ANÁLISE: Isolados

7 10 2014

Assobios de alguém que está procurando algo na escuridão. Uma trilha sonora grave e contínua e uma câmera hesitante em mostrar o que está acontecendo criam uma atmosfera misteriosa e envolvente. Mais alguns instantes e a surpresa: toda a escuridão presente advinha muito mais da mata fechada em si, que impedia a penetração da luz de um dia que já se findava lá fora, do que uma falta real de luminosidade.

Gratificante acompanhar essa crescente diversificação do cinema nacional, não só em temática, mas também em gêneros. Uma produção cinematográfica que já abordou a favela, o sexo, a violência, que agora insiste na comédia descompromissada, mas consegue agora produzir suspenses e dramas muito bem realizados e começa a se aventurar nas animações (e conquistar importantes prêmios internacionais nesse terreno).

Lauro (Bruno Gagliasso em seu segundo filme após Mato sem Cachorro) e Renata (Regiane Alves, de Zuzu Angel e O Menino no Espelho) são um casal que vão passar alguns dias numa casa totalmente isolada no meio da mata no estado do Rio de Janeiro. Mas o que eles não sabiam antes de chegarem ali era o fato de que mulheres foram mortas e violentadas no meio da floresta. E quem o fazia ainda continuava a espreita.

O motivo para essa viagem e para esse isolamento é explicado em rápidos e sucintos flashblacks, que mostram o passado conturbado de Renata, mentalmente falando, motivado por um trauma de infância: a perda repentina e precoce do pai. Ela torna-se paciente de Lauro, um psiquiatra que se autodefende como alguém que “gosta de levar trabalho para casa” e daí para surgir um relacionamento entre eles foi um pulo. Passar uma temporada longe da agitação da grande cidade poderia auxiliar no tratamento dela. Poderia.

Renata surta em dado momento quando Lauro a impede de sair de casa. Ela desconhecia o que se passava na região. Uma hora a mulher consegue se desvencilhar da proteção do namorado/doutor e foge mata adentro. Isolados age corretamente em manter a ameaça escondida, nunca a exibindo. Tudo o que o espectador recebe nesse sentido são relances dos assassinos, sons em meio à mata, sombras. Os suspeitos nunca são devidamente expostos, nem mesmo quando Lauro se depara com os criminosos. Decisões clichês, mas que funcionam e atendem a proposta do filme.

Os protagonistas passam a viver uma aflição e um temor dentro da casa. Impossibilitados de deixarem o local devido ao grave ferimento na perna de Renata, eles acabam isolados na residência, trancafiados, sem energia e sem comunicação, portanto, sem nenhum tipo de auxílio externo. Mais do que a probabilidade que os assassinos voltem a agir novamente, são os surtos cada vez mais frequentes de Renata que podem atrapalhar a tentativa de saírem dessa situação.

Eficiente em sua montagem que cria um thriller interessante, principalmente nas cenas de ação beneficiadas por uma edição ágil, Isolados peca mesmo no roteiro de duas formas distintas: no excesso de frases expositivas e óbvias, com o claro intuito de indicar o rumo da trama e na construção rasa do núcleo de personagens da força policial – que agem e falam de um modo tão inexperiente que chegamos a temer pelas vítimas cujas respectivas vidas dependam da investigação realizada por eles.

Mesmo com tais falhas, a história surpreende em seu desfecho por desconstruir completamente o perfil de um personagem e mesclar realidade e fantasia sem negar tudo o que foi mostrado. Vale a pena destacar também a linda e justa homenagem prestada durante boa parte dos créditos finais a José Wilker (O Bem Amado e Casa da Mãe Joana) que faz uma pequena participação especial com, possivelmente, uma das cenas do ator que acabaram sendo excluídas da edição final.

NOTA: 3/5

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Campinas terá a 11ª sala IMAX do Brasil

21 09 2014

EDIT 2: Chegou o grande dia! Após dois meses do prazo previsto, a sala IMAX de Campinas será inaugurada nessa quinta (dia 12/02) no Kinoplex do Parque Dom Pedro Shopping. A programação dessa primeira semana festiva será a seguinte: O Destino de Júpiter (DUB) 15h20 e (LEG) 18h00. E se encerra com a pré-estreia do drama de Clint Eastwood, Sniper Americano (LEG) as 21h00.

EDIT: Olá leitor. Muito obrigado pela visita. Saiba que o Universo E! desde 31/10/2014 está em uma nova casa. Todas as nossas novas postagens você confere nesse link: http://www.serounaosei.com/category/universo-e/

Kinoplex, o maior cinema de Campinas com 15 salas, trará para a cidade a 11ª sala IMAX a ser instalada no Brasil. A inauguração da tecnologia inédita no município está prevista para o mês de dezembro e faz parte de um investimento de R$ 12 milhões da rede na modernização de seu complexo localizado no Parque Dom Pedro Shopping.

As 15 salas da rede Kinoplex em Campinas passam por renovação e modernização, num custo total de R$ 12 milhões.

