Festival Varilux de Cinema Francês | parte 05

20 05 2014

Finalmente, antes tarde do que nunca, aqui estão os últimos comentários do Universo E! sobre o Festival Varilux de Cinema Francês de 2014. Pela terceira vez presente no festival, esta é a primeira vez que conseguimos falar sobre praticamente todos os filmes vistos: das 16 produções integrantes da programação, assistimos 15 e escrevemos (incluo esse post) sobre 13 deles. Um feito inédito!

Esperamos que tenham curtido! E que venham mais ótimos filmes pela frente!

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UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA (França, 2013) – Sua realização por si só já é uma viagem extraordinária. Uma coprodução franco-canadense conta a história de TS Spivet (Kyle Catlett, da série The Following), que vive junto com sua família num rancho isolado no oeste americano. A mãe Clair, Helena Bonham Carter (Os Miseráveis, a cinessérie Harry Potter e Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet), colecionava insetos; o pai era um típico cowboy; a irmã sonhava em participar do concurso de miss dos EUA e o seu irmão gêmeo seguia os passos rústicos do pai, adorando manusear armas desde pequeno.

Gêmeos, a única coisa em comum entre TS e Layton mesmo era a data de nascimento. Layton (Jakob Davies, de O Homem das Sombras e Guerra é Guerra!) não possuía nenhuma fração da genialidade e engenhosidade do irmão com seus cálculos e análises científicas. Uma tragédia, no entanto, acaba levando Layton a óbito.

A perda do irmão desperta em TS um sentimento de desprezo por parte da família, especialmente sua mãe. Deslocado em seu próprio ambiente familiar, ele vê na Baird Awards (organização que premia os grandes projetos científicos) uma oportunidade de ter a sua inteligência reconhecida, ao mesmo tempo que terá a chance de se afastar de seus familiares. Mesmo que momentaneamente.

Cruzar o território americano a bordo (clandestinamente) de um trem que atravessa o território de oeste a leste não é nenhuma ideia original. Encontrar os mais diferentes tipos de pessoas nesse caminho também não. E são exatamente estes momentos que Uma Viagem Extraordinária não oferta nada de novo. O ator-mirim que vive o protagonista também não se sai bem nos momentos da trama que lhe exigem mais emoção, o que certamente garantiria uma imersão maior do espectador.

O que resta mesmo são os momentos divertidos que o roteiro apresenta ao explorar a dualidade entre a genialidade TS e a vida comum de pessoas nem tão inteligentes assim. Também não é monótona acompanhar a reconciliação entre os membros da família nessa trajetória, que conta com ótimas trilha sonora e fotografia. Uma viagem nem tão extraordinária assim, mas certamente divertida.

NOTA: 3/5

UM AMOR EM PARIS (França, 2013) – Brigitte (Isabelle Huppert, Amor e Uma Relação Delicada) e o marido vivem nos arredores de Paris onde cuidam de cabeças de gado de alto pedigree para participar de exposições competitivas de bois.

Uma vida pacata e sem sobressaltos, típica de casais com muito tempo de união e com os filhos já criados. Só de tempos em tempos que o sossego é quebrado quando jovens vindos da capital francesa organizam festas na chácara vizinha.

Em uma dessas festas, Brigitte conhece Stan (Pio Marmaï, Um Evento Feliz e Alyah), um rapaz que não está muito a vontade na festa e acaba (assim como as organizadoras da festa pedindo favores a todo momento) indo parar na porta dos vizinhos.

Interessante analisar como essa safra de filmes franceses traz a crise dos casamentos de longa data para a tela. Brigitte não está infeliz no seu matrimônio, mas está insatisfeita em como ele está girando apenas na atividade de criação de gados, algo que agrada apenas ao seu marido.

É em Paris, portanto, que ela vai em busca de sua própria felicidade, tendo como pretexto uma consulta médica. Mas não será a cidade-luz que a afastará das decepções da vida, assim como homens maduros e economicamente bem estabelecidos não serão garantia  de felicidade plena.

NOTA: 2/5

GRANDES GAROTOS (França, 2012) – Dificilmente filmes conseguem construir habilmente uma construção de personagens em um curto espaço de tempo e com cortes tão rápidos. Um exemplo clássico e insuperável até hoje é aquele elaborado na animação Up – Altas Aventuras abordando o relacionamento entre Carl Fredricksen e Ellie. Grandes Garotos utiliza-se do mesmo artifício apara estabelecer rapidamente a relação entre Lola (Mélanie Bernier, A Delicadeza do Amor e A Datilógrafa) e Thomas (Max Boublil, de Aconteceu em Saint-Tropez) uma vez que o seu grande motim será a amizade que se estabelecerá entre Thomas e seu sogro Gilbert (Alain Chabat, Uma Noite no Museu 2 e A Espuma dos Dias) .

Gilbert é o exemplo de tudo que Thomas não quer em sua vida futura: um homem infeliz, descontente no casamento e que vê sua mulher Suzanne (Sabrine Kiberlain, de Uma Juíza Sem Juízo e Políssia) envolvida apenas na caridade. Mas ao mesmo tempo, Gilbert por experiência própria, valoriza e incentiva o sonho de Thomas, que sempre é menosprezado pela namorada dele: a música.

Essa repentina amizade abordada em Grande Garotos entre genro e sogro também apresenta uma dualidade e um choque entre gerações. E o título se refere a absoluta falta de maturidade existente nas ações deles, quando passam a dividir momentos juntos, em detrimento ao relacionamento destes com suas respectivas esposa/namorada.

Apenas quando uma rápida incursão no mundo fonográfico torna-se uma grande frustação (principalmente quando se rendem às vontades e traquejos de uma cantora-mirim irritante) que Thomas e Gilbert percebem o quão importante eram suas vidas anteriores à essa jornada – mesmo que isso não se traduzisse em todos os seus desejos realizados. Só que há um único problema: agora eles terão que reconquistar suas amadas que já estavam se acertando com outros companheiros. E isso pode não ser tão fácil quanto parece.

O grande destaque aqui fica por conta de uma das cenas finais, quando Thomas resolve invadir uma conferência internacional para declarar (mais uma vez) o seu amor por Lola, utilizando-se de uma gag recorrente no filme.

NOTA: 3/5





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 04

2 05 2014

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A GRANDE VOLTA (França, 2012) – François Nouel (Clovis Cornillac, Eterno Amor e Asterix nos Jogos Olímpicos) tinha uma paixão e um fascínio desenfreados pela famosa Tour de France, evento anual de ciclismo na França. Apesar da enorme vontade, o seu envolvimento com a competição nunca ultrapassou o limite das arquibancadas ou das imagens transmitidas pela televisão. Até que chega em suas mãos uma oportunidade de correr por uma equipe profissional. Tudo daria certo se não fosse a reação de Sylvie (Élodie Bouchez, Perigosa Obsessão e da série Alias: Codinome Perigo), sua esposa – que detestava o esporte -, ao saber da notícia.

Sem um acordo para o conflito do casal, dividido entre a corrida e as tão pretendidas férias em família, Sylvie leva o filho para o litoral, abandonando o marido à sua própria sorte de esportista amador. Só e sem saber para onde eles foram, François decide realizar o seu sonho,  cumprindo todas as etapas da Tour de France antes da passagem oficial dos competidores e consegue, durante o percurso, reunir em torno de seu objetivo uma equipe semi-profissional para acompanhá-lo.

O que era para ser a realização de um sonho pessoal torna-se uma sensação nacional com a transmissão em rede de TV, paralelamente a realização do torneio oficial. Divertido na medida certa, A Grande Volta não se esquiva muito das maioria das produções cômicas de seu gênero, apresentando o tradicional final feliz do protagonista e a resolução de todos os seus conflitos, incluindo aí a confraternização com seu inimigo.

NOTA: 3/5

EU, MAMÃE E OS MENINOS (França, 2013) – Comédia sensação da atual temporada do cinema francês, o grande vencedor desse ano do César (o Oscar da França) já tem uma grande sacada já em seu título: uma referência a forma como a família de Guillaume chamava todos os meninos para o almoço. Mesmo sendo três irmãos, a homossexualidade visível de Guillaume não permitia que fossem chamados apenas por ‘mamãe e meninos’. Haveria de ter uma distinção de Guillaume de seus irmãos.

Construído como uma espécie de biografia da vida de Guillaume (vivido pelo talentosíssimo Guillaume Gallienne, de Maria Antonieta e Yves Saint Laurent, que também interpreta a mãe do protagonista, além de assinar a direção e o roteiro de Eu, Mamãe e os Meninos), cujos diálogos com sua mãe (sua grande inspiração) e as diversas passagens de sua vida, sobretudo os inúmeros bullyings que sofreu em sua adolescência, são mesclados entre as cenas propriamente ditas e o seu monólogo no teatro, construindo-se assim um híbrido entre longa-metragem e peça teatral. O longa ainda aborda sem nenhum receio todas as formas de preconceito possíveis para quem seja gay: na família (desaprovação do pai), na escola (a incompatibilidade geral com qualquer tipo de esporte) e no próprio meio GLS.

