Mostra Internacional de Cinema SP 2014 | parte 3

26 10 2014

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NABAT (Azerbaijão, 2014) – Antes de tudo, essa mulher é uma verdadeira guerreira. Com o marido Isgender adoentado, Nabat assume a tarefa que mantem a humilde casa em que vivem: ordenhar diariamente a vaca (a única posse expressiva que possuem) e levar o leite até a vila mais próxima (mas distante) para o responsável que fará a venda efetiva do produto. Essa é a tarefa retratada pelo longo e belíssimo plano-sequência que abre a produção, retratando uma tortuosa, íngreme, irregular e comprida estrada de terra percorrida todos os dias por esta senhora.

Se as circunstâncias dificultam e muito a vida de Nabat, barulhos incessantes de explosões ecoam do outro lado das montanhas que cercam o local, anunciando a proximidade de uma guerra. Os dois perderam o filho no conflito e pelo mesmo motivo também eles ficam totalmente isolados a medida que os moradores vão abandonando o vilarejo. Solidão que se agrava com a morte do marido. Emocionante acompanhar os esforços dela para enterrá-lo sob a chuva e, em seguida, notável a cena da silhueta negra de Nabat, da vaca e carroça ao horizonte num entardecer espetacularmente amarelo.

Nabat conta com elegantes movimentos de câmera enquanto testemunha o sofrimento de uma mulher que se mantem presa às atividades que se repetem, se repetem e se repetem: todos os dias a senhora percorre a mesma estrada para acender as lamparinas nas janelas das casas abandonadas, uma sugestão feita pelo finado marido para afastar os animais selvagens dali. Algo que faria e fez até o fim de sua vida.

NOTA: 5/5

JIA ZHANGKE, UM HOMEM DE FENYANG (Brasil, 2014) – O documentário brasileiro vai até a China revelar os bastidores e as inspirações de Jia Zhangke na produção de seus filmes, uma das mais importantes cinematografias chinesas.

Com a inclusão de várias cenas de seus longas (como Plataforma, Um Toque de Pecado, Em Busca da Vida, Dong, entre outros), a produção constrói um importante gancho para a realização das entrevistas que ocorrem no mesmo local das locações, trazendo amigos, familiares e parceiros dos sets de filmagem de longa data. O mesmo ocorre nos locais por onde o cineasta chinês cresceu (uma antiga prisão de Fenyang que foi transformada em uma série de moradias), viveu (um bairro inteiro a ser demolido devido ao ímpeto imobiliário da China) ou estudou (a admiração que os estudantes da Academia de Belas-Artes na China).

O documentário de Walter Salles capta muito bem a humildade de seu homenageado que não assume a áurea do estrelato mesmo ciente da sua importância para o Cinema, tanto chinês quanto mundial, e retorna com muita simplicidade às origens da sua vida, lidando novamente com as pessoas que o auxiliaram, artística e tecnicamente, em sua carreira. A produção, no entanto, ganharia mais ritmo se algumas cenas fossem encurtadas ou até mesmo excluídas da versão final.

NOTA: 3/5

ILUSÃO (Espanha, 2013) – Daniel Castro é um roteirista (ou um vendedor de ilusões) que ainda não emplacou nenhum projeto importante no cinema, dispensa qualquer trabalho que a televisão possa lhe oferecer devido à má qualidade dos programas ali apresentados e extremamente mimado! Sem nenhuma fonte de remuneração em vista, ele considera muito mais fácil pedir dinheiro emprestado para os pais (até a partir do momento em que estes se recusam a ajuda financeira) e prefere que sua namorada arque com as despesas do aluguel do apartamento em que vivem. Tudo em nome de sua liberdade criativa.

Liberdade que Daniel tem até demais, perdendo a noção do ridículo na hora de escrever e apresentar os seus trabalhos. Ilusão até que consegue fazer algumas graças como a implicância do protagonista com a filmografia de Michael Haneke ou ao citar a obsessão de James Cameron com 3D. Mas todas as outras piadas são tolas e provocam um risinho de canto de boca.

Nem a história em si que preenche os seus (felizmente) poucos 70 minutos atinge lá um grau de originalidade, previsível desde o seu segundo ato. A torcida durante a sessão é para que o filme seja objetivo o suficiente para resolver a sua história o mais breve possível. Pelo menos isso ele consegue.

NOTA: 2/5

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O consumo (e a produção) via streaming

6 07 2014

O streaming, com a ajuda de conexões à internet cada vez mais rápidas, tornou-se uma importante ferramenta de difusão de obras audiovisuais. Por um pequeno valor mensal todo mundo pode ter acesso a um catálogo praticamente infinito de séries e filmes para assistir on-demand, sem a necessidade de downloads e nem ocupar espaço no HD do computador. Um televisor devidamente equipado e uma rede de Wi-Fi em casa faz com que a experiência seja irresistível.

Não é a toa que o sucesso do serviço via streaming seja tão grande, vide o sucesso daquele que melhor representa esse novo modo de consumir vídeos do espectador moderno: o Netflix. A empresa americana deixou de ser uma mera plataforma de exibição de filmes e séries para entrar de vez (e com muita qualidade) no mercado de realizadore. Suas produções quebraram barreiras e conquistaram espaço e troféus em premiações destinadas, antigamente, à televisão e o cinema.

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Suas séries originais House of Cards, Orange is the New Black, Hemlock Grove e Derek arrebatam fãs nos países onde o serviço está disponível. Outros fãs são eternamente gratos ao Netflix, que ajudou a desenterrar seriados que tiveram suas produções canceladas pela TV, como é caso de Arrested Development e The Killing. Há quem diga também que Breaking Bad só ganhou notoriedade e sobrevida na TV americana quando a mesma foi inserida e popularizada pelo catálogo do Netflix. Se tudo isso ainda não é o bastante, o site passou a investir também na produção de animês, tendo como primeira experiência nessa área, Knights of Sidonia, disponibilizado recentemente.

Mas você ainda está relutante com essa história toda de “assistir coisas on-line”? Pois o Universo E! tem uma valiosa dica para você experimentar esse mundo novo da internet, e de quebra, ter acesso a cinco filmes consagrados no Festival de Cannes. Uma parceria entre o Telecine Play (o serviço de streaming dos canais Telecine) e a cerveja Stella Artois (patrocinadora oficial de Cannes) disponibilizam gratuitamente cinco filmes que foram sucesso no mais charmoso festival de cinema do mundo.

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Através desse link, http://telecineplay.com.br/especial/cannes, você poderá assistir os seguintes filmes:

  • Cosmópolis, de David Cronemberg, com Robert Pattinson e Juliette Binoche.
  • Amor, de Michael Haneke, com Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant e Isabelle Huppert. Vencedor do Oscar e Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 2013 e da Palma de Ouro do Festival de Cannes.
  • Vingança, de Johnnie To.
  • O Homem da Máfia, de Andrew Dominiki, com Brad Pitt, James Gandolfini e Ray Liotta.
  • Melancolia, de Lars von Trier, com Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland e Kirsten Dunst, que recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.




ANÁLISE: Amor

14 02 2013

CORRIDA DE OURO – OSCAR 2013

A nova produção de Michael Haneke (A Fita Branca e Violência Gratuita) conta a história de George e Anne Laurent, um casal há muito tempo casado e sem maiores preocupações na vida. Já contribuíram muito para a sociedade em que vivem e a filha, adulta e bem casada, não necessita mais da atenção ou dos cuidados deles.

O nosso primeiro contato com o cotidiano deles é a apresentação de concerto. Uma audiência lotada contemplando, metaforicamente, a audiência real, daqui de fora. Se não deixei nada passar, essa é a única cena não ambientada na casa dos Laurent. Amor, daqui por diante, se concentrará apenas e somente neles.

O longo tempo dividindo o mesmo teto revela um conhecimento muito profundo um do outro e demonstrado perfeitamente pelas interpretações de Jean-Louis Trintignant (A Fraternidade é Vermelha e O Conformista, com 82 anos de idade) e Emmanuelle Riva (Hiroshima Meu Amor e A Liberdade é Azul, completando 86 anos agora dia 24 de fevereiro, dia do Oscar!). Uma simples conversa passa para uma discussão sem alternância alguma no tom de voz ou alguma outra expressão de nervosismo. Claro sinal do tempo de convivência muito bem interpretado por eles e resultado do sentimento empregado para dar nome a produção.

