Mostra Internacional de Cinema SP 2014 | parte 1

19 10 2014

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15 ANOS + 1 DIA (Espanha)– A rebeldia comportada de Jon (vamos admitir, as suas ‘travessuras’ nem são tão graves assim para justificar a sua suspensão de 3 meses na escola) o leva a passar uma temporada na casa de seu avô, longe de qualquer apetrecho eletrônico.

Por mais problemático que seja, Jon (Arón Piper, de Maktub) tem um bom relacionamento com sua mãe (Maribel Verdú, do inesquecível O Labirinto do Fauno e E Sua Mãe Também), uma atriz que poderia ser veterana, mas não é. A dificuldade para ela conseguir um trabalho qualquer é tanta que até a própria mãe dela admite que a situação só não é pior devido ao bom patrimônio deixado pelo pai de Jon, cuja morte ocultada vira um dos escopos da trama.

E esse é o grande problema de 15 Anos + 1 Dia – a quantidade excessiva de temas abordados –, que acaba enfraquecendo-o como um todo narrativamente falando. Uma hora são problemas inerentes a qualquer adolescência comum, depois são os problemas familiares do passado que ainda ecoam no presente, uma discussão tola envolvendo uma desnecessária briga de vizinhos e, por fim, uma questão policial que ocupa toda a sua metade final. Tudo desenvolvido sem um aprofundamento apropriado e sem despertar o interesse necessário.

NOTA: 2/5

PÁSSARO BRANCO NA NEVASCA (EUA/França)– Podemos dizer que Kat (mas a não a Katniss de Jennifer Lawrence em Jogos Vorazes e sim Katrina Connor, vivida pela igualmente linda Shailene Woodley – vista recentemente em produções de grande apelo público como Divergente e A Culpa é das Estrelas) amadureceu bem apesar de todo o estranho ambiente familiar que a cercava.

Seus pais viviam um autêntico casamento de fachada, um relacionamento onde imperava a infelicidade. Eva Green (de Cruzada e Sin City: A Dama Fatal), que interpreta a mãe da adolescente, Eve Connor, encarna maravilhosamente bem todas as fases e temperamentos de sua personagem: desde a esposa dedicada e ideal no início de casamento até chegar ao ápice de uma mulher a beira da loucura, consumida pelo tédio que a união com Brock Connor (Christopher Meloni, Noites de Tormenta e O Homem de Aço) despertou.

Estar na pele de Kat não era mesmo uma tarefa fácil, que ouvia quase a todos os instantes as lamentações da mãe pelo casamento até o momento em que essa desaparece em 1988, quando a garota tinha então 17 anos. Pode até parecer estranho, mas o sumiço repentino da mãe pouco alterou a rotina da filha: continuava saindo com seus melhores amigos Beth (Gabourey Sidibe, que surgiu no filme Preciosa: Uma História de Esperança e da série The Big C) e Mickey (Mark Indelicato, da série americana Uggly Betty); tinha que conviver com um pai apático e apenas o seu relacionamento com Phil (Shiloh Fernandez, A Morte do Demônio e A Garota da Capa Vermelha) vinha esfriando desde então.

Embora não consiga desenvolver suas subtramas (caso de Kat com o detetive que investiga o sumiço de sua mãe) com a mesma qualidade vista no plot principal, Pássaro Branco na Nevasca melhora sempre quando volta para o seu foco primordial: desvendar o que de fato ocorreu com Eve. O longa de Gregg Araki (também diretor de Mistérios da Carne) não assume as características de um thriller policial, mas se sai bem na parte investigativa utilizando-se de pistas soltas ao longo da história. Não podemos deixar de citar a boa trilha sonora com músicas da época e o carisma demonstrado por seu elenco de coadjuvantes.

Nada disso, porém, preparou ou indicou o caminho para o seu desfecho e suas motivações.

NOTA: 4/5

FILHO DE TRAUCO (Chile) – No Chile há uma lenda que diz que crianças cujos pais são desconhecidos e são criadas por mães solteiras acabam sendo chamadas de ‘filhos de Trauco’. Uma crendice muito popular em vilarejos afastados dos grandes centros urbanos, encravados no interior do país. Crendice que ganha ainda mais força em uma comunidade instalada numa ilha isolada da parte continental do país.

O protagonista do filme, Jaime (o novato Xabier Usabiaga), se enquadra parcialmente nessa descrição.  O jovem de 14 anos desconhece a sua paternidade, mas mesmo sendo habitante da ilha, não cai facilmente nos contos criados pelos seus conterrâneos. O seu espírito poético é libertador (que mais tarde o longa revela ser um dom herdado de seu pai), o que invoca nele uma imensa vontade de deixar a ilha e seguir para o norte do Chile, rumo à uma cidade maior. Uma ideia que ganha mais força ao ser suspenso injustamente pela direção de sua escola em um caso de plágio.

Filho de Trauco é o primeiro longa-metragem do diretor Alan Fischer, que a partir de uma lenda urbana, cria uma aventura juvenil com Jaime em busca da verdade sobre a identidade de seu pai, deparando-se com uma nova versão sobre a identidade do seu pai e o que lhe ocorreu a cada passo dado. Tudo envolto por uma atmosfera híbrida meio fantástica, meio real, criada habilmente através de criativos créditos iniciais (que acabam nos apresentando a ilha onde a trama se passa) e as recriações digitais de visões de Violeta (a estreante Ignacia Tellez), o primeiro interesse amoroso de Jaime. Mas nada muito além disso.

NOTA: 3/5

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ATENÇÃO: Esse post inicial é apenas um aperitivo. A cobertura do Universo E! na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo continua no próximo fim-de-semana, onde dedicaremos, no total, 5 dias ao festival.





ANÁLISE: Maze Runner – Correr ou Morrer

10 10 2014

Um elevador está subindo. Na escuridão plena, só o ruído de seu funcionamento é perceptível. Esse é um processo que se repete já há um bom tempo. O novato chega ao que chamam de Clareira e sua presença, recém-saída de um buraco no chão, é acompanhada de perto por inúmeros garotos, todos habitantes de uma espécie de vilarejo cercado por enormes e intransponíveis muralhas que protegem um labirinto de mesmas proporções.

Todos aqui presentes já passaram por isso: chegam desnorteados, desconhecendo seu passado e seus próprios nomes. Assim como os veteranos, o novato de agora leva algum tempo para lembrar o seu, Thomas (Dylan O’Brien, da série Teen Wolf e da comédia Os Estagiários). Em um sistema de camaradagem e cooperação (o grupo exige respeito um dos outros para a comunidade se manter nos eixos), Thomas passa a se familiarizar com o ambiente, toma ciência das regras e dos perigos que o cercam assim como o estranho fato da passagem para o labirinto se fechar ao entardecer. Antes que isso aconteça é preciso que membros do grupo, chamado de Corredores, retornem de sua jornada diária: mapear todo o labirinto durante o dia e voltar antes que a abertura se feche. Ninguém que, involuntariamente, tenha quebrado essa regra sobreviveu para contar a história. As únicas duas certezas que possuíam sobre o que se passava do outro lado da muralha ao cair da noite vinham do som das paredes internas da construção se rearranjando e os grunhidos das criaturas denominadas Verdugo.

A chegada de Thomas quebra o status quo do grupo comandado por Alby (Aml Ameen, O Mordomo da Casa Branca e Juventude Rebelde). Embora na comunidade todos cumprissem com os seus deveres, tal comportamento acabava vetando uma ousadia maior de seus membros, minguando qualquer possibilidade que os tirassem dali. Seria a desobediência às regras um mal necessário? E um mundo onde não houvesse infrações e nem autoritarismo não seria perfeito como a ideia nos parece? A ousadia e curiosidade de Thomas renderam muito mais – em poucos dias – do que o trabalho daqueles que estavam ali há anos e contentaram-se apenas em descobrir os limites do labirinto. Verdade que poucos sabiam para não acabar com a esperança de todos.

Alguns aspectos da trama de Maze Runner – Correr ou Morrer devem ser relevados, bem mais até do que o limite do aceitável para um filme ser considerado bom. Mesmo querendo levar a crer que todas as possibilidades tenham sido esgotadas anteriormente, não entendemos o porquê de nenhum deles ter usado a relva que cobre as paredes do labirinto para se esconder dos tais Verdugos e obter, assim, mais tempo para investigar o local. Ou até mesmo a existência inflada de personagens para funcionarem apenas como gatilho narrativo em certos momentos e serem totalmente ignorados no restante do filme – caso de Teresa (Kaya Scodelario, de Fúria de Titãs e Lunar) e Chuck (interpretado pelo novato Blake Cooper).

Nem mesmo com o ataque maciço dos Verdugos à Clareira, a história conseguiu eliminar todos os figurantes dispensáveis. Isso afeta diretamente as cenas de ações que empolgam pelo perigo imediato (principalmente aquelas que se passam dentro do labirinto), embora sejam poucas as pessoas com quem realmente nos preocupamos. Por isso, as sequências protagonizadas apenas por Thomas funcionem melhor do que as restantes, na medida em que o ator Dylan O’Brien realiza um bom trabalho naquilo que lhe concerne, construindo um líder admirável, crível, que transmite confiança e tenha facilidade para angariar apoio dos demais. A única exceção atende pelo implicante Gally (com Will Poulter, de Família do Bagulho e As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada, assumindo bem o papel de tirano), que tem as suas motivações para agir de tal modo.

Quem vai assistir a Maze Runner – Correr ou Morrer deve ter em mente a intenção clara do estúdio em incluir uma nova franquia de sucesso em seu catálogo e finais em aberto devem, necessariamente, fazer parte dessa receita. A esperança de uma continuação vem acompanhada de um bom desempenho de público e a liderança nas bilheterias americana e brasileira já garantiu a estreia da segunda parte para setembro de 2015. Entretanto, o longa dirigido por Wes Ball (se aventurando pela primeira vez na direção de um grande projeto de Hollywood) não cria um desejo desenfreado para a espera de uma continuação, nem mesmo com a revelação do mundo pós-apocalíptico por trás do labirinto. Na realidade há sim um certo receio em aguardar o que está por vir.

NOTA: 3/5





ANÁLISE: Se Eu Ficar

17 09 2014

O mal tempo típico do inverno no hemisfério norte fecha as escolas e altera o cotidiano de Mia (Chlöe Grace Moretz, A Invenção de Hugo Cabret e Carrie, A Estranha) possibilitando uma pequena viagem de carro dela com sua mãe (Mireille Enos, Guerra Mundial Z e Caça aos Gângsters), seu pai (Joshua Leonard, A Bruxa de Blair e Homens de Honra) e seu irmão caçula Teddy (Jakob Davies, de Uma Viagem Extraordinária e Guerra é Guerra!) . Muito mais do que uma simples alteração da rotina diária, essa mudança nos planos irá marcar definitivamente a vida da protagonista.

Nessa viagem, Mia sofre um trágico acidente e passa por uma experiência além-corpo enquanto inconsciente no leito do hospital. Ela vivencia, em espírito, tudo o que ocorre ao seu redor e o que se passa com os seus outros familiares na emergência onde a trama, efetivamente, ocorre. Flashbacks ao longo do filme desenvolvem melhor a personagem principal contando sua vida em família, da sua paixão pelo violoncelo e do seu envolvimento amoroso com Adam (Jamie Blackley, Branca de Neve e o Caçador e O Quinto Poder).

Se Eu Ficar, porém, trata-se muito mais de uma tentativa forçosa de emocionar (em vão) e repleto de frases de efeito vazias– ou marcantes ou de autoajuda, aquelas típicas de legendas de imagens alto astral que infestam as redes sociais -, e que deveriam causar algum impacto, mas não soam verdadeiras quando ditas pelos seus respectivos atores, sejam eles os novatos ou até mesmo os veteranos. A única vez em que essa intenção é atingida, o filme já está em sua parte final, quando o avô (Stacy Keach, de A Outra História Americana e Nebraska) discorre a neta sobre as decisões tomadas por seu filho no passado e enumera a dura realidade que a garota virá a enfrentar caso sobreviva. Um único e efetivo discurso em meio a tantas outras frivolidades.

O diretor R.J. Cutler (produtor-executivo da série Nashville), inclusive, foca demais na abordagem juvenil e desinteressante da trama e desperdiça nuances e características que poderia torna-la bem mais marcante. Logo no início, momentos antes da fatalidade que atinge a família de Mia, a montagem inclui rápidas inserções da paisagem que permeia a estrada sem nenhum intuito narrativo. E este seria um momento ideal para a contemplação do longa e uma maior valorização de sua boa fotografia.

O próprio acidente (em seu instante e no momento imediatamente posterior) é ocultado, quando deveria ser mais bem abordado sem prejudicar, necessariamente, em sua classificação indicativa. Faixa etária que, certamente, foi a maior preocupação de seus produtores. A própria música clássica vira uma mera alegoria na trama. Mia poderia ter qualquer outro dom ou hobbie que não haveria nenhuma interferência na trama, o que é indesejável de onde se espera uma boa história. E soa risível quando a jovem afirma que o violoncelo seria, para ela, o seu lar, o seu refúgio. O instrumento musical surge em cena como um garfo deveria aparecer numa cena de jantar.

O relacionamento entre Mia e Adam, construído inteiramente através dos flashbacks, também apresenta mais do mesmo. A fase do flerte, adequação de um ao mundo do outro (aqui, o mundo do rock ao mundo da música clássica), as dificuldades do namoro à distância a partir do momento em que Adam começa a sair em turnês com a sua banda e Mia precisa ficar em casa e praticar para a sua audição no renomado instituto da Juilliard

A única coisa interessante de Se Eu Ficar é convergir a crise no relacionamento dos dois adolescentes com o desfecho do acidente.  E o faz satisfatoriamente. Da necessidade da presença de Adam no hospital para que Mia tenha uma chance real de sobrevivência, um motivo para que ela possa se apegar aqui na Terra. Mas com uma construção tão mesquinha e covarde oferecida até esse instante, a concretização fica muito aquém do ideal. E uma das razões para tanto seja a inexperiência do diretor em projetos para o cinema, já que possui uma carreira praticamente toda voltada para a televisão americana.

NOTA: 1/5





ANÁLISE: No Olho do Tornado

13 09 2014

Rua deserta em uma área residencial. Noite. Um grupo de amigos dentro de um automóvel. De repente, ao longe,  a iluminação pública vai se apagando progressivamente, extinguindo-se os pontos luminosos no alto dos postes até entendermos claramente o que está acontecendo. E os ocupantes do carro também o descobrem, só que tarde demais: um tornado se aproximava.

A cena inicial de No Olho do Tornado ilustra muito bem toda a sua esquemática. O que o roteiro do novato John Swetnam (Evidências e Ela Dança, Eu Danço 5) não apresenta em ousadia, o diretor Steven Quale (responsável pela direção de Premonição 5, além da parceria recorrente com James Cameron como assistente de direção 2ª unidade em Avatar e Titanic) compensa nos ótimos efeitos visuais das cenas de ação alucinantes. Gary (Richard Armitage, de Capitão América: O Primeiro Vingador, mas que também surge novamente como Thorin, Escudo de Carvalho nesse ano em O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos), viúvo, não tem um relacionamento considerado ideal com seus filhos, Donnie e Trey (respectivamente Max Deacon, de Reflexos da Inocência e da minissérie Hatfields & McCoys, e Nathan Kress, o Freddie Benson da série teen iCarly) . O três se preparam para o evento da formatura no colégio do qual o pai é o vice-diretor, enquanto os dois meninos serão responsáveis pela filmagem do evento. Pela parafernália eletrônica no quarto deles, sabe-se de antemão que filmar não é um mero hobbie para eles.

Aproximando-se da cidade está um grupo de caçadores de tornados em uma má fase profissional, pois já há algum tempo que não registram nenhuma tempestade substancial. O líder deles, Pete (Matt Walsh, Se Beber Não Case e Ted) deposita a culpa desse infortúnio em Allison (Sarah Wayne Callies, de Visões de um Crime, mas mundialmente reconhecida pelo trabalho em The Walking Dead), a graduada da equipe responsável por prever os fenômenos e, de preferência, o local exato onde eles ocorrerão. Para auxiliá-los,  Titus, um veículo robusto anti-tornado, capaz de resistir às maiores rajadas de vento já registradas pelo homem para colocar os seus ocupantes, literalmente, dentro do olho do tornado. Fechando as três linhas principais da história temos os amigos de Donk (Kyle Davis, A Morte Pede Carona e Prenda-me se For Capaz), que não sentem nenhum receio de estarem próximos de um furacão de grandes proporções.

Para justificar os pontos de vista exibidos, No Olho do Tornado recorre a mania mundial de todos filmarem tudo a todo momento. Um simples celular já é o suficiente para captar algo, não sendo necessário nenhum outro equipamento profissional. Natural, portanto, que ao longo do filme o foco transite entre o tradicional em terceira pessoa e as câmeras que os personagens portam, passando inclusive pelo uso de câmeras de segurança e até por um enfoque jornalístico fictício.

Essa alternância é o que longa tem de mais cativante, exigindo uma preocupação maior com os efeitos digitais, pois muitas vezes o espectador se vê muito próximo das áreas de destruição e de suas consequências e nesse aspecto o diretor não decepciona. Podemos até não gostar das decisões triviais dos personagens que conduzem fracamente a trama – como aquela que põe Donnie e sua nova colega Kaitlyn (Alycia Debnam Carey) para longe da escola -, mas No Olho do Tornado chega, com muita competência, a um novo patamar no que se refere às cenas de destruição em um filme-catástrofe, criando aqui algumas sequências emblemáticas, memoráveis e de tirar o fôlego. O longa também se beneficia ao se preocupar menos com as questões científicas e mais em convencer e impactar quem o assiste, em tornar crível aquilo que é evidenciado, independentemente das suas possibilidades aqui no mundo real.