A instalação da sala IMAX é a última etapa desse projeto, uma vez que complexo já reformou toda a parte externa do complexo (bilheteria, terminais de auto-atendimento, bombonière e também o hall de entrada que passou a contar com vídeo wall), as salas tiveram  todo o interior reformado e ainda foram instaladas duas salas Kinoplex Platinum (VIP) com poltronas reclináveis que contam com uma bilheteria exclusiva para a venda de ingressos.

Maior grupo exibidor de filmes 100% brasileiro, o Grupo Severino Ribeiro terá na cidade do interior de São Paulo a sua primeira sala IMAX no país, que será instalado no primeiro multiplex do grupo sob a bandeira Kinoplex, inaugurado em 2003 em Campinas.

Além de uma forma de competir com os demais cinemas da cidade (os principais concorrentes são a rede Cinemark com a sala Xtreme Digital no Shopping Iguatemi Campinas e a rede Cinematográfica Araújo com sua sala VIP e suas duas salas com super-telas no Shopping Parque das Bandeiras), o Grupo Severiano Ribeiro incluiu a cidade em seu plano nacional de modernização e expansão, onde estão previstas a aberturas de 100 novas salas no Brasil, além do processo de digitalização de toda a sua rede.

IMAX

Uma das mais 800 salas IMAX espalhadas pelo mundo

Uma das mais de 800 salas IMAX espalhadas pelo mundo

 

O mesmo crescimento é esperado para as salas IMAX no período. Atualmente, o Brasil possui dez salas em operação nas seguintes cidades: São Paulo (com 3 salas, sendo a primeira do país instalada no Espaço Itaú de Cinemas – Pompeia, no Shopping Bourbon); Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Cotia/SP, Ribeirão Preto/SP, Fortaleza e Recife são as demais cidades com uma sala cada uma. Até 2016 estão previstas a inauguração de mais 14 salas com o circuito IMAX totalizando 25 salas ao todo.

Imagem Maximum (IMAX) é um formato de projeção de filmes que tem a capacidade de transmitir imagens bem maiores em tamanho e resolução do que o sistema convencional hoje existente nos cinemas. De acordo com o Wikipedia, a tela padrão IMAX tem 22 metros de largura por 16,1 metros de altura (354,2m² de projeção), mas podem dimensões grandiosas: a sala IMAX Big Cinemas de Mumbai na Índia, utiliza a tecnologia IMAX Dome e tem uma tela de 1.180m², enquanto o IMAX Theatre Sydney, na Austrália, conta a maior tela retangular nesse formato no mundo com uma área de projeção de 1.051m².

Campinas, a partir de dezembro, pertencerá a um seleto grupo de 837 cinemas em 57 países a contarem com a uma sala IMAX.





Breves & Curtas #12 | VI Paulínia Film Festival

3 08 2014

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CASA GRANDE [Brasil, 2014] – A família de Jean é muito bem estabelecida no Rio de Janeiro. A cena que abre o longa tem toda a atenção voltada para a mansão a que o título se refere e onde a família reside: com três pavimentos (todos muito bem iluminados), um espaçoso quintal equipado com externo ambiente, piscina e jacuzzi aquecida.

O jovem protagonista desfruta de todo o conforto proporcionado pelo pai. Vai ao Colégio São Bento (privado) com motorista particular, tem disponível uma generosa mesada para as baladas de fim de semana. Apesar do status social, o personagem (muito bem representado por Thales Cavalcanti) não demonstra a arrogância que muitos com a mesma realidade possuem. Um comportamento que se estende à toda família. Basta observar o amistoso relacionamento que todos possuem com os funcionários da casa.

Mas o futuro que reluz ao horizonte não parece ser promissor para eles. Algo que não está claro e nem evidente num primeiro momento, mas que vai se percebendo aos poucos. O responsável pelo disfarce é o pai, vivido por Marcello Novaes (vencedor do Menina de Ouro de melhor ator coadjuvante), que teima em esconder a crise da família e do espectador. Mas somos os primeiros a descobrir quando o mesmo anuncia, entusiasmado, seus investimentos na OGX – a famosa empresa de Eike Batista -, cujo fim todos nós já sabemos.

Um filme sobre derrocadas familiares? Sim. Mas seria injusto e superficial classifica-lo apenas desse modo. Casa Grande também é, à sua maneira, sobre a adolescência e seus problemas, representada aqui não só pelo protagonista, mas também por sua irmã.

Impressionante observar a naturalidade com que as situações são abordadas em Casa Grande a partir de seus dois principais tópicos: a crise financeira da família e a passagem pela adolescência e a maturidade de Jean. A violência no Rio, a descoberta do sexo e do primeiro amor, o convívio com os amigos, a pressão feita às vésperas do vestibular, as discussões com os pais super protetores e o esforço destes em contornar toda essa atuação sem atingir, diretamente, os filhos.

Além de melhor ator coadjuvante, Casa Grande ainda recebeu dois Menina de Ouro no VI Paulínia Film Festival: o de melhor atriz coadjuvante para Clarissa Pinheiro e o de melhor roteiro para Fellipe Barbosa e Karen Sztajnberg. E nossa menção honrosa para Thales Cavalcanti pelo trabalho apresentado, sendo essa sua primeira experiência na área da atuação e um verdadeiro achado da produção do longa.