Muito mais comédia de situações, como se fosse uma sucessão de quadros de stand-up comedy, difícil explicar a quantidade de premiações recebidas pelo filme e o burburinho causado no público e crítica. Por mais que realmente seja divertido e tenha um ator com grande desenvoltura para ser o protagonista, não há como aceitar os seus prêmios. Ousado por brincar sem pudor com um tema tão em voga e tão debatido atualmente? Ok. Mas não podemos focar nesse aspecto em detrimento de outras obras bem mais complexas, cinematograficamente falando, que estiveram em cartaz nesse próprio festival.

Por outro lado, há a satisfação de se surpreender com a repentina alteração do rumo narrativo que o filme oferece em seu final, anulando (quase que completamente) tudo o que fora projetado até então. E com a maestria que só o cinema francês tem para deixar a conclusão da história para o seu público com uma conclusão abrupta. Mais uma em meio a tantas outras.

NOTA: 4/5

O AMOR É UM CRIME PERFEITO (França, 2013) – Uma hora esse momento teria que chegar. Um momento eu iria ver um filme abaixo da linha do razoável, que é justamente o que aconteceu com O Amor é um Crime Perfeito.

Marc (Mathieu Amalric, Cosmópolis e 007: Quantum of Solace) leciona literatura em uma universidade francesa ao mesmo tempo que coleciona uma infindável lista de casos amorosos com suas alunas. Menos por sua beleza e mais pelo seu charme e carisma. Algo tão corriqueiro para ele que mal se lembra o nome daquela com que passou a última noite, por exemplo.

Certo dia, uma bela mulher (Maïwenn, sim esse é o nome da atriz que pode ser vista também nos filmes Políssia e Alta Tensão) o procura na universidade, mas não com as intenções que gostaria. Ela está ali para obter mais informações a respeito de Barbara, enteada dela e aluna dele, que encontra-se desaparecida. Esse desaparecimento será o fio condutor de toda a narrativa.

Ao longo do filme conhecemos outras mulheres que fazem ou passam a fazer parte de sua vida. Como sua irmã Marianne (Karin Viard, também presente em Políssia e Aconteceu em Saint-Tropez) com quem divide uma casa em meio aos alpes franceses e que nutrem um amor e um ciúme surreal um pelo outro, muito além do que se espera num relacionamento entre irmãos, mesmo com o relacionamento dela com Richard (Denis Podalydès, O Código da Vinci e Caché), superior hierárquico de Marc na universidade. Em sala de aula surge uma nova aluna, Suzanne, que chega com uma obsessão  inexplicável por ele.

São justamente nesses diversos casos sexuais que O Amor é um Crime Perfeito não convence. Um grave erro ao percebemos que as grandes revelações do filme serão baseadas neles. Quando isso ocorre em tela, o impacto da surpresa não vem, simplesmente porque o roteiro não conseguiu estabelecer esses relacionamentos e seus desdobramentos da forma como deveria.

NOTA: 2/5





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 03

19 04 2014

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OS INCOMPREENDIDOS (França, 1959) – Não tem como começar a falar de Os Incompreendidos sem citar sua cena inicial, que percorre as ruas centrais de Paris com a câmera sempre apontada para a Torre Eiffel. Uma das maiores demonstrações de amor à França já realizada pelo cinema.

Da mesma forma, temos que reconhecer os benefícios que a projeção digital traz aos filmes, principalmente os antigos. Os Incompreendidos, de François Truffaut filmado em 1959, ganha uma versão restaurada no novo formato, que realça ainda mais toda a beleza de sua fotografia em preto-e-branco.

Para sua época, Os Incompreendidos traz uma família extremamente moderna. A figura materna que cabe a atriz Claire Maurier (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Minhas Tardes com Margueritte) é extremamente independente, trabalhando fora para auxiliar no sustento da casa juntamente com o pai. O filho, Antoine (Jean-Pierre Léaud, Beijos Proibidos e Masculino-Feminino), também tem uma educação diferenciada e igualmente independente pois está ciente de seus afazeres domésticos e escolares.

