Festival Varilux de Cinema Francês | parte 02

13 04 2014

fvcf2014

SUZANNE (França, 2013) Suzanne e Maria (Adèle Haenel, Lírios D’Água e L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância)  foram criadas apenas pelo pai, Nicolas Merevsky (François Damiens, Tango Livre e A Delicadeza do Amor) após perderem a mãe precocemente. Por ser caminhoneiro e ser pai solteiro, não restam dúvidas de como essa criação foi difícil. Mas mesmo não tendo muitas condições, ele conseguiu com muita propriedade, conduzi-las a maturidade com valores éticos e educacionais muito bem construídos e assimilados. O forte vínculo existente entre as duas irmãs é um indício disso.

Mas nem todos os problemas puderam ser evitados e Suzanne (Sara Forestier, Ervas Daninhas e O Amor é Um Crime Perfeito) acaba engravidando. As diversas passagens de tempo apresentadas sempre após o surgimento de alguma dificuldade mostram que, apesar dos pesares, os três (agora quatro) sempre conseguiram solucioná-los.

Entretanto, Suzanne era sempre a garota do contra. Grande parte disso por ser mimada e protegida pela irmã quando havia uma desavença mais séria com o pai. Não bastasse a situação limitada em se encontravam, Suzanne passa a querer viver o grande amor da sua vida, quando já não havia nem espaço e nem condições para a aventura. Como complicação pouca é bobagem, o seu ‘príncipe encantado’, Julien (o novato Paul Hamy, de Ela Vai), acaba conduzindo a personagem-título para o mundo do tráfico de drogas, onde Suzanne entrava sem questionar nada e sem dar satisfação para a família.

O longa de Katell Quillévéré, que também assina o roteito, prova o seu valor ao não julgar seus personagens e nem determinar o que é condenável ou não. Decisão que desperta reações ambíguas no espectador: se em certa cena condenamos Julien e Suzanne pela inconsequência de suas atitudes, por outro lado, não podemos deixar de reconhecer que realmente há um amor existente entre eles, que sobrevive à distância, ao tempo e às situações.

Tristeza mesmo é Suzanne não perceber que quem realmente sofre com suas ações é sua família. Embora Maria acabasse sempre a defendendo, suportando fardos que não lhe pertenciam, era nítido o desgosto do pai para com a protagonista; Charlie, o primeiro filho dela, acabou sendo judicialmente adotado por outra família, pois tia e avô não tinham condições de criá-lo. E ao que parece, Suzanne não reconhecerá esse sofrimento tão cedo, se é que o reconhecerá.

NOTA: 4/5

O PASSADO (França, 2013) O iraniano Asghar Farhadi (A Separação) volta a lidar – com talento único – com o drama familiar. Uma trama sólida, complexa e difícil de se elucidar.

Mais denso que A Separação, O Passado (com seus vários ramos narrativos) também possui como questão central uma separação não concluída. Dessa vez Ahmed (Ali Mosaffa, Leila) retorna do Irã para finalizar o seu processo de divórcio com Marie (Bérénice Bejo, O Artista e A Datilógrafa), há mais de 4 anos separados. Mas nada é tão simples quanto parece: Marie mora com as filhas Léa (a pequena Jeanne Jestin) e Lucie (Pauline Burlet, Piaf – Um Hino ao Amor). A última, mais velha, não aceita o relacionamento da mãe com o novo namorado Samir (Tahar Rahim, O Príncipe do Deserto e O Profeta), pai do genioso Fouad (Elyes Aguis em seu primeiro longa), que também vivem com Marie.

A grande questão do longa está justamente em seu título. Cada personagem (com a exceção das crianças) traz consigo questões do passado em aberto que afetam diretamente o presente. A principal delas é a ex-esposa de Samir que está em estado de coma após tentativa de suicídio após a descoberta do caso extra-conjugal do marido. É em relação a esse grave incidente que todos (em maior ou menor grau) apresentam algum sentimento de culpa, mais baseado em suposições do que na verdade.

Inesperadamente, cabe a Ahmed o papel de articulador, e por conseguinte, solucionador desse conflito porque é o único personagem que consegue lidar facilmente com todos os envolvidos. E ele assume esse papel de apaziguador o tempo todo, com lucidez e serenidade incríveis, desde o momento em que pisa na casa de Marie até o momento em que parte novamente para o Irã.