NOTA: 4/5

SANGUE AZUL [Brasil, 2014] – O circo Netuno está de volta a ilha paradisíaca incrustada no meio do oceano Atlântico. Há muito tempo atrás essa cena se repetia e mais uma vez, o circo está ali realizando suas apresentações, mas este retorno desenterra memórias de outrora.

O primeiro ato de Sangue Azul reúne os melhores momentos do longa. Sequências em preto-e-branco, a paisagem espetacular oferecida por Fernando de Noronha, a imensidão do mar e o ruído de suas ondas fisgam a atenção do espectador de tal forma, que é até complicado determinar quando a fotografia passou a ficar colorida.

Além do reencontro com a família, o retorno de Pedro (Daniel de Oliveira, Cazuza: O Tempo não Pára e 400 Contra Um: A História do Comando Vermelho)  à ilha traz ainda outras questões muito mais fortes do que o trauma dele com o mar. Mas a montagem confusa de Sangue Azul joga contra a própria trama. A história do protagonista não ganha a força e a importância devida, pois os arcos narrativos referentes aos coadjuvantes são burocráticos e inadequadamente desenvolvidos. Por que a longa permanência na ilha iria afetar a profissionalmente a equipe do circo?

A obra de Lírio Ferreira (de Árido Movie) conquista merecidamente os troféus Menina de Ouro de melhor fotografia e de melhor figurino no VI Paulínia Film Festival. Vale a pena mencionar também as apresentações circenses existentes ao longo do filme, muito bem captadas e ensaiadas. Um acerto que se opõe a tentativa barata (e frustrada) da direção em criar polêmicas a partir de seus coadjuvantes sem propósito algum.

NOTA: 2/5

PARAÍSO [México, 2013] – Silhuetas de corpos nus em fundo branco bastante iluminado. Paraíso trata sobre o amor e o cotidiano de pessoas pouco retratadas pelo cinema em geral: as pessoas… gordinhas.

Carmen (Daniela Rincón) está abandonando a sua vida no interior do México (o paraíso de acordo com sua irmã), deixando para trás toda a sua família, a sua cadela de estimação e seu serviço de contabilidade para seguir com o seu marido, Alfredo (Andrés Almeida, de E Sua Mãe Também), para a Cidade do México onde ele foi transferido pelo banco em que trabalha.

Por tudo o que foi visto nessa dinâmica inicial, o excesso de peso nunca foi um empecilho e nem um trauma para a felicidade à dois e também nunca foi algo com que eles se preocupassem. O cotidiano deles era repleto de ‘gordo/gorda’ como, carinhosamente, um chamava o outro.

A situação muda quando, sem querer, Carmen ouve comentários maliciosos sobre eles numa festa promovida pelo banco. Aí sim, ela (mais do que ele) passa a possuir um olhar de reprovação sobre si mesma. Natural a expectativa, então, de que Carmen procurasse caminhos e meios para emagrecer. Livros de autoajuda e de dieta, academia, exercícios ao ar livre, programa comunitário de vigilantes do peso. Alfredo não compreendia a mudança repentina de comportamento da esposa, mas resolveu acompanha-la sem questionar. Prova do seu amor.

Só que surge uma nova crise entre os dois. O único a colher resultados em todo esse processo foi ele, que emagrecia cada vez mais. Carmen (que inclusive burlava o sistema de pesagem do grupo que frequentavam), além da preocupação com seu número de manequim, agora cria a ilusão de que o marido não a ama mais com a diferença de pesos existente agora.

Transitando entre a comédia romântica e a comédia dramática, Paraíso não utiliza de maniqueísmos para a construção de sua trama ou para emocionar o seu espectador numa perseguição alucinada e irracional pelo final feliz como muito se vê em filmes desse tipo. A emoção que a história atinge vem naturalmente, tanto pelo desenrolar da história como pela utilização recorrente de alguns elementos construídos que exercem, delicadamente, sua função narrativa como a árvore plantada no parque ou o peixinho que Carmen sempre admirava na casa de animais.

NOTA: 5/5





Vai ter Copa sim! (E nos cinemas ainda)

6 06 2014

Ah, você fanático por futebol, mas igualmente alucinado por cinema, achou que ia ficar distante das salas escuras e suas telonas durante a realização da Copa do Mundo aqui no Brasil, não é mesmo?

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Pois saiba que você está redondamente (perdão pelo trocadilho) enganado. O site Ingresso.com, a Cinelive (empresa pioneira na distribuição de conteúdo digital via satélite para os cinemas), juntamente com as redes de cinema Cinemark, Kinoplex, UCI, Cinépolis, Moviecom e GNC serão responsáveis por trazer as emoções das partidas da Copa para dentro dos cinemas de todo o Brasil.