A educação, no entanto, não acompanha a mesma modernidade do círculo familiar. Escolas separadas por sexo e professores severos com seus sistemas primitivos de punição aos alunos irrequietos. Um ambiente não recomendável para Antoine que (assim como a maioria das crianças na sua idade) gostava de desafiar as regras.

De lá para cá pouca coisa mudou na vida dos alunos (pré)adolescentes. O que mudou radicalmente, sim, foram os motivos que levavam os estudantes a burlar as aulas. As contravenções eram baseadas no compartilhamento de calendários de borracharia (e suas mulheres semi-nuas) ou os cinemas de rua da época ou, ainda, uma versão inicial do que seria hoje os parques de diversão. Tudo para, em seguida, a ausência do dia anterior ser justificada pela morte de algum membro familiar.

Nada que o protagonista temesse, nem mesmo a ameaça de ser transferido para um internato militar (muito mais severo que a sociedade externa em que vivia), o que fatalmente ocorreria. Sinal de que a rebeldia juvenil não é nenhuma novidade e nem  um comportamento recente, como já dizia Elis Regina: ”vivemos como nossos pais”.

NOTA: 5/5

LULU, NUA E CRUA (França, 2013) – Lucie (Karin Viard, Delicatessen e Políssia), mas pode chamar de Lulu, é uma mulher casada e com filhos que vive a crise da meia idade, não satisfeita com os rumos que sua vida tomou. Grande parte da responsabilidade por esses infortúnios é gerada pelo seu marido, um cara extremamente desrespeitoso com ela. Nem é preciso conhecê-lo para sabermos disso, uma simples ligação e a rispidez de sua voz já nos é suficiente.

Lulu demorou muito para lidar com toda essa situação até que decide, em certo ponto de sua vida, procurar um novo emprego longe de sua cidade. Nem há necessidade de mencionar a total ausência de apoio por parte da família. A desilusão dela é tanta que chega a entrar no banheiro masculino sem perceber.

Acostumada a ser submissa e desvalorizada a todo instante como pessoa, os percalços enfrentados quando decide dar uma guinada em sua vida não a incomodam nem um pouco. Com muita naturalidade que Lulu perde o seu trem de volta, não se aborrece quando tem o cartão do banco retido pelo caixa eletrônico e não tem dinheiro nem para se hospedar e muito menos para comer. Nada a abala.

Ela, porém, não enfrentará essas mudanças sozinhas. Outras pessoas a auxiliarão a se reencontrar consigo mesma e assim tornar-se alguém com mais amor próprio. Inclui-se aí Charles (Bouli Lanners, Ferrugem e Osso, A Grande Volta e Uma Juíza sem Juízo), exemplo clássico de praticidade e simplicidade (vide a cena do celular na praia) e seus dois irmão desajustados; Marthe (Claude Gensac, Ela Vai e 22 Balas), uma senhora cheia de energia apesar da idade, que ensinará que nunca é tarde para recomeçar; e reconhecerá aspectos muito semelhantes de sua vida em uma garçonete que é ridicularizada pela dona do restaurante em que trabalha.

Misturando a dramédia com situações típicas de obras de auto-ajuda, Lulu, Nua e Crua tem lá a sua mensagem positiva, mas sofre um pouco com o ritmo da narrativa, não ultrapassando a linha limite dos filmes razoáveis, aceitáveis, mas que rapidamente cairão no esquecimento.

NOTA: 3/5

UM BELO DOMINGO (França, 2013) – Já presente em nosso terceiro festival Varilux, é interessante observar o modo como o olhar contemporâneo do cinema francês recai sobre as questões contemporâneas da sociedade atual. Um tema bastante recorrente na cinematografia francófona retratando pessoas e/ou famílias em busca de seus sonhos. Um Belo Domingo é mais um excelente dessa constatação.

Baptiste (Pierre Rochefort, Adeus Minha Rainha e O Sequestro de um Heroi) desempenha sua função de professor substituto (naquele que seria o nosso ensino fundamental) com certa satisfação, lidando com muita facilidade com seus alunos. Nada fora do usual até que as aulas de sexta-feira acabem.