NOTA: 5/5

Anúncios




Festival Varilux de Cinema Francês 2013 | parte 1

11 05 2013
  • Resenhas  dos filmes vistos durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2013 em Campinas de 03 a 09 de maio

cabeçalho cinefrances

O MENINO DA FLORESTA – Podemos considerar O Menino da Floresta a versão francesa para o clássico Mogli – O Menino Lobo, reservadas, claro, suas diferenças. Aqui temos um garotinho habituado a vida selvagem na floresta ao lado seu velho pai (com a voz de Jean Reno, da animação Por Água Baixo e O Código da Vinci). Seja caçando, seja brincando ou ‘conversando’ com seres misteriosos, meio animais meio humanos, no interior da mata cuja simbologia é explicada durante o filme.

O grande mote da animação, no entanto, é revelar os motivos que levaram o pai a se isolar na mata junto com o filho. Isso porque a raiva e o pavor que o pai revela ter quando o filho menciona o simples desejo em sair da floresta indicam que o velhote já vivia anteriormente fora dela. Durante uma tempestade porém, o pai sofre um acidente e o garoto é aconselhado pelos seres antropomorfizados (que são na verdade espíritos dos antepassados) a levá-lo para um tratamento ao vilarejo mais próximo, além das fronteiras da floresta.

É nessa pequena comunidade que os grandes mistérios de O Menino da Floresta são respondidos. Como já era de se esperar, o pai realmente era um antigo morador do local e acontecimentos passados o forçaram a adotar uma vida selvagem. Acontecimentos que provocaram uma grande ira da população forçando-os a impedir, inclusive, que o médico tratasse do ‘ogro’, como eles passaram a apelidar o senhor Courge.

O seu filho, por outro lado, teve seu desejo realizado ao conhecer o mundo exterior e passou a viver novas experiências na sociedade moderna ao lado da garotinha Manon (voz de Isabelle Carré, Românticos Anônimos e Feito Gente Grande), filha do doutor. Uma história leve e descontraída, mas também triste em certos aspectos, principalmente em sua conclusão ao permitir que o ‘Mogli francês’ só pudesse sair da vida selvagem se as amarras que o prendiam na floresta fossem rompidas. NOTA: 4/5

O HOMEM QUE RI – Abandonado no litoral ainda criança, Gwynplaine (Marc-André Grondin, de Os Brutamontes) tenta obter abrigo batendo de porta em porta nos vilarejos mais próximos. Nesse difícil percurso ele ainda encontra uma recém-nascida, Déa (a linda Christa Theret, de Rindo à Toa e Renoir), que chora nos braços de uma mãe já morta em meio a uma nevasca e que fica cega por ter olhos queimados pelo frio intenso.

Depois de muitas recusas, Gwynplaine, a quem o título da produção do título se refere devido ao sorriso formado por uma cicatriz no rosto (a là Coringa do Batman), acaba encontrando o auxílio de Ursus (interpretado por Gerárd Depardieu, As Aventuras de Pi e Piaf – Um Hino ao Amor), que mal tendo condições para se manter, será o responsável daqui para frente por dois órfãos.

Situado numa espécie de limbo fantástico, o tempo passa e as crianças crescem e já adultas colaboram também para garantir o sustento do trio formado. Assim, eles passam do charlatanismo para peças teatrais improvisadas a bordo de uma carruagem, explorando sempre as características físicas peculiares de Gwyn e Déa com relativo sucesso.

O Home que Ri, uma adaptação da obra de Victor Hugo, é uma bem-vinda mistura do mundo fantástico dos contos de fadas com suas rainhas más com as histórias clássicas da literatura mundial e seus amores impossíveis, se inspirando nesse último para construir a sua trágica conclusão! NOTA 4/5

ALÉM DO ARCO-ÍRIS Saber de antemão a data de sua morte provavelmente não é uma das coisas mais agradáveis de se ter gravado na memória. A prova disso é a tão temida data causar certo desconforto no mais cético dos homens franceses: o rabugento Pierre (vivido por Jean-Pierre Bacri, Amores Parisienses e Questão de Imagem).

De outro lado é difícil definir precisamente do que se trata a comédia Além do Arco-íris. A sina e a preocupação de Pierre com a data de sua morte diverte, mas é uma apenas uma mísera parte do caldeirão de histórias que o filme consegue abordar em seus 112 minutos de duração com as mais variadas situações da família, amigos, conhecidos e agregados que rondam direta ou indiretamente a vida de Pierre.