E o melhor: o foco das transmissões não se limitará apenas aos jogos da seleção brasileira. Para a cidade de Campinas, por exemplo, já está disponível a venda de ingressos para os jogos do Brasil contra Croácia (quinta, dia 12) e contra o México (terça, dia 17), mas também há opções de compra para os confrontos:

– Espanha x Holanda (sexta, dia 13);

– Inglaterra x Itália (sábado, dia 14) e

– Alemanha x Portugal (segunda, dia 16)

As capitais como São Paulo e Rio de Janeiro oferecem mais opções. No momento em que este post é escrito, ambas as cidades tinham 9 jogos habilitados para compra de ingressos. Então, para maiores informações sobre preços e outros jogos disponíveis na sua cidade consulte o hotsite do Ingresso.com para a Copa e divirta-se!





Cinemark traz clássicos de volta ao cinema

24 05 2014

Qualquer cinéfilo que se preze sofre constantemente de dois males terríveis:

1) De sempre, sempre, mas sempre mesmo deixar um filme clássico, histórico e importante da Sétima Arte de fora da sua lista de produções vistas. Admitir essa falha para alguém gera a seguinte indagação: COMO ASSIM você não viu esse filme???!!

2) Passado o arrependimento de ter assistido à um filme tardiamente, vem outra frustração tão grande quanto a primeira: por que não o assisti nos cinemas antes? Claro, porque não há experiência melhor do que conferir um longa em seu hábitat natural –  a tela gigante e o sistema de som eficiente de uma sala de cinema.

Pois bem. A partir da semana que vem a rede Cinemark lhe oferecerá uma excelente oportunidade de diminuir o seu sentimento de culpa nesse quesito. Uma chance raríssima! De 31 de maio a 09 de julho vários cinemas da rede exibirão, em versões remasterizadas, grandes clássicos do Cinema.

Serão ao todo seis filmes de grande gabarito contando com três exibições semanais cada: Taxi Driver, Pulp Fiction: Tempo de Violência, Laranja Mecânica, Embalos de Sábado a Noite, Grease – Nos Tempos da Brilhantina e Bonequinha de Luxo. Os preços variam de R$ 7 (meia) e R$ 14 (inteira).

cineclassicos

As cidades participantes da programação do Cinemark Clássicos são as seguintes: São Paulo, São Caetano, Barueri, Rio de Janeiro, Niterói, Aracaju, Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Campo Grande, Curitiba, Florianópolis, Vitória, Natal, Porto Alegre, Recife e Salvador. Para mais detalhes sobre os complexos participantes, você confere em www.cinemark.com.br/classicos-cinemark

TAXI DRIVER

  • 31/maio –    23h55
  • 01/junho – 12h30
  • 04/junho – 19h30

 PULP FICTION: TEMPO DE VIOLÊNCIA

  • 07/junho – 23h55
  • 08/junho – 12h30
  • 11/junho – 19h30

LARANJA MECÂNICA

  • 14/junho – 23h55
  • 15/junho – 12h30
  • 18/junho – 19h30

OS EMBALOS DE SÁBADO A NOITE

  • 21/junho – 23h55
  • 22/junho – 12h30
  • 25/junho – 19h30

 GREASE: NOS TEMPOS DA BRILHANTINA

  • 28/junho – 23h55
  • 29/junho – 12h30
  • 02/julho – 19h30

BONEQUINHA DE LUXO

  • 05/julho – 23h55
  • 06/julho – 12h30
  • 09/julho – 19h30




Breves & Curtas #9: Festival É Tudo Verdade | Campinas

28 04 2014

A mais nova edição do Breves & Curtas traz a nossa cobertura especial do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade em sua itinerância por Campinas. A passagem do festival pela cidade do interior paulista e nessa semana por Brasília (de 30/04 a 04/05) e por Belo Horizonte em julho, traz os vencedores e os principais destaques produções das edições integrais do É Tudo Verdade que ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro no início do mês.

Os nossos textos durante os três dias em que estivemos na capital paulista pode ser visto nos links a seguir: dia 01, dia 02 e dia 03.

Vamos conferir agora o que vimos em Campinas:

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HOMEM COMUM (Brasil, 2013)  Vencedor do prêmio CPFL Energia / É Tudo Verdade: Janela para o Contemporâneo (melhor documentário brasileiro de longa/média-metragem

Utiliza das semelhanças de dois filmes – o dinamarquês Ordet (1955) e o americano Life, the Dream (2012) – para moldar o retrato de vida de um caminhoneiro e sua família durante quase 20 anos. Uma mescla interessante entre o que é real e o que é ficção.

NOTA: 4/5

SOBRE A VIOLÊNCIA (Suécia, EUA, Dinamarca e Finlândia, 2014) – Uma análise da violência a partir do colonialismo e, principalmente, quando esta surge com a descolonização. Aqui, países como Zimbábue, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau são as grandes vítimas da opressão religiosa, militar, social e econômica dos países europeus, uma intervenção dizimadora de culturas.

Em troca de suas riquezas naturais, o povo explorado recebia miséria, pobreza, fome e desolação. Incisivo em suas denúncias, Sobre a Violência levanta outras questões interessantes: o prevalecimento de valores cristãos (tal como a supremacia do branco perante o negro) e do porquê as nações africanas não tiveram o seu devido ressarcimento tal qual as nações europeias após a expansão e extinção do nazismo no Velho Continente. Não se trata de uma questão financeira, mas sim de oferecimento de condições propícias ao próprio desenvolvimento da África: a lógica de menos comida e mais ferramentas.

O documentário de Göran Hugo Olsson ainda é corajoso em sua conclusão ao defender uma nova organização social mais humana, distanciando-se o máximo possível daquela propagada pelos europeus. Algo muito mais complexo do que a simples substituição do capitalismo pelo socialismo.

NOTA: 5/5

UM HOMEM DESAPARECE (Japão, 1967) – Um conturbado, complicado, burocrático e confuso documentário sobre uma única questão: por que, num país pequeno como o Japão, tantas pessoas desaparecem? A produção de Shohei Imamura persegue os passos de um homem que abandonando sua família e sua noiva.

A investigação tenta reconstruir os passos do desaparecido com as limitações tecnológicas da época sem nenhum registro eletrônico – seja de imagens de câmera ou de informações bancárias confiáveis.

Tudo é baseado 100% em entrevistas de testemunhas que por ventura tenham visto tal pessoa muito tempo depois dos fatos ocorridos. Um tempo o suficiente para que a memória apague qualquer detalhe mais preciso.

Embora entremos em contato com um lado desconhecido da sociedade japonesa (como a traição e a prostituição), a base da narrativa enfraquece completamente Um Homem Desaparece. Tanto pela mudança constante de foco da “investigação”, quanto pela perda de um longo tempo com discussões irritantes e banais entre acusado e acusador.

NOTA: 1/5

JASMINE (França, 2013) – Vencedor do prêmio de melhor documentário internacional de longa/média-metragem

Não foi só na política que França e Irã se relacionaram diretamente, uma vez que Paris foi refúgio do aiatolá Ruhollah Khomeini durante as Revolução Iraniana de 1979. Na mesma época e envolvendo os mesmos países está a história de amor entre o francês Alain e a iraniana Jasmine.

Para documentar esse conturbado relacionamento, que evoluiu e definhou tal como o estado político do Irã, entram em cena a leitura de cartas trocadas entre os dois, a animação em stop-motion (e seus bonecos de argila) e imagens de arquivo para registrar outra história de amor impossível. Mais uma entre tantas outras, mas contada de forma inesperada.

NOTA: 3/5

20 CENTAVOS (Brasil, 2014) – Com a transformação de celulares e smartphones em pequenas centrais de mídia, os protestos de junho de 2013 puderam ser vistos e compartilhados pelas redes sociais, onde coube a cada manifestante registrar em seu aparelho os gritos, os excessos da polícia, o vandalismo irracional de delinquentes encapuzados de uma manifestação plural e de múltiplos objetivos e interesses.

O documentário de 53 minutos de Tiago Tambelli nada mais é do que um apanhado geral dessas imagens (com uma qualidade melhor do que a de um celular), com poucos efeitos gráficos e envolto por trilha sonora. Apesar do ineditismo, de ser o primeiro produto audiovisual finalizado a menos de um ano dos protestos, a produção não acrescenta nada de novo aos olhos mais atentos que acompanharam a cobertura da mídia tradicional. Cobertura que utilizou fartamente dos aparelhos portáteis dos manifestantes.

NOTA: 2/5





19º É Tudo Verdade | Campinas

18 04 2014

Após o sucesso das exibições de documentários no Rio de Janeiro e em São Paulo, o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade inicia sua itinerância pelo Brasil. Campinas, de 22 a 24 de abril, será a primeira cidade a recebê-la e depois, o festival ainda segue para Brasília (30/04 a 04/05) e Belo Horizonte (24 a 27/07).

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A cidade campineira receberá três sessões diárias no espaço Instituto CPFL | Cultura, incluindo os vencedores das mostras competitivas nacional e internacional, conforme a programação a seguir:

  • TERÇA-FEIRA (22/04)
    • 17h00 De Gravata e Unha Vermelha
    • 19h00 Homem Comum (vencedor da competição brasileira)*
    • 21h00 Ai Weiwei: O Caso Falso
  • QUARTA-FEIRA (23/04)
    • 17h00 Lugares: A Procura de Rusty James
    • 19h00 Sobre a Violência
    • 21h00 Um Homem Desaparece
  • QUINTA-FEIRA (24/04)
    • 17h00 Carmem Miranda: Bananas is my Business
    • 19h00 Jasmine (vencedor da competição internacional)
    • 21h00 20 Centavos

* Esta sessão contará com a presença do fundador e diretor do É Tudo Verdade, Amir Labaki.

 

 





19º Festival É Tudo Verdade | dia 03

12 04 2014

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BARDOT, A INCOMPREENDIDA (França, 2013) Brigitte Bardot considerada uma das dez atrizes mais lindas da história do Cinema. Símbolo sexual na década de 60, Bardot conseguiu quebrar a hegemonia das americanas, sendo a única europeia a ganhar destaque e espaço na mídia dos EUA.