Dentre outras virtudes, John Swetnam tem a boa vontade de não se contentar com apenas um, mas incluir três clímax em sua conclusão, uma adição muito bem vinda e muito bem executada de adrenalina. Para não dizer que tudo é perfeito, além das motivações fracas de alguns de seus personagens principais já citadas, No Olho do Tornado falha nas (poucas) inserções de humor na história e não consegue desvencilhar do batido e velho altruísmo americano, o clichê dos clichês em filmes do gênero. Mas com a intensa dose de aflição com que se sai da sala de projeção, isso é facilmente relevado.

NOTA: 4/5





ANÁLISE: Guardiões da Galáxia

1 09 2014

Uma aventura intergaláctica que ocorre ao som de clássicos que vão de 1966 até 1979. Assim podemos resumir muito bem a nova aposta da Marvel Studios para o cinema, agora com novos heróis e muitos deles desconhecidos de grande parte do público, acostumados com as milionárias produções individuais ou em conjunto de Os Vingadores.

A sessão musical nostálgica que se ouve durante o filme é explicado pelo inseparável walkman e a fita cassete que Peter Quill (Chris Pratt, de Ela, O Homem que Mudou o Jogo e empresta a voz para o protagonista de Uma Aventura Lego) carrega consigo por onde quer que vá. A fita contem gravações das músicas que sua mãe mais gostava, antes que ela viesse a falecer em 1988, o mesmo ano em que Peter é abduzido pelo grupo de alienígenas liderado por Yondu Udonta (Michael Rooker, mais conhecido por ser o irmão de Daryl Dixon na série The Walking Dead).

A grande aventura mesmo começa vinte e seis anos depois, quando Peter sobrevive de planeta em planeta como caçador de recompensas. O objeto-alvo de agora é um Orbe que carrega dentro de si uma das Joias do Infinito, uma das armas mais poderosas de universo. Tanto poder que atrai os mais variados tipos de raças para o seu encalço. Entre eles, Ronan, o Acusador (um trabalho indistinguível de Lee Pace, de O Hobbit: A Desolação de Smaug e da finada série Pushing Daisies), que deseja a peça para obter auxílio de Thanos (papel de Josh Brolin, Onde os Fracos não Tem Vez e Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme, não-creditado) em seu desejo de destruir o planeta de Xandar.

É o próprio Orbe que faz, involuntariamente, surgir os ditos guardiões da galáxia: o guaxinim Rocket (com a voz de Bradley Cooper, Trapaça e a trilogia Se Beber Não Case) e a árvore humanoide Groot (voz de Vin Diesel, da cinessérie Velozes e Furiosos e O Resgate do Soldado Ryan) se interessam pela recompensa oferecida para quem capturasse Peter;  Gamora (Zoe Saldana, Avatar e Além da Escuridão: Star Trek) deseja vingar a morte de seus pais utilizando a caça do Orbe como uma falsa justificativa, o mesmo espírito vingativo rege as ações de Drax, o  Destruidor (o grandalhão Dave Bautista, de Riddick 3 e O Homem com Punhos de Ferro), cuja família foi assassinada por Ronan.

Ciente do público-alvo de seu longa, o diretor e também roteirista James Gunn (diretor em Para Maiores e roteirista em Madrugada dos Mortos) não perde um minuto sequer para contar a história, nem mesmo a história de Peter Quill na Terra demonstrada de forma bem sucinta durante o início do filme. As motivações dos demais personagens (vilões ou aliados) são explanadas juntamente com as várias sequências de ação que o compõe, situadas em diversos lugares da galáxia. Bebendo da fonte das histórias em quadrinhos (e o seu festival de codinomes), Guardiões da Galáxia ainda apresenta pinceladas, uma hora ou outra, de outros títulos de gênero semelhante do Cinema: personagens bastante carismáticos e de criação híbrida de Star Trek ou as cenas de ação em pleno espaço de Star Wars.

Mas o ponto bastante positivo deste novo filme da Marvel Studios seja mesmo a sua fidelidade à pouca seriedade destinada a esse universo. Com uma legião de protagonistas que não abandonam de forma alguma suas idiossincrasias pelo dito “bem maior” pelo qual lutam, Guardiões da Galáxia faz piada a toda hora, até nos momentos mais emblemáticos, e ainda desempenhando inclusive funções narrativas para a trama. Praticamente todos os personagens têm os seus momentos cômicos, mas Groot, Rocket e Peter se sobressaem nesse quesito. Um blockbuster com qualidades acima da média e que casa muito bem suas naves de conceito moderníssimo com velhos clássicos da música da década de 1970.

NOTA: 5/5





Breves & Curtas #13

24 08 2014
Quando a simplicidade é o bastante para transmitir algo essencial: respeito!

Quando a simplicidade é o bastante para transmitir algo essencial: respeito!

WHITE FROG – Nick Young (Booboo Stewart, a saga Crepúsculo e X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido) sofre de síndrome de Asperger, que lhe causa uma timidez fora do comum, além de uma preferência exclusiva por camisetas azuis. Extremamente antissocial, mas inteligente. Não é a toa que seu irmão Chaz (Harry Shum Jr, Ela Dança Eu Danço e da série Glee) aproveita-se dessa habilidade para que Nick faça o seu dever de casa.

Não veja isso como uma maldade. Chaz é a única pessoa com quem Nick sinta-se normal, sempre ávido por compartilhar bons momentos com o irmão, a ponto de esperá-lo ansiosamente na janela. Um conforto que não encontra em seus pais omissos e conservadores e nem na psiquiatra contratada para melhorar o seu comportamento.