É numa conversa, aliás, que se inicia todo o drama de Amor. Durante uma refeição, Anne sofre uma crise e fica imóvel diante da mesa, não respondendo aos estímulos e nem as perguntas de George. Percebendo a gravidade da situação, ele se prepara para pedir ajuda com a velocidade que a sua idade lhe permite. Aqui temos a marca registrada de Michael Haneke que sempre opta por uma câmera estática apontada para um único cômodo (ou corredor) da casa, enquanto os personagens ou o som (na maioria das vezes) se encarrega de dar continuidade a trama. O som da torneira aberta, nesse caso, assume a função de anunciar o fim da crise de Anne. Ao menos por enquanto.

A situação desse velho casal muda radicalmente quando uma cirurgia para o desentupimento da artéria carótida não é satisfatória e Anne, como sequela, tem todo o lado direito do corpo paralisado. A partir desse momento sai a elegância com que Haneke monta seus filmes para apreciarmos e chorarmos com a brilhante performance de Emmanuelle Riva. Jean-Louis, por sua vez, desempenha um papel fundamental em mostrar a dificuldade de adaptação de George a nova realidade onde sua esposa depende totalmente dele. Se a situação já não é séria o bastante, ele também tem que enfrentar o pessimismo dela com a própria situação ao acreditar se tornar um fardo pesado de se carregar agora.

Mesmo com todos os contra-tempos, George se mantem irremediável para que não haja alteração alguma na rotina do dia-a-dia dos dois, ou seja, para que não haja interferência e/ou presença de terceiros dentro de casa. Seja pela promessa feita de não levá-la à algum hospital ou clínica, seja por simplesmente não existir outra alternativa que sem colocá-los numa situação degradante. Mas não por muito tempo, já que a situação de Anne só piora com o passar dos dias. Quando uma das enfermeiras profissionais contratadas afirma que a lamentação “doi… doi… doi” dela seja apenas um reflexo comum as pessoas nesse estado, nos perguntamos: até que ponto isso é verdadeiro? Isso ocorre nesse caso?

Não há como descrever como os dois atores conseguem construir, dosar e controlar toda a intensa carga emocional de Amor. E não há dúvida que isso só venha com a experiência (e ambos tem uma extensa filmografia) para que possam assumir, destemidamente, tantos ápices dramáticos. Por isso, concordamos plenamente com a indicação de Emmanuelle Riva ao Oscar (a atriz mais velha a ser indicada, diga-se de passagem) e será inaceitável que ela saia das cerimônias de mãos vazias depois de testemunharmos o agravamento do estado de saúde de sua personagem. Para ficarmos num único exemplo, podemos citar a sequência quando, já bastante debilitada, Anne recebe a visita da filha – mas pode chamá-la de monstro – Eva (Isabelle Huppert, A Professora de Piano e Huckabees – A Vida é uma Comédia) e não consegue mais dialogar com as pessoas ou construir raciocínios e em nenhum momento é interrompida pela diabólica filha, mesmo essa presenciando tamanha dificuldade da mãe.

De forma alguma o trabalho de Jean-Louis deve ser desprezado. Principalmente porque é de George que vem os momentos mais fortes, dramáticos e arrebatadores de Amor. Resultado de um esforço hercúleo de cuidar da esposa e de não aceitar que a mesma desista de viver antes mesmo que ele desista dela como, fatalmente, vem a ocorrer. Só de relembrar e escrever tal passagem voltam a dor e o aperto no coração. Uma das cenas mais fortes e tocantes já realizadas pelo Cinema!

Assim, muito mais do que o amor, Michael Haneke constrói um drama que evidencia como tal sentimento, através da passagem do tempo, pode se tornar uma das mais fortes ligações invisíveis entre dois seres humanos. E como o amor, somente o amor, pode enfrentar e resistir as mais duras e cruéis barreiras impostas pela vida.

NOTA: 5/5








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