ANÁLISE: Praia do Futuro

22 05 2014

Cabo Donato (Wagner Moura, Elysium e Tropa de Elite 1 e 2) trabalha como salva-vidas nas praias de Fortaleza até que, um dia, perde sua primeira vítima (um estrangeiro) para o mar. Tal fatalidade o aproxima do alemão Konrad (Clemens Schick, Círculo de Fogo [2001] e 007: Cassino Royale), amigo que viajava junto com o turista agora falecido.

Os dez dias de buscas que sucedem o ocorrido é o suficiente para a construção do relacionamento entre os dois homens. Uma construção rápida e brusca demais, já que uma simples carona já desencadeia a primeira transa entre os dois, mesmo logo após a fatalidade do afogamento. Por outro lado, a próxima cena traz o personagem de Wagner Moura observando as tatuagens do corpo do companheiro através da luz tênue do celular, suavizando o choque de transição entre os dois momentos. Enquanto isso, o diretor Karim Ainouz (diretor de O Céu de Suely e Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo)  utiliza do mesmo período para esmiuçar o relacionamento muito próximo que Donato possuía com seu irmão Ayrton (interpretado na infância pelo novato  Savio Ygor Ramos), abordando os momentos de descontração entre os dois.

Adotando uma questionável divisão em capítulos – que interfere levemente no ritmo e fluidez da história -, Praia do Futuro chega em um momento importante e decisivo para Donato: o retorno de Konrad para a Alemanha. Uma paixão que floresceu a partir de um infortúnio agora enfrenta novos desafios: abandonar ou não a família em Fortaleza? Seguir ou não o novo amor de sua vida, rumo à Europa? A resposta para essas duas questões vem no segundo ato elencado pelo roteiro, uma co-autoria de Karim com Felipe Bragança (que também assina o roteiro de Heleno e do documentário Girimunho). Primeiro, com as imagens de uma Berlim gélida e segundo, pela expressão contida de satisfação de Donato ao caminhar pelas ruelas da capital alemã numa atividade extremamente banal, corriqueira.

O que mais chama atenção no relacionamento entre os dois e que se intensificou ainda mais com a ida do brasileiro à Alemanha é a cumplicidade existente entre Konrad e Donato, méritos totais da atuação de seus respectivos atores Clemens Schick e Wagner Moura. Algo que nem a diferença de idiomas ou de cidades foi capaz de prejudicar, muito menos as mudanças de temperamento ou as discussões inerentes a qualquer namoro, seja ele homossexual ou não. Essa qualidade permite que tanto um quanto o outro se expressem muito sem dizer nada. Uma simples expressão, uma única troca de olhares é capaz de substituir uma sentença gramatical inteira. E o filme explora isso com muita eficiência, basta observar a escolha de locais vazios e silenciosos em que os dois discutem (um dia chuvoso em um parque, um almoço na cozinha ou um telhado), só existem eles ali e nada mais ou como Wagner Moura demonstra uma saudade do calor brasileiro ao parar por poucos segundos diante de frios raios solares berlinenses ao deixar determinado prédio.

Vale a pena destacar também outra cena que marca a desnecessidade que uma palavra seja dita, quando Donato resolve não desembarcar do metrô que o levaria para o aeroporto e daí de volta para o Brasil. Konrad só percebe a decisão quando o companheiro permanece imóvel e calado no banco. Uma decisão que assinala sua permanência definitiva no país europeu.

Se até aqui nada disso estava planejado para Donato, Ayrton, no Brasil, já tinha algo bem claro em mente: reencontrar o seu irmão. Uma determinação que ele coloca em prática muitos anos depois. Com a cara e coragem, Ayrton – agora mais velho e vivido por Jesuíta Barbosa (de Tatuagem e Serra Pelada) – chega a Berlim a procura de Donato, sabendo o básico da língua alemã e carregando consigo todo o ressentimento causado pela ‘fuga’ do irmão velho anos atrás. A raiva demonstrada no reencontro deles e o conhecimento exato do ano, meses e dias que se passaram desde a morte da mãe deles são a prova disso.