O personagem de Jean-Pierre Bacri tem o seu mau humor característico (um sentimento recorrente na cinematografia francesa) com crianças, o isolamento auto-imposto, a exploração do mito da má dirigibilidade das mulheres (será?), uma improvável iniciação religiosa de uma garota causando algumas controvérsias com os seus pais, a ascensão de Sandro (Arthur Dupont, de Os Sabores do Palácio e One Two Another), filho de Pierre, no mundo da música clássica principalmente após conhecer o famoso crítico Maxime (que vivido por Benjamin Biolay protagoniza a cena mais inacreditável do filme), que por sua vez rouba a Laura (Agathe Bonitzer, de Uma Garrafa no Mar de Gaza e De Volta para Casa) dos braços de Sandro e as desavenças deste com o pai a respeito da herança deixada pelo avô, cujo enterro marca o início do filme… E por aí vai!

Além do Arco-íris consegue abordar tantos e diversos temas sem se perder em sua narrativa mesmo sendo expostos rapidamente em sequência e envolver diferentes personagens. NOTA: 4/5

ACONTECEU EM SAINT-TROPEZ Foi interessante a sessão dupla criada pela programação com este filme e o anterior (Além do Arco-íris), duas comédias contemporâneas francesas com suas narrativas dinâmicas e ambas com críticas veladas a religião, que em Aconteceu em Saint-Tropez ocorre com os costumes burocráticos de cada congregação ao lidar com a perda de um ente querido, o que resulta na realização de dois eventos simultâneas e antagônicos em uma mesma casa: um velório e uma festa de casamento. Mais uma vez são os bons momentos de humor funcionando como uma crítica indireta seguindo a máxima: “seria engraçado se não fosse trágico”.

Outra característica recorrente do cinema francês é a presença da orquestra sinfônica, seja ela presente na narrativa inerente a determinando personagem da trama ou seja presente em uma trilha sonora clássica, tradicional e bela. Diferentemente do primeiro,a história concentra-se apenas num núcleo familiar de classe alta e com seu patriarca amalucado e de língua afiada, temperado com um amor inesperado que surge devido a tragédia central da história, mas que não são do círculo familiar. Se deveria arruinar todos os alicerces da família, surpreendentemente isso não ocorre! NOTA: 4/5 





A Origem para salvar o cinema do verão americano

5 08 2010

Dia 06 de agosto de 2010. Sexta-feira. Amanhã. Dia da estreia de A Origem. Filme esse que virá (provavelmente) para salvar essas férias de julho, que não teve nenhuma grande atração cinematográfica. E na tentativa de salvá-la, a gente até estica em uma semana a duração das férias para que A Origem seja incluído nela.

Direção de Christopher Nolan, responsável pelos dois últimos filmes da franquia Batman (Begins e O Cavaleiro das Trevas) e que está atualmente desenvolvendo o próximo filme do homem-morcego. No elenco, o ator mais badalado do momento, Leonardo DiCaprio, que só vem fazendo bons filmes: Ilha do Medo, Os Inflitrados, Rede de Mentiras. E A Origem vem para fazer Leonardo aspirar novos ares e quebrar um pouco a rotina de filmagens sob a batuta de Martin Scorsese. Numa contagem rápida, já foram 4 filmes de parceria da dupla.

E o elenco do longa traz mais gente do meu agrado: Ellen Page (de Juno, uma das próximas atrações aqui no Universo E!), Ken Watanabe (Cartas de Iwo Jima, O Último Samurai), Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor), Michael Caine (presente nos dois últimos de longa de Batman), Joseph Gordon-Levitt ( (500) Dias com Ela)…

Ou seja, muita coisa. Vamos aguardar amanhã para conferir essa grande estreia, escrever essa análise e podermos discutir sobre o longa aqui. Enquanto isso, fiquem com o trailer (ao qual recuso-me a assistir):








PALPITEIRO BRASILEIRO

Campeonato dos Palpiteiros - Temporada 2019

Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema

Site com atividades e informações sobre a associação que reúne profissionais da crítica cinematográfica de todo o Brasil

Sinfonia Paulistana

um novo olhar

%d blogueiros gostam disto: