores cristãos (tal como a supremacia do branco perante o negro) e do porquê as nações africanas não tiveram o seu devido ressarcimento tal qual as nações europeias após a expansão e extinção do nazismo no Velho Continente. Não se trata de uma questão financeira, mas sim de oferecimento de condições propícias ao próprio desenvolvimento da África: a lógica de menos comida e mais ferramentas.

O documentário de Göran Hugo Olsson ainda é corajoso em sua conclusão ao defender uma nova organização social mais humana, distanciando-se o máximo possível daquela propagada pelos europeus. Algo muito mais complexo do que a simples substituição do capitalismo pelo socialismo.

NOTA: 5/5

UM HOMEM DESAPARECE (Japão, 1967) – Um conturbado, complicado, burocrático e confuso documentário sobre uma única questão: por que, num país pequeno como o Japão, tantas pessoas desaparecem? A produção de Shohei Imamura persegue os passos de um homem que abandonando sua família e sua noiva.

A investigação tenta reconstruir os passos do desaparecido com as limitações tecnológicas da época sem nenhum registro eletrônico – seja de imagens de câmera ou de informações bancárias confiáveis.

Tudo é baseado 100% em entrevistas de testemunhas que por ventura tenham visto tal pessoa muito tempo depois dos fatos ocorridos. Um tempo o suficiente para que a memória apague qualquer detalhe mais preciso.

Embora entremos em contato com um lado desconhecido da sociedade japonesa (como a traição e a prostituição), a base da narrativa enfraquece completamente Um Homem Desaparece. Tanto pela mudança constante de foco da “investigação”, quanto pela perda de um longo tempo com discussões irritantes e banais entre acusado e acusador.

NOTA: 1/5

JASMINE (França, 2013) – Vencedor do prêmio de melhor documentário internacional de longa/média-metragem

Não foi só na política que França e Irã se relacionaram diretamente, uma vez que Paris foi refúgio do aiatolá Ruhollah Khomeini durante as Revolução Iraniana de 1979. Na mesma época e envolvendo os mesmos países está a história de amor entre o francês Alain e a iraniana Jasmine.

Para documentar esse conturbado relacionamento, que evoluiu e definhou tal como o estado político do Irã, entram em cena a leitura de cartas trocadas entre os dois, a animação em stop-motion (e seus bonecos de argila) e imagens de arquivo para registrar outra história de amor impossível. Mais uma entre tantas outras, mas contada de forma inesperada.

NOTA: 3/5

20 CENTAVOS (Brasil, 2014) – Com a transformação de celulares e smartphones em pequenas centrais de mídia, os protestos de junho de 2013 puderam ser vistos e compartilhados pelas redes sociais, onde coube a cada manifestante registrar em seu aparelho os gritos, os excessos da polícia, o vandalismo irracional de delinquentes encapuzados de uma manifestação plural e de múltiplos objetivos e interesses.

O documentário de 53 minutos de Tiago Tambelli nada mais é do que um apanhado geral dessas imagens (com uma qualidade melhor do que a de um celular), com poucos efeitos gráficos e envolto por trilha sonora. Apesar do ineditismo, de ser o primeiro produto audiovisual finalizado a menos de um ano dos protestos, a produção não acrescenta nada de novo aos olhos mais atentos que acompanharam a cobertura da mídia tradicional. Cobertura que utilizou fartamente dos aparelhos portáteis dos manifestantes.

NOTA: 2/5





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 03

19 04 2014

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OS INCOMPREENDIDOS (França, 1959) – Não tem como começar a falar de Os Incompreendidos sem citar sua cena inicial, que percorre as ruas centrais de Paris com a câmera sempre apontada para a Torre Eiffel. Uma das maiores demonstrações de amor à França já realizada pelo cinema.

Da mesma forma, temos que reconhecer os benefícios que a projeção digital traz aos filmes, principalmente os antigos. Os Incompreendidos, de François Truffaut filmado em 1959, ganha uma versão restaurada no novo formato, que realça ainda mais toda a beleza de sua fotografia em preto-e-branco.

Para sua época, Os Incompreendidos traz uma família extremamente moderna. A figura materna que cabe a atriz Claire Maurier (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Minhas Tardes com Margueritte) é extremamente independente, trabalhando fora para auxiliar no sustento da casa juntamente com o pai. O filho, Antoine (Jean-Pierre Léaud, Beijos Proibidos e Masculino-Feminino), também tem uma educação diferenciada e igualmente independente pois está ciente de seus afazeres domésticos e escolares.

A educação, no entanto, não acompanha a mesma modernidade do círculo familiar. Escolas separadas por sexo e professores severos com seus sistemas primitivos de punição aos alunos irrequietos. Um ambiente não recomendável para Antoine que (assim como a maioria das crianças na sua idade) gostava de desafiar as regras.