Revisitando e relembrando traumas de infância do caçula, Donato realiza seu desejo de mostrar ao irmão uma praia na cidade onde a maré recua para que Ayrton possa, assim, ‘entrar’ no mar sem temer a água e contando com o auxílio (leia-se reaproximação) de Konrad para amenizar a relação entre os ditos Aquaman e Speedracer – codinomes de uma brincadeira fraterna -, nada mais são do que alternativas para que Donato consiga, enfim, sentir-se realizado em Berlim, recompensando os erros cometidos no passado. O futuro? Será incerto, tal qual a neblina da cena final que esconde o prolongamento da autoestrada numa curva qualquer.

NOTA: 4/5





39º Festival SESC de Melhores Filmes – Programação 2013

31 03 2013

Está chegando mais uma edição do Festival SESC de Melhores Filmes. Uma retrospectiva super bacana do Cinema que traz uma ótima oportunidade de você ver aquele filme que passou batido em 2012.

A programação em Campinas, a exemplo do ano passado, ocorrerá novamente no complexo Topázio Cinemas instalado no Shopping Prado e serão duas sessões diárias as 19h00 e 21h30 de 05 a 14 de abril, com exceção com a sessão de abertura do festival com o longa brasileiro Febre de Rato, que ocorre quarta (dia 03) as 20 horas.

FESTIVAL SESC DE MELHORES FILMES – PROGRAMAÇÃO 2013 (Campinas)

QUARTA-FEIRA (03/04) – SESSÃO DE ABERTURA 

  • 20h00 – Febre de Rato

SEXTA-FEIRA (05/04)

  • 19h00 – O Homem que não Dormia
  • 21h30 – Cara ou Coroa

SÁBADO (06/04)

  • 19h00 – A Separação
  • 21h30 – Intocáveis

DOMINGO (07/04)

  • 19h00 – Vou Rifar meu Coração
  • 21h30 – Holy Motors

SEGUNDA-FEIRA (08/04)

  • 19h00 – Era Uma Vez Eu, Verônica
  • 21h30 – 007 – Operação Skyfall

TERÇA-FEIRA (09/04)

  • 19h00 – Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios
  • 21h30 – As Aventuras de Pi

QUARTA-FEIRA (10/04)

  • 19h00 – Xingu
  • 21h30 – Um Alguém Apaixonado

QUINTA-FEIRA (11/04)

  • 19h00 – Raul – O Início, o Meio e o Fim
  • 21h30 – Drive

SEXTA-FEIRA (12/04)

  • 19h00 – Entre o Amor e a Paixão
  • 21h30 – Hotel Transilvânia

SÁBADO (13/04)

  • 19h00 – Dois Coelhos
  • 21h30 – Girimunho

DOMINGO (14/04)

  • 19h00 – Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge
  • 21h30 – A Invenção de Hugo Cabret

Para mais informações sobre o Festival ou para obter a programação completa de sua cidade acesse: http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/






ANÁLISE: Girimunho

17 04 2012

Girimunho é um retrato fiel do pobre, carente e humilde povo do interior de Minas Gerais, representado aqui por Bastú, uma senhora de idade avançada que vem a perder Feliciano, seu companheiro de longa data.

A morte do marido, que já tinha seus problemas com o álcool, é encarada com certo ceticismo, para não dizer indiferença pela companheira, atitude decorrente de sua experiência de vida que deixa as pessoas mais calejadas para a aceitação plena de mais uma passagem da vida. A consternação com a perda fica restrita aos netos.

Passamos então a acompanhar o cotidiano dessa senhora perspicaz e inteligente, mesmo com a ausência de ensino. Natural que a produção dê à narrativa a mesma velocidade que o tempo tem nessas cidades interioranas – a impressão de que ele não passa. Isso ganha mais destaque quando o desenvolvimento da história baseia-se na interação de dona Maria e sua neta Branca. Uma cena que simboliza muito bem a lenta passagem do tempo é aquela em que a câmera focaliza, por instantes, uma porção de folhas ao vento e quase não há alteração na disposição delas ao chão.