O jovem professor percebe que um de seus alunos, Mathias (o novato Mathias Brezot), ainda se encontra na porta da escola muito tempo depois de todos já terem ido embora. Baptiste, então, oferece uma carona até a casa do menino onde encontra o pai bon vivant, mais preocupado com seu carro luxuoso, com a beldade de sua namorada e na viagem deles para Mônaco do que com aquele fardo que acabara de chegar, também conhecido como ‘seu filho’. Ciente da situação constrangedora que se encontra e não visualizando nenhuma alternativa, Baptiste se voluntaria (mais uma vez) a ficar com o garoto durante o final de semana.

Assim, Mathias tem a oportunidade de viajar com o professor (em uma sugestão sua) para o litoral, local onde sua mãe, Sandra (Louise Bourgoin, Um Evento Feliz e A Religiosa), trabalha num quiosque de requinte à beira-mar. Conhecendo-a, Baptiste entra em mais um novo conflito, já que Sandra vem sendo cobrada constantemente de um empréstimo que fez recentemente.

Numa sucessão de problemas a serem resolvidos (algo também bastante comum no cinema da França), Baptiste terá que desenterrar o seu passado para conseguir auxiliá-la. Um passado que não queria desenterrar tão cedo.

NOTA: 5/5





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 01

12 04 2014

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UMA JUÍZA SEM JUÍZO (França, 2012) O nome (pelo menos o traduzido) não despertava a maior das curiosidades. O início do filme também não, quando optava por escolhas típicas da comédia besteirol ao forçar o riso com caretas, gestos bruscos e o velho clichê de utilizar a gagueira em um advogado que precisa discursar em defesa de seu cliente. Mas, para o seu bem, a trama se desenvolve e o nível de seu humor melhora.

Ariane Felder (Sabrine Kiberlain, O Pequeno Nicolau e Políssia) é uma workaholic assumida. Trabalha de 15 a 16 horas no Supremo tribunal francês. Muito trabalho, pouca diversão e uma solteirona convicta. Aí vem o Réveillon de 2013 e muda a história da doutora Felder que, seis meses depois, descobre estar grávida. Algo inacreditável, inconcebível!

A busca pelo pai da criança (que a bebida da noite da virada não a permitia lembrar) a aproxima de Bob Nolan (Albert Dupontel, de Irreversível e Bernie, mas que também dirige o longa), um sujeito tão desajeitado quanto ela e que é acusado de um crime bárbaro do qual não é culpado. E o álibi perfeito é exatamente a juíza, pois quando o crime ocorreu, os dois estavam juntos.

Entre deixar o pai de seu filho ser preso injustamente e testemunhar a favor dele e perder a sua promoção à Corte de Apelação, a doutora Felder ainda encontrará muitas pessoas excêntricas pelo caminho. Melhor para Uma Juíza Sem Juízo em sua metade final que deixa de enveredar pelo humor óbvio (mesmo restando alguns resquícios desse aqui e ali) e adota um humor mais discreto e indireto, utilizando-se mais das situações e do roteiro em si.

Destaque para a participação especial de Jean Dujardin (O Artista e O Lobo de Wall Street) como intérprete de sinais no filme.

NOTA: 3/5

ANTES DO INVERNO (França, 2012) O senhor Paul Natkinson (Daniel Auteuil, A Filha do Pai e Atirador de Elite) é um neurocirurgião com uma carreira profissional já estabelecida. Ele divide uma bela mansão com a esposa Lucie (a bela Kristin Scott Thomas, O Paciente Inglês e Assassinato em Gosford Park) e os momentos alegres de família reunida ocorrem aos finais de semana nos parques da cidade ao lado do filho, da nora e do neto.

Nada poderia abalar esse cotidiano familiar muito bem constituído. Uma certeza abalada apenas quando a jovem Lou (Leila Bekhti, Satã e Paris, Te Amo) surge na vida do médico. Alegando ter sido operada por ele quando criança, a garçonete/universitária/prostituta Lou passa a cruzar, frequentemente, o caminho do neurocirurgião. Fato esse sucedido por buquês de rosas que passam a aparecer no hospital onde ele trabalha, no consultório em que atende seus clientes particulares e até no portão de sua casa.

Intrigado e desconfiado, ele logo associa essas estranhas ocorrências à Lou, que consegue se explicar satisfatoriamente toda vez em que é acusada pelo doutor. Entre idas e vindas conturbadas e um afastamento involuntário de Paul de seu exercício profissional, os dois acabam se aproximando. Um inesperado relacionamento (não amoroso por parte dele) que distancia o doutor Natkinson da família e principalmente de sua esposa. Lucie, que por sua vez, sempre agiu fielmente e sempre foi uma grande admiradora do marido.