De lá para cá pouca coisa mudou na vida dos alunos (pré)adolescentes. O que mudou radicalmente, sim, foram os motivos que levavam os estudantes a burlar as aulas. As contravenções eram baseadas no compartilhamento de calendários de borracharia (e suas mulheres semi-nuas) ou os cinemas de rua da época ou, ainda, uma versão inicial do que seria hoje os parques de diversão. Tudo para, em seguida, a ausência do dia anterior ser justificada pela morte de algum membro familiar.

Nada que o protagonista temesse, nem mesmo a ameaça de ser transferido para um internato militar (muito mais severo que a sociedade externa em que vivia), o que fatalmente ocorreria. Sinal de que a rebeldia juvenil não é nenhuma novidade e nem  um comportamento recente, como já dizia Elis Regina: ”vivemos como nossos pais”.

NOTA: 5/5

LULU, NUA E CRUA (França, 2013) – Lucie (Karin Viard, Delicatessen e Políssia), mas pode chamar de Lulu, é uma mulher casada e com filhos que vive a crise da meia idade, não satisfeita com os rumos que sua vida tomou. Grande parte da responsabilidade por esses infortúnios é gerada pelo seu marido, um cara extremamente desrespeitoso com ela. Nem é preciso conhecê-lo para sabermos disso, uma simples ligação e a rispidez de sua voz já nos é suficiente.

Lulu demorou muito para lidar com toda essa situação até que decide, em certo ponto de sua vida, procurar um novo emprego longe de sua cidade. Nem há necessidade de mencionar a total ausência de apoio por parte da família. A desilusão dela é tanta que chega a entrar no banheiro masculino sem perceber.

Acostumada a ser submissa e desvalorizada a todo instante como pessoa, os percalços enfrentados quando decide dar uma guinada em sua vida não a incomodam nem um pouco. Com muita naturalidade que Lulu perde o seu trem de volta, não se aborrece quando tem o cartão do banco retido pelo caixa eletrônico e não tem dinheiro nem para se hospedar e muito menos para comer. Nada a abala.

Ela, porém, não enfrentará essas mudanças sozinhas. Outras pessoas a auxiliarão a se reencontrar consigo mesma e assim tornar-se alguém com mais amor próprio. Inclui-se aí Charles (Bouli Lanners, Ferrugem e Osso, A Grande Volta e Uma Juíza sem Juízo), exemplo clássico de praticidade e simplicidade (vide a cena do celular na praia) e seus dois irmão desajustados; Marthe (Claude Gensac, Ela Vai e 22 Balas), uma senhora cheia de energia apesar da idade, que ensinará que nunca é tarde para recomeçar; e reconhecerá aspectos muito semelhantes de sua vida em uma garçonete que é ridicularizada pela dona do restaurante em que trabalha.

Misturando a dramédia com situações típicas de obras de auto-ajuda, Lulu, Nua e Crua tem lá a sua mensagem positiva, mas sofre um pouco com o ritmo da narrativa, não ultrapassando a linha limite dos filmes razoáveis, aceitáveis, mas que rapidamente cairão no esquecimento.

NOTA: 3/5

UM BELO DOMINGO (França, 2013) – Já presente em nosso terceiro festival Varilux, é interessante observar o modo como o olhar contemporâneo do cinema francês recai sobre as questões contemporâneas da sociedade atual. Um tema bastante recorrente na cinematografia francófona retratando pessoas e/ou famílias em busca de seus sonhos. Um Belo Domingo é mais um excelente dessa constatação.

Baptiste (Pierre Rochefort, Adeus Minha Rainha e O Sequestro de um Heroi) desempenha sua função de professor substituto (naquele que seria o nosso ensino fundamental) com certa satisfação, lidando com muita facilidade com seus alunos. Nada fora do usual até que as aulas de sexta-feira acabem.

O jovem professor percebe que um de seus alunos, Mathias (o novato Mathias Brezot), ainda se encontra na porta da escola muito tempo depois de todos já terem ido embora. Baptiste, então, oferece uma carona até a casa do menino onde encontra o pai bon vivant, mais preocupado com seu carro luxuoso, com a beldade de sua namorada e na viagem deles para Mônaco do que com aquele fardo que acabara de chegar, também conhecido como ‘seu filho’. Ciente da situação constrangedora que se encontra e não visualizando nenhuma alternativa, Baptiste se voluntaria (mais uma vez) a ficar com o garoto durante o final de semana.

Assim, Mathias tem a oportunidade de viajar com o professor (em uma sugestão sua) para o litoral, local onde sua mãe, Sandra (Louise Bourgoin, Um Evento Feliz e A Religiosa), trabalha num quiosque de requinte à beira-mar. Conhecendo-a, Baptiste entra em mais um novo conflito, já que Sandra vem sendo cobrada constantemente de um empréstimo que fez recentemente.