Numa das frequentes saídas para curtir a noite de sexta-feira, Chaz acaba perdendo a vida precocemente. Uma tragédia muito grande para Nick assimilar. Inconformado, ele passa a trilhar os mesmos caminhos que o irmão percorrera, aproximando-se de seu grupo de amigos e descobrindo histórias, detalhes e segredos da vida que desconhecia do seu irmão.

Uma história emocionante e comovente que incentiva e reforça a aceitação das diferenças entre as pessoas, afinal somos todos diferentes e a vida é uma eterna estrada de mão dupla. Também com as participações de Gregg Sulkin (Os Feiticeiros de Waverly Place), Tyler Posey (da série Teen Wolf e Efeito Colateral), Justin Martin (O Voo e O Solista) e Manish Dayal (O Aprendiz de Feiticeiro e do inédito A 100 Passos de um Sonho).

NOTA: 4/5

Nada mais do que: TUDO É INCRÍVEL!!! TUDO É INCRÍVEL!!!

Nada mais do que: TUDO É INCRÍVEL!!! TUDO É INCRÍVEL!!!

UMA AVENTURA LEGO – “Tudo é incrível! Tudo é incrível!” Realmente essa música gruda na cabeça e com ela o senhor Negócios controla todos os habitantes de Blocópolis, um dos diversos mundos temáticos feitos apenas de blocos Lego.

Aqui o monopólio é generalizado e todos seguem as mesmas regras, possuem os mesmos comportamentos, gostam das mesmas coisas. Mas isso não basta para o senhor Negócios que crê que seus comandados teimam em estragar todas as coisas boas que constrói. Agora ele planeja acabar com essa interferência de uma vez por todas.

Aí entra Emmet, um rapaz de mente prodigiosamente vazia (e extremamente manipulável), que se encaixa razoavelmente bem em uma profecia que elege aquele que irá combater os planos maléficos do senhor Negócios.

Na empreitada, Emmet contará com a ajuda de Megaestilo, namorada do – ninguém mais ninguém menos – Batman e ainda uma penca de personagens do mundo pop atual: Dumbledore e Gandalf, por exemplo, protagonizam a cena mais hilária da animação; mais há ainda espaço para Milhouse de Os Simpsons, Star Wars, As Tartarugas Ninjas, o presidente Lincoln, Saquille O’Neal,  Cleópatra e por aí vai.

Uma animação divertidíssima e despretensiosa até mesmo em sua resolução onde o ‘cara lá de cima’ torna-se, na realidade, o adulto pai de uma criança que mantem no porão de casa um mundo montado de brinquedo Lego. Ele era, portanto, literalmente o cara lá de cima. Assim como a coleção de blocos montáveis, Uma Aventura Lego aproveita-se muito bem de uma característica inerente à esses brinquedos: a de se moldar a qualquer história.

NOTA: 5/5

Ryan Gosling sabe escolher bem os seus trabalhos. Outro grande filme!

Ryan Gosling sabe escolher bem os seus trabalhos. Outro grande filme!

O LUGAR ONDE TUDO TERMINA – Um motociclista acrobata, cuja vida é itinerante tal qual o parque de diversões em que trabalha, resolve se fixar numa pequena cidade do estado de Nova York após descobrir ter um filho com quem teve um caso rápido e agora vive junto com outro homem.

Sem emprego, sem um local para ficar e sem condições de assumir a nova família, ele decide então, com a ajuda do único amigo na nova localidade, entrar para o mundo do crime. Com o dinheiro de assalto a bancos que ele quer convencer (a si próprio e a mãe de seu filho) que os dois juntos podem si dar certo. Só que tudo não sai como o planejado…

Entra na história o policial vivido por Bradley Cooper (Trapaça e O Lado Bom da Vida), que se torna um herói no vilarejo ao matar o Bandido da Moto, como o personagem de Ryan Gosling (Drive e Tudo pelo Poder) passa a ser conhecido. A vida do agora herói também vai do paraíso ao inferno ao cair nas engrenagens da parte corrupta da polícia.

Até que quinze se passam e o destino se encarrega de aproximar os filhos do assaltante e do policial: o primeiro levando até então uma vida, na medida do possível, tranquila e o segundo tornando-se um filho problemático e rebelde, cujo pai se encontra no meio de uma disputa política. Uma inversão dos papéis em relação aos seus respectivos pais quinze anos atrás.

Mas a vida acaba, injustamente, castigando aquele que perdeu o pai precocemente, aquele que sofreu as piores consequências do rápido e repentino envolvimento com o ‘colega’ problemático, enquanto este sempre terá a proteção do cargo público que o pai conquista!

NOTA: 5/5





Lição de casa: os Star’s da vida

25 06 2014

Até pouco tempo atrás não dava muita bola para as sagas Star’s do entretenimento: nem Star Wars e nem Star Trek.

Aí veio J. J. Abrams (da série Lost e do longa Super 8) e mudou completamente essa história. Primeiro, com Star Trek, de 2009, mas que vim assistir apenas no ano passado, estrelado por Chris Pine como o capitão James Kirk e Zachary Quinto como Spock. E daí pr’ótimo Além da Escuridão – Star Trek foi um pulo.

Agora com o Abrams a frente do novo episódio de Star Wars (o VII) previsto para o ano que vem, os seis primeiros filmes da franquia de George Lucas já estão na minha lista dos próximos filmes a serem vistos.

Mas quem saiu dessa lista é a série retratada pela imagem aí embaixo, a série original de Star Trek, de 1966. Nesse último fim de semana comecei a assistir (pelo Netflix) o episódio-piloto que foi ao ar em 08 de setembro de 1966 estrelado pelos excepcionais Leonard Nimoy (Spock), William Shatner (capitão James Kirk) e DeForest Kelley (doutor McCoy).

Além de descobrir como tudo começou há quase 50 anos, a produção clássica serve como um ótimo aperitivo até a chegada do terceiro filme com estreia prevista para 2016, agora sob a direção de Roberto Orci, que tem no currículo uma infinidade de projetos bacanas, seja como criador, roteirista ou até mesmo produtor executivo: as séries Alias: Codinome Perigo, Xena, Fringe, Hawaii Five-O e Sleepy Hollow e os filmes Missão Impossível 3, Transformers, Truque de Mestre e o recente O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro são alguns exemplos.

