ANÁLISE: O Voo

17 02 2013

CORRIDA DE OURO – OSCAR 2013

Antes de mais nada e pelo visto aqui em O Voo, Robert Zemeckis (O Expresso Polar e Os Fantasmas de Scrooge) deveria voltar a fazer mais filmes em live-action. Nesse thriller de ação, Zemeckis não só constroi um dos melhores do gênero como também conta com um excelente elenco em mãos para fazer sua história fluir.

O roteiro, por sua vez, não perde tempo em nos apresentar o perfil de seu personagem chave, Whip Whitaker (Denzel Washington, Chamas da Vingança e Dia de Treinamento): a nudez da mulher com quem passou a noite o torna galanteador; a discussão pelo celular sobre a mensalidade escolar do filho com a ex-mulher põe um casamento fracassado anterior a esses fatos e os vícios legais (álcool) e ilegais (cocaína) revelam o drama principal da trama. Se tais hábitos já são nocivos a uma pessoa comum, o caso fica ainda mais grave quando a pessoa em questão é um piloto que assumiria, em poucas horas, o controle de um avião comercial de grande porte.

Um grave incidente com aeronave, entretanto, coloca em cheque a perícia do comandante Whitaker e Zemeckis escolhe abordar o acidente do ponto de vista interno do avião ao invés de explorar a exaustão os efeitos especiais da queda do avião pelo lado de fora, o que confere mais intensidade dramática a sequência. Mesmo salvando a grande maioria das 102 vidas a bordo (quatro passageiros e dois tripulantes vieram a falecer), o exame toxicológico pós-acidente apontara traços de álcool e cocaína no sangue do piloto. E de fato o capitão consumira, audaciosamente a bordo, ainda duas garrafinhas de vodca misturada a um suco.

Conforme vai sofrendo a pressão das acusações do tribunal, das autoridades aéreas americanas e da imprensa sensacionalista – o que intensifica ainda mais seus vícios, Whitaker ainda se envolve com a drogada em recuperação Nicole (a jovem Kelly Reilly, presente nos dois últimos Sherlock Holmes de Guy Ritchie). Embora ela funcione em contraponto a Whip em relação a luta contra a dependência química, Nicole jamais foi uma forte razão para que o mesmo abandonasse os vícios. Se a sua família (incluindo aí um filho adolescente), nem mesmo o processo em andamento movido contra ele foram motivos suficientes, não seria a força de vontade da jovem que o faria abandonar as drogas e a bebida.

Uma participação especial (nem podemos considerá-la como subtrama) que rende ótimos momentos em O Voo é a que envolve a presença de John Goodman (Curvas da Vida e O Artista). Um ator extremamente carismático, evidente por exemplo com a sua participação na série da HBO, Treme, Goodman aqui é Harling Mays, uma espécie de fornecedor (em regime de plantão) de cocaína para Whitaker.É Harling Mays quem ajuda a construir um dos momentos mais bem-humorados da trama ao gritar irritado: “Não toque na mercadoria!”. Graças a sua ‘prestação de serviços’ que o advogado de Whitaker e o representante dos sindicatos se safam de uma vergonha colossal no dia do julgamento. Logo após o auxílio de Mays, não há como segurar o riso na cena durante o elevador, quando toca ao fundo e em instrumental a música dos Beatles With Little Help From My Friends, que é justamente o que acabara de ocorrer.

Mesmo apresentando bom humor e explorando muito bem o problema dos vícios de Whitaker, a produção de Zemeckis falha em inserir o drama familiar na trama principal, perceptível pelo enfraquecimento que a narrativa sofre quando o comandante vai visitar sua ex-esposa e o filho, cujas participações são totalmente desnecessárias. O mesmo ocorre quando o roteiro de John Gatins (roteirista de Coach Carter- Treino para a Vida e Sonhadora) quer adotar uma postura série abordando a religião, desenvolvendo brandamente a história do co-piloto Ken Evans (Brian Geraghty, Guerra ao Terror e Soldado Anônimo), onde expõe, mas não conclui: se apoia ou se escracha o idealismo religioso. Por outro lado, jogar a responsabilidade em cima dos ombros de Denzel Washington nunca é demais em O Voo e o ator interpreta muito bem a dualidade do caráter do piloto diante das diversas armadilhas que trama apresenta ao seu personagem.