Tanto sucesso e beleza, rivalizando inclusive com Marilyn Monroe, despertou a paixão (platônica) em muitos(as) fãs. David Teboul é um desses homens que foram fisgados pela estonteante Bardot, cuja admiração o levou a realizar este documentário.

Talvez essa seja o maior problema do documentário. Embora faça uma abordagem ampla e detalhada de toda a carreira da atriz francesa, com uma pesquisa longa em fotos e trechos em que a atriz atuou, David privilegia a sua visão passional para abordar o universo construído ao redor de Brigitte Bardot, onde a sua admiração ganha mais valor em tela do que a persona da artista. Um mal uso do acesso exclusivo que o diretor teve com os arquivos pessoais daquela que, desde que abandonou a carreira artística, dedica-se a uma vida reclusa e toda dedicada a causa animal.

NOTA: 1/5

DOMINGUINHOS (Brasil, 2014) –  Um pião rodando. Cactos. Bolinha de gude. Trote de cavalo. O movimento sincronizado com o som da respiração. Em imagens desgastadas, o documentário dirigido a seis mãos dos estreantes Joaquim Castro, Eduardo Nazarian e Mariana Aydar vai apresentando aquilo que fez parte da infância de José Domingos de Morais, mais conhecido por Dominguinhos (o Neném do Acordeão) em Garanhuns, estado de Pernambuco.

A influência do pai (também músico) com quem teve o primeiro contato com a sanfona, a inspiração nos baiões românticos de Luiz Gonzaga. Foi inclusive com a sanfona dada por ele que Dominguinhos conseguiu se firmar no Rio de Janeiro para onde se mudou, se apresentando nas barcas que realizavam a travessia Rio-Niterói.

Ao contrário de outras personalidades, Dominguinhos teve um amplo arquivo em imagens e vídeos para ilustrar as várias passagens da trajetória de seu simpático homenageado. Não há como não se divertir com os causos contados pelo próprio Dominguinhos, por exemplo, o seu arrependimento por não estar presentes nas diversas homenagens que recebeu no exterior devido o medo de voar. Vê-se o reconhecimento (não só nacional) à um artista humilde e autodidata que transitou por todos os estilos musicais com muita desenvoltura. Não a toa que outra de suas alcunhas era ser o ‘sanfoneiro pop’.

NOTA: 5/5

A FAMÍLIA DE ELIZABETH TEIXEIRA / SOBREVIVENTES DA GALILEIA (Brasil, 2014)   Constituem mais dois bons motivos para você (assim como eu) que teve a ousadia de não ter assistido Cabra Marcado para Morrer. Feitos pelo documentarista Eduardo Coutinho para compor os extras do DVD de Cabra Marcado para Morrer, esses dois vídeos ganharam uma sessão especial na edição desse ano do festival É Tudo Verdade. Uma justíssima homenagem ao mestre dos documentários brasileiros, assassinado brutalmente no início desse ano.

Aqui, Coutinho leva o espectador a revisitar os personagens que sofreram com a história real de João Pedro Teixeira, líder da Liga dos Camponeses, assassinado em uma emboscada, retratada em Cabra Marcado para Morrer. Revisitar sim, pois os mesmos personagens ganham uma retrospectiva de suas faces com o passar dos anos na tela, auxiliando aqueles que não viram a obra original dos quais esses extras originaram. Uma família cujos membros carregam consigo a dor da falta do convívio harmônico de seus entes após a perda de seu patriarca.

Desde então, alguns se dispersaram pelo país com cicatrizes há mais de trinta anos abertas, escrevendo novas histórias de vida, sentindo falta daquela união comum entre uma família; outros, tentam sobreviver e assim preservar a história (de geração em geração) escrita por seus antepassados e os palcos onde ela foi encenada.

Brilhantemente, Eduardo Coutinho conduz esse reencontro entre personagens/espectador com um carisma e companheirismo únicos, capazes de trazer momentos de bom humor à uma história marcada pela tragédia. Características de uma índole que poucos documentaristas no mundo podem afirmar possuir.

NOTA: 5/5

 

—> A nossa cobertura especial do festival internacional de documentários É Tudo Verdade 2014 ainda contará com dois textos especiais sobre duas produções que consideramos serem os grandes destaques em nossa estadia de três dias no evento. Aguardem!





19º Festival É Tudo Verdade | dia 02

8 04 2014

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EIXO ÓPTICO (Rússia, 2013) – Esse documentário russo é dos típicos casos em que a premissa é interessante, mas a execução deixa a desejar.

A ideia de retratar as diferenças culturais, sociais e tecnológicas entre os 100 anos que separam a Rússia atual daquela registrada pelo fotógrafo Maxim Dmitriev é interessante. Para tanto a diretora Marina Razbezhkina utiliza gigantescas fotos em preto-e-branco, e nos mesmos cenários com ajuda de personagens análogos, tenta reconstruir a mesma visão (mais contemporânea) da fotografia.