O trio parada dura da série clássica de Star Trek: Leonard Nimoy, William Shatner e DeForest Kelley

O trio parada dura da série clássica de Star Trek: Leonard Nimoy, William Shatner e DeForest Kelley





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 05

20 05 2014

Finalmente, antes tarde do que nunca, aqui estão os últimos comentários do Universo E! sobre o Festival Varilux de Cinema Francês de 2014. Pela terceira vez presente no festival, esta é a primeira vez que conseguimos falar sobre praticamente todos os filmes vistos: das 16 produções integrantes da programação, assistimos 15 e escrevemos (incluo esse post) sobre 13 deles. Um feito inédito!

Esperamos que tenham curtido! E que venham mais ótimos filmes pela frente!

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UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA (França, 2013) – Sua realização por si só já é uma viagem extraordinária. Uma coprodução franco-canadense conta a história de TS Spivet (Kyle Catlett, da série The Following), que vive junto com sua família num rancho isolado no oeste americano. A mãe Clair, Helena Bonham Carter (Os Miseráveis, a cinessérie Harry Potter e Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet), colecionava insetos; o pai era um típico cowboy; a irmã sonhava em participar do concurso de miss dos EUA e o seu irmão gêmeo seguia os passos rústicos do pai, adorando manusear armas desde pequeno.

Gêmeos, a única coisa em comum entre TS e Layton mesmo era a data de nascimento. Layton (Jakob Davies, de O Homem das Sombras e Guerra é Guerra!) não possuía nenhuma fração da genialidade e engenhosidade do irmão com seus cálculos e análises científicas. Uma tragédia, no entanto, acaba levando Layton a óbito.

A perda do irmão desperta em TS um sentimento de desprezo por parte da família, especialmente sua mãe. Deslocado em seu próprio ambiente familiar, ele vê na Baird Awards (organização que premia os grandes projetos científicos) uma oportunidade de ter a sua inteligência reconhecida, ao mesmo tempo que terá a chance de se afastar de seus familiares. Mesmo que momentaneamente.

Cruzar o território americano a bordo (clandestinamente) de um trem que atravessa o território de oeste a leste não é nenhuma ideia original. Encontrar os mais diferentes tipos de pessoas nesse caminho também não. E são exatamente estes momentos que Uma Viagem Extraordinária não oferta nada de novo. O ator-mirim que vive o protagonista também não se sai bem nos momentos da trama que lhe exigem mais emoção, o que certamente garantiria uma imersão maior do espectador.

O que resta mesmo são os momentos divertidos que o roteiro apresenta ao explorar a dualidade entre a genialidade TS e a vida comum de pessoas nem tão inteligentes assim. Também não é monótona acompanhar a reconciliação entre os membros da família nessa trajetória, que conta com ótimas trilha sonora e fotografia. Uma viagem nem tão extraordinária assim, mas certamente divertida.

NOTA: 3/5

UM AMOR EM PARIS (França, 2013) – Brigitte (Isabelle Huppert, Amor e Uma Relação Delicada) e o marido vivem nos arredores de Paris onde cuidam de cabeças de gado de alto pedigree para participar de exposições competitivas de bois.

Uma vida pacata e sem sobressaltos, típica de casais com muito tempo de união e com os filhos já criados. Só de tempos em tempos que o sossego é quebrado quando jovens vindos da capital francesa organizam festas na chácara vizinha.

Em uma dessas festas, Brigitte conhece Stan (Pio Marmaï, Um Evento Feliz e Alyah), um rapaz que não está muito a vontade na festa e acaba (assim como as organizadoras da festa pedindo favores a todo momento) indo parar na porta dos vizinhos.

Interessante analisar como essa safra de filmes franceses traz a crise dos casamentos de longa data para a tela. Brigitte não está infeliz no seu matrimônio, mas está insatisfeita em como ele está girando apenas na atividade de criação de gados, algo que agrada apenas ao seu marido.

É em Paris, portanto, que ela vai em busca de sua própria felicidade, tendo como pretexto uma consulta médica. Mas não será a cidade-luz que a afastará das decepções da vida, assim como homens maduros e economicamente bem estabelecidos não serão garantia  de felicidade plena.

NOTA: 2/5

GRANDES GAROTOS (França, 2012) – Dificilmente filmes conseguem construir habilmente uma construção de personagens em um curto espaço de tempo e com cortes tão rápidos. Um exemplo clássico e insuperável até hoje é aquele elaborado na animação Up – Altas Aventuras abordando o relacionamento entre Carl Fredricksen e Ellie. Grandes Garotos utiliza-se do mesmo artifício apara estabelecer rapidamente a relação entre Lola (Mélanie Bernier, A Delicadeza do Amor e A Datilógrafa) e Thomas (Max Boublil, de Aconteceu em Saint-Tropez) uma vez que o seu grande motim será a amizade que se estabelecerá entre Thomas e seu sogro Gilbert (Alain Chabat, Uma Noite no Museu 2 e A Espuma dos Dias) .

Gilbert é o exemplo de tudo que Thomas não quer em sua vida futura: um homem infeliz, descontente no casamento e que vê sua mulher Suzanne (Sabrine Kiberlain, de Uma Juíza Sem Juízo e Políssia) envolvida apenas na caridade. Mas ao mesmo tempo, Gilbert por experiência própria, valoriza e incentiva o sonho de Thomas, que sempre é menosprezado pela namorada dele: a música.

Essa repentina amizade abordada em Grande Garotos entre genro e sogro também apresenta uma dualidade e um choque entre gerações. E o título se refere a absoluta falta de maturidade existente nas ações deles, quando passam a dividir momentos juntos, em detrimento ao relacionamento destes com suas respectivas esposa/namorada.