Tais acontecimentos são uma excelente oportunidade para Paul refletir sobre tudo o que levou a ser o excelente profissional que é e a forma com vinha lidando com sua família. Ao admitir que não sonhara com nada daquilo que conquistara, percebemos o quanto sua vida vinha sendo vivida no piloto automático. Um exemplo que sucesso nem sempre vem acompanhado de felicidade.

Mas suas atuais escolhas, que julgava serem sinceras, acabam o levando para um caminho perigoso. Lou, sempre presente de repente desaparece. E em busca de seu paradeiro, doutor Natkinson se vê vítima de uma trama que jamais imaginaria estar envolvido. Um choque que talvez o auxilie a melhorar o relacionamento com os seus familiares e, quem sabe, ser mais grato com tudo o que conseguiu construir.

NOTA: 5/5





RETROSPECTIVA 2012 – parte 2

28 12 2012

JULHO – O segundo semestre de 2012 começou com uma crítica a distribuidora Columbia Pictures que, iniciando as vendas para a sessão de pré-estreia a meia-noite para  O Espetacular Homem-Aranha, resolve numa grande picaretagem, abrir pré-estreias regulares ao longo da semana de estreia. E sem nenhum aviso prévio acaba cancelando as sessões da meia-noite. Mas mesmo assim, o fraco longa do aracnídeo protagonizado por Andrew Garfield (A Rede Social e Não me Abandone Jamais) ganhou a sua análise.

Carly Rae Jepsen, dona de um dos grandes hits de 2012: Call me Maybe!

Carly Rae Jepsen, dona de um dos grandes hits de 2012: Call me Maybe!

Uma desculpa recorrente ao longo do último semestre foi o ‘vazio criativo’ na elaboração de novos posts para o Universo E!. Para manter o blog porcamente atualizado, um dos métodos mais utilizados por mim é partir para as músicas. Em julho os hits de Rihanna (Where Have You Been), Carl Rae Jepsen (Call me Maybe) e The Wanted (Chasing the Sun) foram os escolhidos para, popularmente dizendo, tapar o sol com a peneira, ou seja, colocar algum conteúdo novo por aqui quando a criatividade não ajuda.

Para finalizar este mês tivemos o triste incidente que manchou a estreia da conclusão de uma das mais bem-sucedidas franquias baseadas em super-heróis com o massacre da cidade de Aurora nos EUA, durante uma sessão de pré-estreia do filme Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, vitimando 12 vidas inocentes…

Cena de Um Evento Feliz, com o ator Pio Marmaï (esq), que também protagonizou o francês Alyah

Cena de Um Evento Feliz, com o ator Pio Marmaï (esq), que também protagonizou o francês Alyah

AGOSTO – Foi um mês de felicidade extrema com a realização do Festival Varilux de Cinema Francês 2012. Dos 17 filmes inéditos exibidos, o Universo E! comentou sobre 11 filmes: A Filha do Pai, A Vida vai Melhorar, Um Evento Feliz, Intocáveis, Paris-Manhattan, Aqui Embaixo, My Way – O Mito além da Música, E Agora, Aonde Vamos?, O Monge, Alyah e Políssia. Realizamos assim a maior cobertura até aqui de um festival de cinema, em quase um mês inteiro dedicado a este evento (dia 01, dia 02 e considerações finais), uma vez que foi finalizado com algumas análises sendo postadas em setembro.

SETEMBRO – O ano de 2012 pode ser marcado como um ano de extremos. Saímos de um mês de grandes alegrias para um setembro de grandes perdas tanto para o Cinema quanto para a cultura brasileira: perdemos o ator Michael Clark Duncan, dia 03  (À Espera de um Milagre) e a apresentadora de televisão Hebe Camargo, dia 29. E foi também no funeral da comunicadora que obtivemos uma das imagens mais tocantes, com o selinho dado por Silvio Santos no corpo de Hebe durante o velório.

Para não ficarmos apenas nos fatos tristes, o Google comemorou o 46º aniversário de Star Trek com um doodle muito bem produzido e tivemos o anúncio das vendas antecipadas para o filme de conclusão da saga Crepúsculo: Amanhecer – parte 2.