Nós, espectadores, somos apenas observadores passivos nessa história. A câmera na maioria das vezes está totalmente estática. Mesmos nas externas ou dentro dos humildes cômodos da senhora, cenário principal do longa, a história parece deslizar pelas lentes, como se elas já fizessem parte daquele local. Poucas vezes a câmera se move espontaneamente e suas maiores movimentações ocorrem quando está afixada em algo móvel, como uma canoa ou um ônibus. Interessante nesse último caso que ao mesmo tempo em que as imagens tem uma função narrativa, ou seja, indicar o deslocamento de Bastú e sua neta até a cidade vizinha, temos também um panorama da região onde elas residem. A pobreza, a simplicidade e o isolamento da região, com uma estrada de terra vermelha deserta e todo envolta por vegetação, ficam ainda mais evidentes.

Acreditando que seu falecido marido esteja a rondando, extremamente comum no imaginário popular nessas regiões, dona Bastú se desfaz das roupas de Feliciano, realizando para tanto uma pequena ‘aventura’ pessoal até um rio da região, deixando que as águas deste levem os pertences do velho companheiro. Uma cena muito tocante ao colocar a silhueta solitária da frágil senhora em meio a uma ampla paisagem selvagem, ainda pouco tocada pelo homem.

Mesmo distante de qualquer facilidade proporcionada pelo ambiente urbano, Branca ainda permite-se sonhar e com muito esforço concluir um curso de enfermagem, não antes, é claro, de se cercar de todos os detalhes a respeito dos cuidados para com sua avó.

Dessa forma, Girimunho se encerra com uma proposta narrativa simples, adequando-se ao objetivo em sua abordagem. Não poderíamos esperar muito além disso até porque como foi falado, pouca coisa se altera nesse cenário e também não seria diferente na vida de dona Bastú.

NOTA: 5/5





38º Festival Sesc de Melhores Filmes

3 04 2012

Os melhores filmes que estrearam ao longo do ano de 2011 voltam à telona na 38ª edição do Festival Sesc Melhor Filmes 2012, o festival de cinema mais tradicional de São Paulo. Mais uma alternativa de conferir os filmes mais comentados do ano passado e que você deixou passar em branco!

Com ingressos promocionais a R$ 4,00, o festival ocorre simultaneamente em 16 cidades do interior mais capital. Este ano, a abertura do festival ficará por conta do documentário inédito Girimunho, nessa quarta-feira, dia 04 de abril. A programação continuará de11 a 19 de abril, sempre exibindo, diariamente, três filmes diferentes a partir das 16 horas.

As exibições em Campinas ocorrerão no Topázio Cinemas localizado no Shopping Prado. Locais de realização do festival nas demais cidades podem ser conferidas no site www.sescsp.org.br/melhoresfilmes .

PROGRAMAÇÃO

(QUA) 04/ABR – SESSÃO ABERTURA: Girimunho, 19h30

(QUA) 11/ABR

  • 16h00O Palhaço
  • 18h00 Bróder
  • 20h00 Melancolia

 

(QUI) 12/ABR

  • 16h00 Riscado
  • 18h00 As Canções
  • 20h00 Bahêa Minha Vida

(SEX) 13/ABR

  • 16h00 Lola
  • 18h00 O Garoto da Bicicleta
  • 20h00 Saturno em Oposição

(SÁB) 14/ABR

  • 16h00 Um Gato em Paris
  • 18h00 Rock Brasília – A Era de Ouro
  • 20h00 Medianeras

(DOM) 15/ABR

  • 16h00 O Mágico
  • 18h00 Triângulo Amoroso
  • 20h20 Poesia

(SEG) 16/ABR

  • 16h00 Diário de uma Busca
  • 18h20 Estamos Juntos
  • 20h20 Cópia Fiel

(TER) 17/ABR

  • 16h00 Cisne Negro
  • 18h20 Trabalhar Cansa
  • 20h20 Um Conto Chinês

(QUA) 18/ABR

  • 16h00 Bruna Surfistinha
  • 18h20 A Pele que Habito
  • 20h20 Homens e Deuses

(QUI) 19/ABR

  • 16h00 Feliz que Minha Mãe Esteja Viva
  • 18h00 Meia-noite em Paris
  • 20h00 Árvore da Vida

Maiores informações:

www.topaziocinemas.com.br

www.twitter.com/topaziocinemas

www.sescsp.org.br/melhoresfilmes










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Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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