Apenas quando uma rápida incursão no mundo fonográfico torna-se uma grande frustação (principalmente quando se rendem às vontades e traquejos de uma cantora-mirim irritante) que Thomas e Gilbert percebem o quão importante eram suas vidas anteriores à essa jornada – mesmo que isso não se traduzisse em todos os seus desejos realizados. Só que há um único problema: agora eles terão que reconquistar suas amadas que já estavam se acertando com outros companheiros. E isso pode não ser tão fácil quanto parece.

O grande destaque aqui fica por conta de uma das cenas finais, quando Thomas resolve invadir uma conferência internacional para declarar (mais uma vez) o seu amor por Lola, utilizando-se de uma gag recorrente no filme.

NOTA: 3/5





Festival Varilux de Cinema Francês | parte 04

2 05 2014

fvcf2014

A GRANDE VOLTA (França, 2012) – François Nouel (Clovis Cornillac, Eterno Amor e Asterix nos Jogos Olímpicos) tinha uma paixão e um fascínio desenfreados pela famosa Tour de France, evento anual de ciclismo na França. Apesar da enorme vontade, o seu envolvimento com a competição nunca ultrapassou o limite das arquibancadas ou das imagens transmitidas pela televisão. Até que chega em suas mãos uma oportunidade de correr por uma equipe profissional. Tudo daria certo se não fosse a reação de Sylvie (Élodie Bouchez, Perigosa Obsessão e da série Alias: Codinome Perigo), sua esposa – que detestava o esporte -, ao saber da notícia.

Sem um acordo para o conflito do casal, dividido entre a corrida e as tão pretendidas férias em família, Sylvie leva o filho para o litoral, abandonando o marido à sua própria sorte de esportista amador. Só e sem saber para onde eles foram, François decide realizar o seu sonho,  cumprindo todas as etapas da Tour de France antes da passagem oficial dos competidores e consegue, durante o percurso, reunir em torno de seu objetivo uma equipe semi-profissional para acompanhá-lo.

O que era para ser a realização de um sonho pessoal torna-se uma sensação nacional com a transmissão em rede de TV, paralelamente a realização do torneio oficial. Divertido na medida certa, A Grande Volta não se esquiva muito das maioria das produções cômicas de seu gênero, apresentando o tradicional final feliz do protagonista e a resolução de todos os seus conflitos, incluindo aí a confraternização com seu inimigo.

NOTA: 3/5

EU, MAMÃE E OS MENINOS (França, 2013) – Comédia sensação da atual temporada do cinema francês, o grande vencedor desse ano do César (o Oscar da França) já tem uma grande sacada já em seu título: uma referência a forma como a família de Guillaume chamava todos os meninos para o almoço. Mesmo sendo três irmãos, a homossexualidade visível de Guillaume não permitia que fossem chamados apenas por ‘mamãe e meninos’. Haveria de ter uma distinção de Guillaume de seus irmãos.

Construído como uma espécie de biografia da vida de Guillaume (vivido pelo talentosíssimo Guillaume Gallienne, de Maria Antonieta e Yves Saint Laurent, que também interpreta a mãe do protagonista, além de assinar a direção e o roteiro de Eu, Mamãe e os Meninos), cujos diálogos com sua mãe (sua grande inspiração) e as diversas passagens de sua vida, sobretudo os inúmeros bullyings que sofreu em sua adolescência, são mesclados entre as cenas propriamente ditas e o seu monólogo no teatro, construindo-se assim um híbrido entre longa-metragem e peça teatral. O longa ainda aborda sem nenhum receio todas as formas de preconceito possíveis para quem seja gay: na família (desaprovação do pai), na escola (a incompatibilidade geral com qualquer tipo de esporte) e no próprio meio GLS.

Muito mais comédia de situações, como se fosse uma sucessão de quadros de stand-up comedy, difícil explicar a quantidade de premiações recebidas pelo filme e o burburinho causado no público e crítica. Por mais que realmente seja divertido e tenha um ator com grande desenvoltura para ser o protagonista, não há como aceitar os seus prêmios. Ousado por brincar sem pudor com um tema tão em voga e tão debatido atualmente? Ok. Mas não podemos focar nesse aspecto em detrimento de outras obras bem mais complexas, cinematograficamente falando, que estiveram em cartaz nesse próprio festival.

Por outro lado, há a satisfação de se surpreender com a repentina alteração do rumo narrativo que o filme oferece em seu final, anulando (quase que completamente) tudo o que fora projetado até então. E com a maestria que só o cinema francês tem para deixar a conclusão da história para o seu público com uma conclusão abrupta. Mais uma em meio a tantas outras.

NOTA: 4/5

O AMOR É UM CRIME PERFEITO (França, 2013) – Uma hora esse momento teria que chegar. Um momento eu iria ver um filme abaixo da linha do razoável, que é justamente o que aconteceu com O Amor é um Crime Perfeito.

Marc (Mathieu Amalric, Cosmópolis e 007: Quantum of Solace) leciona literatura em uma universidade francesa ao mesmo tempo que coleciona uma infindável lista de casos amorosos com suas alunas. Menos por sua beleza e mais pelo seu charme e carisma. Algo tão corriqueiro para ele que mal se lembra o nome daquela com que passou a última noite, por exemplo.

Certo dia, uma bela mulher (Maïwenn, sim esse é o nome da atriz que pode ser vista também nos filmes Políssia e Alta Tensão) o procura na universidade, mas não com as intenções que gostaria. Ela está ali para obter mais informações a respeito de Barbara, enteada dela e aluna dele, que encontra-se desaparecida. Esse desaparecimento será o fio condutor de toda a narrativa.

Ao longo do filme conhecemos outras mulheres que fazem ou passam a fazer parte de sua vida. Como sua irmã Marianne (Karin Viard, também presente em Políssia e Aconteceu em Saint-Tropez) com quem divide uma casa em meio aos alpes franceses e que nutrem um amor e um ciúme surreal um pelo outro, muito além do que se espera num relacionamento entre irmãos, mesmo com o relacionamento dela com Richard (Denis Podalydès, O Código da Vinci e Caché), superior hierárquico de Marc na universidade. Em sala de aula surge uma nova aluna, Suzanne, que chega com uma obsessão  inexplicável por ele.