OUTUBRO – Mais uma evidência de como a criatividade andou em baixa por aqui com apenas duas atualizações, no primeiro e no último dias do mês: no primeiro dia foi mais uma edição de A Rede pelo Twitter alertando sobre um possível retorno da girl band Rouge. Ficou reservado para o último dia de outubro o anúncio da venda da Lucasfilm para a Walt Disney Company, um negócio feito por George Lucas, o fundador, e pegou a todos de surpresa. Foi engatilhado junto com a venda o início da produção de um sétimo filme baseado na saga de Star Wars.

NOVEMBRO – Mais um comentário sobre o interessante exercício de associar uma música à um livro, o que digo sempre, enriquece a sua experiência literária. O livro da vez foi A Menina que Roubava Livros. Música: Shadow of the Day, do grupo Linkin Park, mas na versão dos meninos do Boyce Avenue.

Em novembro tivemos a conturbada informação sobre as vendas de ingressos para a pré-estreia de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, que teve uma abertura inicialmente restrita a Cinemark em São Paulo e depois, gradualmente, sendo liberada em outras redes de cinema nas mais diversas cidades brasileiras. Outra excelente boa notícia foi a realização de maratona das versões estendidas dos filmes da trilogia O Senhor dos Anéis.

A rede Cinemark (apesar dos pesares) também trouxe O Hobbit em HFR e ainda promove o Projeta Brasil Cinemark nos meses de novembro!

A rede Cinemark (apesar dos pesares) também trouxe O Hobbit em HFR e ainda promove o Projeta Brasil Cinemark nos meses de novembro!

Análises dos filmes inéditos: o argentino Elefante Branco e o juvenil As Vantagens de ser Invisível. E o projeto Projeta Brasil Cinemark finalizou o mês, sendo vistos os longas Xingu e Gonzaga – De Pai pra Filho.

DEZEMBRO – Mês de festas. Mês de retrospectivas. Mês do fim do mundo. Mês de poucas atualizações. Mês reservado para falarmos sobre o problemático Moonrise Kingdom (em breve). Mês de retornamos a Terra-média com O Hobbit – Uma Jornada Inesperada, inclusive com um novo formato de imagem – o HFR (high frame rate). Mês de conferirmos As Aventuras de Pi, o novo longa de Ang Lee, que em breve também ganhará sua análise por aqui.

Dezembro é o mês de agradecermos a você, caro e querido leitor, pelas visitas e pelos comentários realizados ao longo desse ano e convidá-los a continuar conosco em 2013. Afinal sua presença é essencial ao Universo E!

O UNIVERSO E! deseja a todos vocês, um feliz e próspero 2013!!!

O UNIVERSO E! deseja a todos vocês, um feliz e próspero 2013!!!

É em dezembro também que desejamos a vocês, os mais sinceros votos de felicidade, prosperidade e de grandes realizações para 2013. E que o próximo ano seja repleto de bons filmes e boas séries! Até lá!





Festival Varilux de Cinema Francês 2012 – considerações finais

14 09 2012

Com atraso, esse post abrange  os destaques que estiveram em cartaz nos dois últimos dias do Festival Varilux de Cinema Francês 2012. Entre publicar ou não esses textos pela demora, optei por compartilhar com vocês, mesmo que o Festival já tenha acabado há muito tempo!

Então, vamos lá:

O MONGE – Flertando o com o sobrenatural em alguns momentos, O Monge apresenta uma premissa interessante mas falha muito em executá-la, quando dá ênfase a trama auxiliar que mesmo dando suporte a narrativa principal, revela-se demasiadamente longa e monótona. E ao final do filme quando é revelado o propósito dessa exposição, a frustração é ainda maior com os minutos gastos com ela. Isso se levarmos em conta que O Monge tem uma duração relativamente curta para filmes históricos.

O que parecia ser um honrado e intrínseco servidor da palavra de Deus, irmão Ambrósio líder um  monastério passa a sofrer as tentações da carne, principalmente quando o mascarado Valério passa a ser integrante da comunidade católica. Desse momento até seu desfecho vemos a transformação desse exemplar católico num dos piores sujeitos para a virtude da Santa Igreja.

Infelizmente, os erros cometidos em O Monge são tantos que sua história não boa o suficiente para acobertá-los, prejudicando e muito o que poderia vir a ser uma boa experiência cinematográfica.

NOTA: 2/5

ALIYAH – Um dos filmes mais tocantes do Festival Francês esse ano. Nem tanto por sua execução ou um provável brilhantismo de sua produção, mas sim mais pelo significado de sua trama, já que podemos considerar que a mesma se inicia e se finaliza da mesma forma, alterando-se apenas alguns elementos. O que para alguns possa ser frustrante, isso foi o que mais me chamou atenção em Aliyah.