Numa sucessão de problemas a serem resolvidos (algo também bastante comum no cinema da França), Baptiste terá que desenterrar o seu passado para conseguir auxiliá-la. Um passado que não queria desenterrar tão cedo.

NOTA: 5/5





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 02

13 04 2014

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SUZANNE (França, 2013) Suzanne e Maria (Adèle Haenel, Lírios D’Água e L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância)  foram criadas apenas pelo pai, Nicolas Merevsky (François Damiens, Tango Livre e A Delicadeza do Amor) após perderem a mãe precocemente. Por ser caminhoneiro e ser pai solteiro, não restam dúvidas de como essa criação foi difícil. Mas mesmo não tendo muitas condições, ele conseguiu com muita propriedade, conduzi-las a maturidade com valores éticos e educacionais muito bem construídos e assimilados. O forte vínculo existente entre as duas irmãs é um indício disso.

Mas nem todos os problemas puderam ser evitados e Suzanne (Sara Forestier, Ervas Daninhas e O Amor é Um Crime Perfeito) acaba engravidando. As diversas passagens de tempo apresentadas sempre após o surgimento de alguma dificuldade mostram que, apesar dos pesares, os três (agora quatro) sempre conseguiram solucioná-los.

Entretanto, Suzanne era sempre a garota do contra. Grande parte disso por ser mimada e protegida pela irmã quando havia uma desavença mais séria com o pai. Não bastasse a situação limitada em se encontravam, Suzanne passa a querer viver o grande amor da sua vida, quando já não havia nem espaço e nem condições para a aventura. Como complicação pouca é bobagem, o seu ‘príncipe encantado’, Julien (o novato Paul Hamy, de Ela Vai), acaba conduzindo a personagem-título para o mundo do tráfico de drogas, onde Suzanne entrava sem questionar nada e sem dar satisfação para a família.

O longa de Katell Quillévéré, que também assina o roteito, prova o seu valor ao não julgar seus personagens e nem determinar o que é condenável ou não. Decisão que desperta reações ambíguas no espectador: se em certa cena condenamos Julien e Suzanne pela inconsequência de suas atitudes, por outro lado, não podemos deixar de reconhecer que realmente há um amor existente entre eles, que sobrevive à distância, ao tempo e às situações.

Tristeza mesmo é Suzanne não perceber que quem realmente sofre com suas ações é sua família. Embora Maria acabasse sempre a defendendo, suportando fardos que não lhe pertenciam, era nítido o desgosto do pai para com a protagonista; Charlie, o primeiro filho dela, acabou sendo judicialmente adotado por outra família, pois tia e avô não tinham condições de criá-lo. E ao que parece, Suzanne não reconhecerá esse sofrimento tão cedo, se é que o reconhecerá.

NOTA: 4/5

O PASSADO (França, 2013) O iraniano Asghar Farhadi (A Separação) volta a lidar – com talento único – com o drama familiar. Uma trama sólida, complexa e difícil de se elucidar.

Mais denso que A Separação, O Passado (com seus vários ramos narrativos) também possui como questão central uma separação não concluída. Dessa vez Ahmed (Ali Mosaffa, Leila) retorna do Irã para finalizar o seu processo de divórcio com Marie (Bérénice Bejo, O Artista e A Datilógrafa), há mais de 4 anos separados. Mas nada é tão simples quanto parece: Marie mora com as filhas Léa (a pequena Jeanne Jestin) e Lucie (Pauline Burlet, Piaf – Um Hino ao Amor). A última, mais velha, não aceita o relacionamento da mãe com o novo namorado Samir (Tahar Rahim, O Príncipe do Deserto e O Profeta), pai do genioso Fouad (Elyes Aguis em seu primeiro longa), que também vivem com Marie.

A grande questão do longa está justamente em seu título. Cada personagem (com a exceção das crianças) traz consigo questões do passado em aberto que afetam diretamente o presente. A principal delas é a ex-esposa de Samir que está em estado de coma após tentativa de suicídio após a descoberta do caso extra-conjugal do marido. É em relação a esse grave incidente que todos (em maior ou menor grau) apresentam algum sentimento de culpa, mais baseado em suposições do que na verdade.

Inesperadamente, cabe a Ahmed o papel de articulador, e por conseguinte, solucionador desse conflito porque é o único personagem que consegue lidar facilmente com todos os envolvidos. E ele assume esse papel de apaziguador o tempo todo, com lucidez e serenidade incríveis, desde o momento em que pisa na casa de Marie até o momento em que parte novamente para o Irã.

NOTA: 5/5








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