Só que ao invés de se limitar ao contraste entre as fotografias, o documentário passa a se focar mais e demoradamente nos novos e desconhecidos personagens tornando o projeto longo e cansativo em excesso.

NOTA: 1/5

BERNARDES (Brasil, 2013) O brasileiro Sérgio Bernardes foi um arquiteto, que pertencendo à mesma leva de profissionais de calibre como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, tinha uma visão e ambição muito além da época em que vivia. Com um talento nato para a arquitetura, um dom que desenvolvia desde pequeno, era tanto a sua criatividade que muitos de seus projetos (grande maioria deles residenciais no início da carreira) chegavam a ser confundidos com os de Niemeyer.

Além de criativo, Bernardes também era visionário. Evidências não faltam. Sejam aquelas espalhadas pelo território brasileiro (residências pelo estado carioca como a residência da família do arquiteto ou a do cirurgião-plástico Ivo Pitanguy), o Tropical Hotel Tambaú em João Pessoa (localizado no extremo oriente do litoral brasileiro e seus detalhes minuciosos únicos), o Pavilhão São Cristóvão no Rio (mesmo desfigurado sem a cobertura original, que exigia alto investimento em manutenção) ou no exterior, com o Pavilhão Brasil em Bruxelas cujo balão vermelho exercia diferentes funções conforme o clima. Mas muitos outros tesouros, fruto da mente de Bernardes, podem ser descoberta nos documentos deixados por seu extinto escritório.

Por outro lado, o documentário também retrata com propriedade os motivos pelos quais Sérgio Bernardes é um nome ignorado pela arquitetura contemporânea brasileira. Bernardes trabalhava com muito afinco, “inventando coisas sem parar”. Tinha em mente algo que falta a nossa política desde sempre: um planejamento em longo prazo em seus projetos, vislumbrando um Rio de Janeiro organizado em vários micros distritos e um Brasil futurista servido nacionalmente por grandes vias fluviais. O trabalho do arquiteto funcionava constantemente assim, em larga escala. E com o advento do golpe militar em 1964, havia um ambiente propício para a realização dessas grandes obras, o mais próximo possível que esse grande trabalho de Bernardes teve de sair dos papéis e virar algo, digamos, concreto.

Uma grande injustiça! O modo de viver intenso de Sérgio (que sabia aproveitar como ninguém a vida e oferecia isso em seus projetos residenciais de alto-padrão), não o permitia se entregar às picuinhas e burocracias que permeavam e ainda permeiam o nosso mundo político. Ele não tinha nenhuma vocação para isso. O que realmente  jogou contra o reconhecimento da genialidade de Sérgio Bernardes foi sua ambição desenfreada e sua ingenuidade política, que em conjunto, colocaram o arquiteto fora das quatro linhas do campo da arquitetura brasileira. Erro histórico que pesquisas acadêmicas em cima de seus milhares projetos e desenhos poderão corrigir e, assim, recolocar o nome de Sérgio Bernardes em destaque novamente.

NOTA: 5/5

AI WEIWEI: O CASO FALSO (Dinamarca, 2013) – Tem como protagonista Ai Weiwei, artista plástico e designer arquitetônico chinês, que viveu um inferno jurídico ao ser acusado pelo governo chinês de ser subversivo, principalmente por suas atividades virtuais e ser considerado um grande influenciador político.

Para exercer a sua censura, o governo chinês utiliza-se de várias artimanhas para prender Weiwei e assim calá-lo, já que respondia os processos em prisão domiciliar. Valia tudo, até acusações de algo que não existe na China (sonegação fiscal) ou pornografia em uma das fotos de nudez que tem a participação do artista. A perseguição política, inclusive, é algo recorrente na família dele. Seu pai sofreu a mesma pressão em 1957.

Conhecido pela sua participação na construção do Ninho de Pássaro, o Estádio Nacional, para as Olimpíadas de 2008, Weiwei contou com grande apoio popular de chineses e de seus amigos artistas e/ou da imprensa internacional nesse período. Ao mesmo tempo em que enfrentava o furor do maniqueísta poder judiciário chinês, o artista tratava de abordar artisticamente o que vivenciara. Enquanto era “perdoado” pela justiça, as peças que retratavam o interrogatório e sua breve passagem pela cadeia deixavam o país clandestinamente, rumo a Bienal de Veneza.

NOTA: 4/5

TUDO POR AMOR AO CINEMA (Brasil, 2014) O Cine Livraria Cultura no Conjunto Nacional em São Paulo, pelo festival É Tudo Verdade, sediou no último domingo (dia 06/04), a segunda exibição nacional do documentário Tudo por Amor ao Cinema, que foi a sessão de abertura do mesmo festival na cidade do Rio de Janeiro. A sessão contou com a participação do idealizador do evento, Amir Labaki, com o diretor Aurélio Michiles e parte de sua equipe (técnica e de elenco).