O empurro crucial que desencadeia os demais elementos da narração é o momento em que Alex Raphaelson decide abandonar Paris e seguir com o primo para Tel Aviv abrir um restaurante. Mas para tanto ele precisa, assim como os demais sócios, entrar com uma participação em dinheiro e também precisa como exigência de sua viagem para Israel, o reconhecimento de seu judaísmo, o então ‘aliyah’.

Alex, um homem maduro que seduz facilmente as mulheres, mas ainda se sente inseguro sobre o sentido e o caminho que vem trilhando. Fruto talvez da mínima influência e presença de sua família na sua vida. Morando só, ele mantem uma regular distância dos parentes mais próximos (no caso seu pai e sua tia) e é procurado frequentemente pelo irmão, mais interessado no dinheiro fácil que pode conseguir dele do que na valorização da fraternidade entre ambos.

Dessa forma, os personagens vão se cruzando em sua vida (e na tela), a medida que Alex corre para conseguir a quantia necessária de dinheiro. Essa busca o faz enveredar pela tênue linha entre o correto e o crime, já que grande parte do dinheiro vem do lucro que obtêm vendendo entorpecentes, sendo uma espécie de ‘freelancer’ do tráfico. O que era para ser apenas um adicional ao capital acaba tornando-se a fonte principal de seu investimento, uma vez que seu irmão (num ato extremamente ordinário) rouba-lhe o dinheiro que com tanto sacrifício conseguira economizar.

Nem a recente amizade com Clara, que nutria fortes e sinceros sentimentos pelo rapaz, é o suficiente para alterar seus planos de viagem. E a discussão desse relacionamento torna-se a cena mais singela e marcante de Aliyah: onde um simples guardanapo serve de pano de fundo para o resumo da relação entre eles; um resumo da vida de Alex; um resumo do filme em si. Tudo isso apresentado numa cena intimista que põe o espectador sentado na mesa, compartilhando a cena com os personagens.

Como epílogo, a produção ainda apresenta a nova rotina de Alex em Tel Aviv. Um início deveras complicado, mas que ele, paciente, saberá lidar e driblar os obstáculos que porventura vierem (ou assim desejamos). E com a angustiante sequência final – do local de trabalho até sua nova residência -, constatamos que sua solidão (agora efetiva em solo israelense) é a mesma de Paris para cá, assim como sua vida não teve nenhuma grande alteração, exceto pela mudança de cidade. Quem sabe seja aqui que Alex consiga encontrar um significado para sua vida.

NOTA: 5/5

POLÍSSIA Políssia coloca o espectador dentro da BPM – Batalhão de Proteção aos Menores – que lida diariamente com um dos piores crimes da sociedade: a pedofilia.

Rotineiramente são inúmeros os casos apresentados a esses policiais o que acarreta em muitas entrevistas com as crianças e adolescentes, vítimas de atos tão covardes, tentando extrair o máximo deles, o que obviamente não é fácil. Da mesma forma, isso ocorre também com os agressores que são na maioria das vezes, da mesma família ou muito próximos ao núcleo familiar dos menores. E as reações diante do interrogatório variam da aceitação plena da culpa (e de suas consequências) à repulsiva atitude de encarar a situação como algo normal e corriqueiro.

No trabalho em campo a coisa também não é fácil. À paisana os agentes podem observar os maus-tratos dos pais com seus filhos ou participar de operações especiais bem planejadas, seja desmantelando uma rede de exploração de trabalho infantil, seja perseguindo a uma mãe com problemas mentais que acabou sequestrando seu filho de uma creche.

Natural que ter contato diário essas situações difíceis levem os policiais a suportar um grande carga de stress. Por isso, Políssia também aborda eficientemente o lado pessoal desses profissionais onde enfrentam mais problemas… ou relacionado aos filhos (onde perdem um pouco a capacidade de tratá-los com naturalidade como num simples banho) ou relacionado aos seus companheiros.

Extremamente profissionais em ação, o relacionamento interpessoal entre os integrantes é inconstante, instável e intempestivo. Diante da pressão encontrada no dia-a-dia do trabalho, essas discussões entre eles, muitas vezes motivadas por banalidades, ganham outras proporções, seja no escritório ou na rua. E é exatamente essa mesma pressão que, numa ocasião tão corriqueira, conclua surpreendentemente o longa.

NOTA: 5/5








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Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

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