São justamente nesses diversos casos sexuais que O Amor é um Crime Perfeito não convence. Um grave erro ao percebemos que as grandes revelações do filme serão baseadas neles. Quando isso ocorre em tela, o impacto da surpresa não vem, simplesmente porque o roteiro não conseguiu estabelecer esses relacionamentos e seus desdobramentos da forma como deveria.

NOTA: 2/5





ANÁLISE: Clube de Compras Dallas

14 03 2014

Difícil afirmar o que Ron Woodroof gostava mais em sua vida: os rodeios, as mulheres, as drogas ou o dinheiro. Mas esse eletricista vivia seus dias intensamente e em nenhum deles faltava esses quatros itens. Entre o consumo de cocaína, a noitada com os amigos, a presença em touradas ou fugindo de quem lhe cobrava dívidas, a tosse sempre estava presente. Um sintoma que, juntamente com a magreza e os desmaios frequentes indicavam que algo não estava bem com Ron.

Num desses desmaios, os médicos confirmam o que já se suspeitava: Ron Woodroof era portador do vírus HIV, causador da Aids. Para um homem que a todo momento  reafirmava a sua virilidade e masculinidade, esse diagnóstico não era facilmente assimilado por um cidadão típico do estado americano do Texas reconhecido pelo seu ideal conservador. Não é a toa que Ron acha inadmissível ser portador de uma doença que se julgava atingir apenas os homossexuais e sua promiscuidade, afinal estamos falando da década de 80, mais precisamente do ano de 1985.

Não bastando o grave problema de ser portador de uma doença autoimune que abala o sistema imunológico humano, anulando-o quase que totalmente, a confirmação da doença veio em um momento complicado para quem era soro positivo. Naquela época, as pesquisas na luta contra a Aids ainda engatinhavam e os coquetéis, tão comumente utilizados nos dias atuais e que garantem uma vida praticamente normal para aqueles que os utilizam, ainda não estavam cientificamente estabelecidos.

Talvez seja por seu perfil irrequieto que Ron tenha conseguido ultrapassar tantos os 30 dias restantes de vida dado à ele como previsão inicialmente. Com muita garra e num trabalho excepcional e vencedor do Oscar de melhor ator de Matthew McCounaghey (da comentada série da HBO True Detective e Magic Mike), que o eletricista, por investimento e empenhos próprios, conseguiu trazer aos EUA novos ‘tratamentos’, para não ficar dependente da pouca eficaz ‘terapia em grupo’ oferecida até então pelo governo. Felizmente, Ron Woodroof acabou moldando definitivamente a forma como a saúde pública tratava os portadores de vírus HIV.

Lutar contra o sistema governamental não foi uma tarefa fácil. As outras drogas desenvolvidas mundo a fora para tratar a doença só chegavam em suas mãos através de contrabando, ou seja, ilegalmente. A sede de viver de Ron não o permitia aguardar o lento desenvolvimento das pesquisas americanas. Com essa brecha, ele via uma oportunidade de expandir o seu tratamento particular para as outras pessoas que sofriam do mesmo mal – desde que pagassem (claro!) por isso. Ron deixava claro que não fazia e nem queria fazer caridade. Nascia assim o Clube de Compras Dallas do título.

Esse novo negócio lucrativo o aproximou do grupo que ele mais detestava: o dos homossexuais, que acabaram se tornando os seus principais (se não únicos) clientes.Para vencer o seu preconceito e atingir o público-alvo desejado, Ron contou com o auxílio da “senhorita Homem”, Rayon (Jared Leto, vocalista da banda 30 Seconds to Mars, mas que já trabalhou em outros filmes como O Senhor das Armas e Réquiem para um Sonho), transexual vivido pelo igualmente magro e com a mesma performance excepcional de Jared Leto. Um trabalho também reconhecido pelo prêmio de melhor ator coadjuvante no Oscar.

Para manter o clube de compras em plena atividade, Ron estava disposto a (quase) tudo. Se passar por um (hilário) padre para atravessar ilegalmente a fronteira entre EUA e o México; falsificar documentos para conseguir novas drogas no Japão, China, Israel ou onde quer que elas sejam feitas; enfrentar a ferocidade da receita federal por faturar em um ramo econômico ainda não regulamentado; frequentar boates GLS junto com Rayon para conseguir novos clientes. Mesmo ciente da gravidade de sua doença, Ron mantinha com a mesma prática, intensidade e frequência, os péssimos hábitos vistos no início do longa: as mulheres, o dinheiro, a trambique e as drogas. A vida desregrada continuava a mesma.

Em ao meio ao redemoinho de acontecimentos que marcaram os últimos meses de vida de Ron Woodroof desde que foi diagnosticado com Aids, a única ‘ajuda oficial’ que ele teve foi da doutora Eve (Jennifer Garner, da série Alias: Codinome Perigo e dos filmes Elektra e Juno). Embora a pesquisa dela no hospital fosse diretamente afetada pela automedicação dos pacientes que se tornavam clientes do clube de compras, a doutora via o potencial do trabalho a parte realizado por Ron e sua pesquisa desenfreada na tentativa de obter a cura, mesmo que as autoridades e os médicos americanos não o percebessem.

De 1985 (quando soube da doença) até 1992, foram 2.557 dias em que Ron conviveu com a Aids. Dias que não só prolongou a sua vida muito, mas muito além mesmo dos 30 dias previstos inicialmente, mas permitiu alterar drasticamente a forma de tratamento contra o vírus HIV. O modelo atual de tratamento das pessoas portadoras da doença é fortemente inspirado na obsessão real que Ron Woodroof teve, à sua própria maneira, de aliviar o seu prognóstico mortal há quase trinta anos atrás. Uma história verdadeira que encontrou no premiado par de atores, Matthew McCounaghey e Jared Leto, a coragem e a entrega essencial para se reconstruir essa dura trajetória.

NOTA: 5/5








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