Amir Labaki (a esq), Aurélio Michiles (ao centro com microfone) e parte da equipe do doc Tudo pelo Amor ao Cinema

Amir Labaki (a esq), Aurélio Michiles (ao centro com microfone) e parte da equipe do doc Tudo pelo Amor ao Cinema

A missão era documentar a vida do amazonense Cosme Alves Netto, curador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna carioca, que com o seu incansável trabalho tornou-se sinônimo de restauração, conservação e propagação da cultura cinematográfica, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Algo construído a partir do seu garimpo nos arquivos censurados pela ditadura militar (e eram salvos da destruição por ele) e em outras cinematecas internacionais que por ventura poderiam conter qualquer obra brasileira que fosse.

Com seu poder de aglutinação, Cosme também criou um celeiro de novos cineastas brasileiros, frequentadores assíduos da Cinemateca gerenciada por ele e do Cine Paissandu, importante cinema de arte carioca. Sua atuação contribuiu de duas formas para o Cinema brasileiro: a histórica, com a preservação de filmes raros, e pelo fomento da produção nacional, já que seus amigos viriam a consolidar o mercado doméstico cinematográfico no Brasil com suas obras.

Um personagem de fundamental importância para o nosso Cinema, sem dúvidas.

NOTA: 5/5





ANÁLISE: Alemão

1 04 2014

Para que o governo do estado do Rio de Janeiro implementasse o seu programa de pacificação das comunidades carentes dos morros cariocas era preciso um levantamento detalhado da movimentação e da organização dos traficantes nesses locais. Daí a necessidade de policiais disfarçados nesses locais para obtenção de informações e assim instalar as famosas UPP’s, as Unidades de Polícia Pacificadora.

Alemão, longa de José Eduardo Belmonte (Se Nada mais der Certo e Billi Pig), concentra-se nesses policiais infiltrados a partir do momento em que fichas com seus nomes acabam caindo nas mãos dos traficantes que o reconhecem de imediato. Referindo-se ao bairro onde a história se passa, percebemos o quão abrangente o título se torna quando toda a ação ocorre praticamente num único e diminuto local do Morro do Alemão, uma pizzaria, justamente onde os cinco policiais à paisana encontram-se acuados sem poderem sair da comunidade devido ao pente-fino que os traficantes realizam nos becos e ruelas da favela.

Vividos por Caio Blat (de Xingu e na recente estreia de Entre Nós), Gabriel Braga Nunes (O Homem do Futuro e Anita e Garibaldi) , Milhem Cortaz (Tropa de Elite 1 e 2 e Assalto ao Banco Central), Otávio Muller (Reis e Ratos e Giovanni Improtta) e pelo novato Marcello Melo Júnior, os policiais infiltrados Samuel, Danilo, Branco, Doca e Carlinhos, respectivamente, são o que a narrativa tem de mais forte em tela. Não só pelo perigo iminente que correm de serem encontrados a qualquer momento pelos traficantes, mas também pela forte desconfiança que um tem do outro em relação à responsabilidade de estarem nessa situação, ou seja, que um deles tenha dedurado o verdadeiro papel deles ali. Obtêm-se assim duas formas eficientes de tensão.

O problema de Alemão ocorre quando o enfoque da história não está nesses cinco protagonistas. O maior deles atende pelo nome de Cauã Reymond (À Deriva e Estamos Juntos) que comanda o tráfico na comunidade com a alcunha de Playboy. O ator em momento algum oferece uma intensidade dramática ao seu personagem que parece muito mais um mauricinho de classe média do que um comandante marginal e impiedoso. Com um fraquíssimo vilão, todo o temor e apreensão que deveria vir do personagem se esvai e o longa acaba se perdendo na dualidade entre o bem e o mal, essencial para qualquer boa história. Se a intenção de Cauã era se desvencilhar da figura de ‘bom-moço’ – intenção que revelou em entrevistas sobre a sua escolha de personagens -, não obteve sucesso algum. A atuação dele torna-se ainda mais apagada quando o roteiro de Leonardo Levis (O Concurso) e Gabriel Martins trata de excluí-lo da tomada de decisão no momento crucial do filme.

O pequeno núcleo policial na delegacia envolvendo a participação de Antônio Fagundes (Deus é Brasileiro e Quando eu Era Vivo) como o delegado Valadares e pai do personagem de Caio Blat também pouco acrescenta à trama, além de ocupar minutos preciosos de projeção que seriam melhor aproveitáveis se fossem destinados aos policiais encurralados na favela. Vale destacar também a participação pavorosa e completamente descartável de um policial enviado à comunidade para obter informações de seus companheiros e é infantilmente capturado pelos traficantes.

Com louváveis acertos (como manter os protagonistas como sombras na maior parte do tempo no cenário, realçando o quanto estes não pertencem ao local em que se encontram), os atores principais propriamente ditos, mas também com muitos erros, Alemão oferece um bom momento de entretenimento mesmo optando por soluções simplistas (nesse caso a diarista Mariana – participação de Mariana Nunes de A Febre do Rato -, que serve apenas para alterar a direção da história em dois momentos) e parcamente elaboradas. Nada muito além do razoável.

NOTA: 3/5








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