A concretização, assim como todo o filme, também tem seus altos e baixos. Se pelas entre-linhas da lei o piloto poderia sair impune perante a Justiça, Whitaker decide conscientemente, assumir toda a sua culpa. Mas o que seria uma finalização digna para toda a projeção até aqui, a teimosia em inserir o filho na história solitária do pai acaba apelando para um sentimentalismo piegas e desnecessário. Se O Voo não tentasse transmitir seriedade e se concentrasse mais no seu principal propósito, a diversão, seria um filme ainda melhor!

NOTA: 4/5





ANÁLISE: Argo

11 02 2013

CORRIDA DE OURO – OSCAR 2013

O terceiro longa-metragem dirigido por Ben Affleck (Atração Perigosa e Medo da Verdade foram o anteriores) inicia-se com uma retrospectiva política da região onde o império Persa prosperara e que hoje abriga a República Islâmica do Irã. Um contexto histórico importante para situar o espectador nessa narração baseada em fatos reais.

O Argo do título refere-se a produção fictícia de Hollywood concebida apenas para ajudar o governo dos EUA a resgatar um grupo de seus diplomatas em solo iraniano. A premissa do filme de ser uma ficção científica justificaria a necessidade de se usar as paisagens iranianas como pano de fundo para a sua história, sendo esse o plano de resgate dos seis diplomatas lá isolados, o único com remotas chances de sucesso. O risco de morte desses profissionais era iminente, uma vez que os EUA cedera asilo político ao religioso xiita, aiatolá Sayyid Khomeini, desencadeando uma grande onda de protestos civis dos iranianos, tendo tais funcionários da embaixada como alvo.

Toda a introdução de Argo ocorre com uma mescla de cenas próprias do filme e imagens de arquivo perceptíveis não só pela clara diferença de qualidade entre elas, mas também pelo aspecto de formato da tela que se altera entre o uso delas. Interessante observar esse contraste entre as imagens históricas e aquela de ficção onde notamos um bem-vindo preciosismo da direção de Ben Affleck, o que confere claramente uma notável verossimilhança de sua produção.

Enquanto o longa sustenta esse lado político, sua história ainda consegue flertar com o lado comercial de Hollywood fazendo críticas moderadas ao modus-operandi dos grandes estúdios, desde aquela época e se estendendo até os dias de hoje. Se há uma grande burocracia antes de dar o ponta-pé inicial das filmagens, passando pelo crivo dos grandes executivos, ainda podemos notar o lado mesquinho da imprensa especializada em criar um grande burburinho em torno de um evento qualquer para fins estritamente comerciais como algumas cifras vultuosas envolvidas. Se temos tal comportamento para promover um filme fictício em todos os seus sentidos, imagina-se o que ocorre nas reais produções hollywoodianas…

Sendo asilados na casa do embaixador canadense, os seis americanos alvos do resgate vivem continuamente o medo de serem descobertos a qualquer momento. Seja pela desconfiança dos rebeldes que, desde que invadiram a embaixada dos EUA, tentam remontar um verdadeiro quebra-cabeças dos arquivos sigilosos destruídos pelos funcionários antes da invasão; seja também pela desconfiança dos empregados do embaixador canadenses onde eles estão confinados com comentários do tipo: “parece que eles não saem nunca de lá!” ou ainda a falha na tentativa de resgatá-los, que a todo momento parece prestes a desmoronar.

Com um ritmo que não empolga em quase toda a sua duração, mesmo testemunhando um plano deveras engenhoso, Argo só assume seu perfil de thriller político a partir do momento em que a equipe cinematográfica adentra no Irã. Aí sim somos acometidos por uma angústia sem fim com o cerco se fechando sobre os diplomatas porque os rebeldes vão amarrando as pontas soltas e passam a evitar a fuga dos americanos a qualquer custo. E esse suspense só termina quando o avião em que todos embarcaram deixa o espaço aéreo iraniano.

Além de adotar a fascinante estrutura do filme dentro do filme (embora isso ocorra aqui em menor grau), Argo também abre espaço para grandes talentos das telonas e telinhas: John Goodman impecável em todos os seus trabalhos com grande destaque para a série da HBO, Treme; Alan Arkin que tem uma lista repleta de bons trabalhos – Marley & Eu, Pequena Miss Sunshine, entre outros; e o competente Kyle Chandler das séries Early Edition e Friday Night Lights e dos filmes Super 8 e do inédito A Hora mais Escura.

NOTA: 3/5








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Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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